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Orgulho e preconceito

Plantadas nos terraços da escravidão, as raízes da sociedade brasileira se fortalecem, deixam claro Romeu Zema e outros

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O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). Foto: Reprodução/TV ALMG
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Domingo, 6 de agosto, Milly ­Lacombe ofereceu aos leitores da Folha o magnífico ensaio As Práticas Feudais de um Clube de Elite em São Paulo.

“Há alguns dias a coluna de Monica Bergamo revelou o novo código de conduta para babás e motoristas que frequentam – a trabalho, claro – um dos clubes mais caros do Brasil, a Sociedade Harmonia de Tênis, em São Paulo.

Trata-se de um documento de barbárie, um registro dos modos feudais que orientam a administração de lugares reservados aos muito ricos: uma organização de castas no interior da qual servos estão autorizados a frequentar o palácio para fins de trabalho e seguindo uma cartilha comportamental bastante rígida.

O documento revela um sistema positivo operante de castas que cria estruturas para que cada classe permaneça em seu lugar sem possibilidade de mistura. Quem nasceu para trabalhar e ser descartável que se vire para, em ambientes que não são seus, se tornar invisível. Ou será multado.”

Em seu livro de contos Brás, Bexiga e Barra Funda, Antônio de Alcântara Machado registra os desconfortos da elite paulistana diante do avanço econômico dos italianinhos.

“Filha minha não casa com filho de carcamano! A esposa do Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda disse isso e foi brigar com o italiano das batatas. Teresa Rita misturou lágrimas com gemidos e entrou no seu quarto batendo a porta. O Conselheiro José Bonifácio limpou as unhas com o palito, suspirou e saiu de casa abotoando o fraque.”

Teresa Rita, a filha de José Bonifácio, casou-se com o italianinho sob os auspícios do pai, encantado com as fortunas do carcamano.

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, desdenhou os estados do Nordeste: “Vaquinhas que produzem pouco”.

Em outra ocasião, Zema havia declarado “há uma proporção muito maior de pessoas trabalhando do que vivendo de auxílio emergencial” nas regiões Sul e Sudeste. Nosso Romeu das Alterosas andou na contramão do celebrado homônimo, o Romeu que frequenta as páginas de Shakespeare desatando sua paixão por Julieta. Do alto de suas preconceituosas ignorâncias, Zema sugeriu que os nordestinos são preguiçosos. Gente preguiçosa que, ademais, consome mais do que produz, graças à turma trabalhadora do Sul-Sudeste. Não vou cometer a imprudência de sugerir a Zema a leitura de Casa-Grande e Senzala, obra-prima do nordestino Gilberto Freyre.

Recomendo, no entanto, uma passada de olhos na obra-prima do mineiro João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Lá pelas tantas, Guimarães Rosa nos apresenta o Aleixo.

“Olhe: um chamado Aleixo, residente a légua do Passo do Pubo, no da-Areia, era o homem de maiores ruindades calmas que já se viu… Um dia, só por graça rústica, ele matou um velhinho que por lá passou, desvalido rogando esmola. O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que mata só para ver alguém fazer careta…”

Os quatro filhos de Aleixo morreram depois de uma epidemia de sarampo.

“O que não sei é se foram todos duma vez, ou um logo e logo outro e outro – eles restaram cegos. Cegos, sem remissão dum favinho de luz dessa nossa! O senhor imagine: uma escadinha – três meninos e uma menina – todos cegados. Sem remediável. O Aleixo não perdeu o juízo, mas mudou: ah, demudou completo – agora vive da banda de Deus, suando para ser bom e caridoso em todas suas horas da noite e do dia. Parece até que ficou o feliz que antes não era. Ele mesmo diz que foi um homem de sorte, porque Deus quis ter pena dele, transformar para lá o rumo de sua alma. Isso eu ouvi, e me deu raiva. Razão das crianças. Se sendo castigo, que culpa das hajas do Aleixo aqueles meninozinhos tinham?!”

Para Sérgio Buarque de Holanda, as raízes da sociedade brasileira estão plantadas nos terraços da escravidão, entre a casa-grande e suas senzalas. Nesse espaço da sociabilidade à brasileira germinam os grãos que cevam as hipocrisias do “homem cordial”, avesso a regras e amigo da informalidade que consagra a lei do mais forte. O brasileiro “cordial” carrega em seu caráter as peculiaridades das relações de dominação que organizam a vida social no país do Carnaval.

Diz Sérgio Buarque nas Raízes do ­Brasil que, sob a capa do afeto, o cordialismo esconde as crueldades da discriminação e da desigualdade. Rasgado o véu conveniente da benevolência, emerge da mansidão hipócrita a inclemente violência do mandonismo e da submissão:

“O senhor sabe com quem está falando?” “Coloque-se no seu lugar.” •

Publicado na edição n° 1272 de CartaCapital, em 16 de agosto de 2023.

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