

Opinião
Todos perdidos
O desastre diante do tradicional Uruguai nos jogos eliminatórios da Fifa mostra uma Seleção Brasileira desfigurada, a viver do passado
Pode parecer e talvez seja mesmo muita inocência dizer simplesmente não à guerra, qualquer que seja ela, mas também não deixa de ser um esboço de reação ou de não aceitação desse fenômeno que atinge o humano desde a sua individualidade até as mais complexas relações entre grupos e nações.
Me voltam à memória, nestes dias de sangue na Faixa de Gaza, as ações não violentas de Mahatma Gandhi, Martin Luther King e outros inconformados em aceitar o confronto bélico como solução.
A guerra, de fato, jamais resolve qualquer coisa. Quando encerrada, ela apenas joga para debaixo do tapete o ódio ampliado que vai, a qualquer momento, brotar como uma fístula ou um tumor de consequências imprevisíveis.
Algo que me consola, e até alegra, ultimamente, é ver o ressurgimento festivo das cabeleiras enormes que voltaram a alegrar as ruas – principalmente entre os negros, com seus lindos penteados exuberantes.
Chego a pensar se não seriam o símbolo do desabrochar de manifestações incontroláveis da necessidade humana de alegria diante das ameaças agora novamente concretizadas nas duas supurações mais evidentes neste momento: na Ucrânia e, outra vez, no Oriente Médio.
Volto aqui a dizer que, vencesse quem vencesse nesses conflitos, nada mudaria. A vitória, nesses casos, demonstra apenas quem foi mais forte em termos bélicos. Jamais prova qualquer vitória de eventuais demandas ou qualquer réstia de razão. O resultado final serão sempre perdas. Prejuízos em todos os sentidos.
Chega a ser deprimente fazer parte da humanidade ainda neste estágio de barbárie e saber que ainda não funciona a ideia de um organismo supranacional que, no mínimo, fosse capaz de isolar qualquer país que tentasse usar da força para resolver suas diferenças.
De volta aos tempos do Vietnã e do Apartheid, me recordo dos hippies que, inconformados com a inaceitável ideia de serem mandados a uma guerra que era absolutamente incompatível com seus sentimentos humanitários – Mohamed Ali, por exemplo, se recusou a ir.
Das guerras bélicas ao esporte, é um salto. Quem não se lembra daquelas transmissões, especialmente no rádio, comentando sobre as rivalidades entre brasileiros, uruguaios e argentinos como se fossem espécies distintas de seres terrestres?
Embora devamos reconhecer que, de uns anos para cá, houve um avanço nas trocas entre os países, esse desconhecimento dos nossos vizinhos ainda não tenha cessado completamente. Basta pensarmos no que aconteceu nos dois jogos eliminatórios da última data Fifa.
Nos dias que antecederam o jogo com a Venezuela, meu inconformismo foi aumentando à medida que os comentários, rigorosamente todos, de toda a mídia, não tomavam o menor conhecimento da seleção venezuelana.
Conversa pra lá, conversa pra cá, e todos ignoravam completamente o adversário. Fico abismado ao ver como isso continua acontecendo a despeito das tantas “zebras” que o futebol apresenta.
Poucos dias antes, o Botafogo tinha sido vítima do mesmo fato. Líder pra lá, Tiquinho artilheiro pra cá, e o Coritiba, na “lanterna”, nem era citado em meio àquele oba-oba danado.
Até o treinador Bruno Lage entrou de gaiato, acreditando no que estava sendo falado. Poupou o Tiquinho, inventou o Tchê Tchê de lateral, mexeu na defesa, no meio de campo e no ataque. Resultado: na segunda-feira estava de volta a Portugal.
Mas, voltando às eliminatórias, na segunda partida, o desastre brasileiro foi total diante do tradicional Uruguai. A confiança não era a mesma do jogo contra a Venezuela e todo o desencontro do nosso futebol ficou escancarado.
O que vimos em campo foi um Uruguai todo arrumado, com marcação severa, saída rápida – ou seja, com um jogo simples e objetivo – contra uma Seleção Brasileira desfigurada.
O Brasil conseguiu, no primeiro tempo, não chutar uma bola sequer no gol adversário. Víamos jogadores perdidos em campo. O futebol brasileiro está, há muito tempo, vivendo do passado, e recorro mais uma vez à sabedoria popular: futebol é momento.
Muita coisa ao longo dos anos e houve quem comentasse que Fernando Diniz não teria obrigação de ganhar – uma vez que é considerado interino. Mas o fato é que ele buscou implementar sua filosofia de jogo. E agora? •
Publicado na edição n° 1282 de CartaCapital, em 25 de outubro de 2023.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Todos perdidos’
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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