Cultura
Reparação dupla
Novo filme ‘Deus da Carnificina’, Roman Polanski trabalha assumidamente com as vantagens que o cinema detém sobre o teatro, como a agilidade da câmera e a rapidez do corte
Deus da carnificina
Roman Polanski
Pode ser variável o tom com que cada versão, seja na tela, seja no palco, se lança sobre o impactante texto de Yasmina Reza, Carnage no original. Mas sempre estará lá intacto o cinismo contemporâneo que se reveste de falsa civilidade quando dois casais se encontram para acertar as contas de uma diabrura envolvendo seus filhos. No ano passado, uma montagem teatral comandada por Emilio de Mello lançou mão da herança chanchadeira para abusar do humor sem esquecer a crítica. Na preferência do diretor Roman Polanski, no entanto, o mesmo título Deus da Carnificina presta-se a uma compreensão mais sombria e rigorosa, ainda que o riso compareça para nos causar constrangimento.
O filme em cartaz trabalha assumidamente com as vantagens que o cinema detém sobre o teatro, como a agilidade da câmera a confrontar os contendores e a rapidez do corte que aumenta a tensão. Mas Polanski faz suas escolhas pessoais, como mostrar o incidente que dá origem ao conflito logo no início, impondo ao espectador a menor importância deste do que ao desenrolar. Assim, vemos os dois meninos numa briga no parque em que um deles golpeia o outro com um pedaço de pau. O opositor ferido tem uma lesão nos dentes. Os pais do garoto agressor (Christopher Waltz e Kate Winslet) visitam então os pais da vítima (John C. Reilly
e Jodie Foster) para discutir uma forma de compensação. No início elegante, a reunião descamba à barbárie com direito a insultos, e marca da guerra completa, uma pulsão escatológica. Acrescente-se à virulência do texto uma irônica condição de Polanski à época, quando dirigiu o filme em prisão domiciliar por meio de ordens ao produtor.
Deus da carnificina
Roman Polanski
Pode ser variável o tom com que cada versão, seja na tela, seja no palco, se lança sobre o impactante texto de Yasmina Reza, Carnage no original. Mas sempre estará lá intacto o cinismo contemporâneo que se reveste de falsa civilidade quando dois casais se encontram para acertar as contas de uma diabrura envolvendo seus filhos. No ano passado, uma montagem teatral comandada por Emilio de Mello lançou mão da herança chanchadeira para abusar do humor sem esquecer a crítica. Na preferência do diretor Roman Polanski, no entanto, o mesmo título Deus da Carnificina presta-se a uma compreensão mais sombria e rigorosa, ainda que o riso compareça para nos causar constrangimento.
O filme em cartaz trabalha assumidamente com as vantagens que o cinema detém sobre o teatro, como a agilidade da câmera a confrontar os contendores e a rapidez do corte que aumenta a tensão. Mas Polanski faz suas escolhas pessoais, como mostrar o incidente que dá origem ao conflito logo no início, impondo ao espectador a menor importância deste do que ao desenrolar. Assim, vemos os dois meninos numa briga no parque em que um deles golpeia o outro com um pedaço de pau. O opositor ferido tem uma lesão nos dentes. Os pais do garoto agressor (Christopher Waltz e Kate Winslet) visitam então os pais da vítima (John C. Reilly
e Jodie Foster) para discutir uma forma de compensação. No início elegante, a reunião descamba à barbárie com direito a insultos, e marca da guerra completa, uma pulsão escatológica. Acrescente-se à virulência do texto uma irônica condição de Polanski à época, quando dirigiu o filme em prisão domiciliar por meio de ordens ao produtor.
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