Cultura
Minha Casa, Minha Vida
Essa semana a minha terceira filha está começando a se preparar para deixar nossa casa, conta Alberto Villas
Por Alberto Villas
Eu me lembro perfeitamente como se fosse hoje o dia em que fui embora da casa dos meus pais. As manchetes da época diziam o seguinte:
GOLPE MILITAR MATA ALLENDE NO CHILE
MORRE O POETA PABLO NERUDA
PERÓN É OUTRA VEZ ELEITO PRESIDENTE
AMEAÇADO, NIXON DIZ QUE ENTREGA FITAS
MILITARES DERRUBAM O GOVERNO NA GRÉCIA
HOMOSSEXUAL NÃO É DOENTE MENTAL
URSS EXPULSA O ESCRITOR SOLVJENITSIN
FILHA DE DONO DE JORNAL É RAPTADA
O ano de 1973 estava caminhando para o fim e eu com uma juba de leão e meus vinte e poucos anos estava me preparando para correr mundo, correr perigo. Para tristeza da minha mãe comecei a separar a parte que me cabia naquela lar, doce, lar onde meus pais moravam com os meus irmãos. Os livros, os discos e nada mais. Muito Bandeira, muito Drummond, muito João Cabral, muito Castañeda. Alguns Camus, alguns Norman Mailer, Graham Green, muito Hermann Hesse.
Os discos eram do Caetano, do Gil, da Bethânia, da Gal, dos Novos Baianos. Muito Beatles, muito Rolling Stones, Dylan, Herman Hermits, Monkees, Mamas & Papas. Oh Yes!
A minha casa minha vida não passava disso: Um tatame no chão, um pôster de Che Guevara na parede caiada, um toca-discos e uma estante feita de tábuas e tijolos empilhados. Alguns incensos, um berimbau que trouxe da Bahia e um monte da Rolling Stone editada por Luiz Carlos Maciel.
Nada mais.
Essa semana a minha terceira filha está começando a se preparar para deixar nossa casa. Claro que estamos com o coração na mão, partido mesmo, mas está sendo divertido, confesso, vê-la arrumando as coisas que são dela.
Quando deixei a casa dos meus pais queridos eu, sinceramente, não queria levar nada deles. Nenhum móvel colonial, nenhum disco de Dilermando Reis, nenhum livro de Malba Tahan. Nenhuma bandeja de prata, nenhuma sopeira de porcelana, nenhuma jangada escrito Lembrança do Ceará.
Como o mundo mudou. Minha filha está indo embora e sinto que se ela pudesse levaria tudo que temos em casa. Aos poucos ela vai me devolvendo as coisas que estavam no seu quarto e com um olhar de tristeza dizendo:
– Esse é seu não é, pai?
Sim, são meus os cds do Clash que ela gosta tanto. São meus os Marcelos Camelos, os Mutantes, os Bob Dylans, os Belle e Sebastian. Como são meus todos os escritores beatniks que nem me lembrava mais estarem no quarto dela.
Vejo nos olhos da minha filha a tristeza de deixar pra trás todos esses filmes: O Pianista, Little Miss Sunshine, Frida, Cantando na Chuva, Razão e Sensibilidade, Maria Antonieta, A Doce Vida e todos do Wood Allen, inclusive o último, Meia-Noite em Paris.
Pensando bem, certa está ela que vai correr mundo, correr perigo. Não chore não. Quando voltar e quiser comer uma macarronada – sim eu ainda chamo massa de macarronada – no domingo na minha casa, temos muitos filmes aqui pra assistirmos juntos, inclusive A Liberdade é Azul e A Vida é Bela.
Por Alberto Villas
Eu me lembro perfeitamente como se fosse hoje o dia em que fui embora da casa dos meus pais. As manchetes da época diziam o seguinte:
GOLPE MILITAR MATA ALLENDE NO CHILE
MORRE O POETA PABLO NERUDA
PERÓN É OUTRA VEZ ELEITO PRESIDENTE
AMEAÇADO, NIXON DIZ QUE ENTREGA FITAS
MILITARES DERRUBAM O GOVERNO NA GRÉCIA
HOMOSSEXUAL NÃO É DOENTE MENTAL
URSS EXPULSA O ESCRITOR SOLVJENITSIN
FILHA DE DONO DE JORNAL É RAPTADA
O ano de 1973 estava caminhando para o fim e eu com uma juba de leão e meus vinte e poucos anos estava me preparando para correr mundo, correr perigo. Para tristeza da minha mãe comecei a separar a parte que me cabia naquela lar, doce, lar onde meus pais moravam com os meus irmãos. Os livros, os discos e nada mais. Muito Bandeira, muito Drummond, muito João Cabral, muito Castañeda. Alguns Camus, alguns Norman Mailer, Graham Green, muito Hermann Hesse.
Os discos eram do Caetano, do Gil, da Bethânia, da Gal, dos Novos Baianos. Muito Beatles, muito Rolling Stones, Dylan, Herman Hermits, Monkees, Mamas & Papas. Oh Yes!
A minha casa minha vida não passava disso: Um tatame no chão, um pôster de Che Guevara na parede caiada, um toca-discos e uma estante feita de tábuas e tijolos empilhados. Alguns incensos, um berimbau que trouxe da Bahia e um monte da Rolling Stone editada por Luiz Carlos Maciel.
Nada mais.
Essa semana a minha terceira filha está começando a se preparar para deixar nossa casa. Claro que estamos com o coração na mão, partido mesmo, mas está sendo divertido, confesso, vê-la arrumando as coisas que são dela.
Quando deixei a casa dos meus pais queridos eu, sinceramente, não queria levar nada deles. Nenhum móvel colonial, nenhum disco de Dilermando Reis, nenhum livro de Malba Tahan. Nenhuma bandeja de prata, nenhuma sopeira de porcelana, nenhuma jangada escrito Lembrança do Ceará.
Como o mundo mudou. Minha filha está indo embora e sinto que se ela pudesse levaria tudo que temos em casa. Aos poucos ela vai me devolvendo as coisas que estavam no seu quarto e com um olhar de tristeza dizendo:
– Esse é seu não é, pai?
Sim, são meus os cds do Clash que ela gosta tanto. São meus os Marcelos Camelos, os Mutantes, os Bob Dylans, os Belle e Sebastian. Como são meus todos os escritores beatniks que nem me lembrava mais estarem no quarto dela.
Vejo nos olhos da minha filha a tristeza de deixar pra trás todos esses filmes: O Pianista, Little Miss Sunshine, Frida, Cantando na Chuva, Razão e Sensibilidade, Maria Antonieta, A Doce Vida e todos do Wood Allen, inclusive o último, Meia-Noite em Paris.
Pensando bem, certa está ela que vai correr mundo, correr perigo. Não chore não. Quando voltar e quiser comer uma macarronada – sim eu ainda chamo massa de macarronada – no domingo na minha casa, temos muitos filmes aqui pra assistirmos juntos, inclusive A Liberdade é Azul e A Vida é Bela.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.
CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.
Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.



