Arthur Chioro

Ex-ministro da Saúde

Opinião

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Em defesa da vida

O filme ‘Quando Falta o Ar’ mostra o cotidiano de cinco mulheres, trabalhadoras do SUS, nos momentos mais graves da pandemia

Em defesa da vida
Em defesa da vida
O documentário é um importante registro para a história – Imagem: Tarso Sarraf
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Cada um tem uma ou muitas histórias para contar sobre o que viveu nesses trágicos anos da pandemia. Como médico, atendendo casos de Covid-19 no setor de urgência, lembro da resposta que me foi dada por um ajudante de pedreiro a quem recomendei que se mantivesse durante dez dias em isolamento, sem trabalhar: “Posso não. Os meninos vão tudo morrer de fome”. Ou da que recebi de uma diarista a quem indiquei que ficasse isolada em seu quarto, para não transmitir a doença para os sete membros da família. Ela vivia em um barraco de um cômodo: “Aí eles vão ter que ficar na rua”.

Como filho, chorei. Não apenas por ver o sofrimento de meu pai, após 12 dias na UTI. Chorei porque olhava para ele, recebendo oxigênio, já em recuperação no leito de um quarto na Santa Casa, enquanto via na tevê famílias desesperadas em busca de torpedos de oxigênio. Vi também médicos e enfermeiros, exaustos e indignados, tendo de decidir quem iria sobreviver ou não, por falta de acesso a recursos médicos essenciais. Uma situação evitável se tivéssemos um governo minimamente capaz e comprometido.

Chorei pelos parentes e amigos que se foram precocemente. E penso nos milhares de famílias que ainda vivem o luto dos entes queridos, ou sofrem pelos projetos de vida destruídos.

Ao ver Quando Falta o Ar, em cartaz desde a quinta-feira 9 de março, revivi esse momento e me emocionei profundamente. O documentário, dirigido pelas irmãs Helena e Ana Petta e produzido por Manoel Rangel, acompanha o cotidiano de cinco mulheres, trabalhadoras do SUS. As imagens retratam os impactos da pandemia na vida de pessoas comuns, em diferentes localidades: Amazonas, Bahia, Pará, Pernambuco e São Paulo.

As cenas, captadas nos momentos mais críticos da pandemia, quando ainda não se tinha acesso à vacina e imperava a disputa insana entre ciência e negacionismo, registram a memória coletiva de um tempo vivido e marcado pela dor, por perdas e pelo luto – que, muitas vezes, nem sequer pode ser vivido em decorrência das medidas de restrição sanitária.

Da tela, emerge a pluralidade e a complexidade de um país que enfrentou a maior crise sanitária da sua história sob a batuta de um presidente que deliberadamente apostou no caos e afetou assim, de forma irresponsável, a capacidade de coordenação do nosso sistema de saúde.

Mas o filme trata, sobretudo, da luta coletiva em defesa da vida. Quando Falta o Ar é uma obra de arte que venceu o Festival É Tudo Verdade, em 2022, e foi qualificado para o Oscar 2023. Merece ser visto nos cinemas, agora, e revisto, no futuro, porque produz um retrato vivo de uma história que não pode ser esquecida.

Acima de tudo, o filme emociona e nos faz refletir sobre o valor da vida, sobre a relevância do cuidado em saúde e do papel essencial de seus trabalhadores. É, ainda, uma homenagem justa e sensível às trabalhadoras da saúde, que compõem 74% da força de trabalho do setor.

Na disputa por valores e imaginário, e em tempos de reafirmação do mercado como solução para todos os problemas, o filme, ao reconhecer a potência e o caráter imprescindível do SUS, dá uma grande contribuição a essa política pública universal, integral e equânime. Demonstra, com muita sensibilidade e sem se deixar levar pelo tom panfletário, que o SUS é um patrimônio do País e que seus trabalhadores devem ser reconhecidos e valorizados.

O filme, por fim, nos mostra que, “quando falta o ar”, não é hora de desistir ou desesperançar. É, ao contrário, hora de dar as mãos e não largar a de ninguém; de levantar a cabeça, sacudir a poeira e continuar lutando pela vida, que teima em vencer. Foi o que fizeram, a despeito de Bolsonaro e sua trupe de delinquentes, os trabalhadores do SUS, que trataram de seguir em frente e cuidar de quem precisava. Ou, como fizeram Helena e Ana Petta, que usaram seus talentos para deixar para sempre registrada essa história. •

Publicado na edição n° 1250 de CartaCapital, em 15 de março de 2023.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Em defesa da vida’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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