

Opinião
Dias de perdas
A apreensão em relação à posse de Lula, a partida de Pelé, o domingo sinistro e, agora, a morte de Roberto Dinamite tornam duro o início do ano
“De vez em quando na vida há que se atravessar um deserto embora à sua volta esteja (pareça) tudo tão perto.” Passar de um ano a outro nunca foi tão difícil.
A apreensão em relação à posse do presidente Lula, a partida de Pelé, o domingo sinistro e, agora, a morte de Roberto Dinamite. Mas o exercício da perseverança, ao longo da vida, nos ensina a resistir e a seguir em frente.
Estes dias têm sido de alerta e ação. Algumas frases me voltam à cabeça: “É preciso estar atento e forte” e “O preço da liberdade é a eterna vigilância”.
Assim que se deu a eleição de 2018 e teve início o desastroso desgoverno, escrevi aqui mesmo que a solução para nossa enrascada era um condomínio em Miami, o endereço dos “gusanos”, os fugitivos latino-americanos. Atravessamos sofridos anos de barbárie anunciada até chegarmos às cenas brutais do domingo 8.
Como vai, de agora em diante, ficar a situação? Mesmo o País tendo, por sorte, na liderança máxima, um brasileiro genuíno com visão profunda e instantânea, o desafio é grande.
Durante o período pré-eleitoral, Lula foi o primeiro a procurar o Geraldo Alkmin e, a despeito das críticas imediatas, a enxergar que, se não fosse reunido todo o espectro democrático, seria impraticável vencer, por vias eleitorais, o ódio.
Ele sabia haver, do outro lado, a disposição de impor uma ditadura disfarçada, mas explicitada pelos gestos de “arminha” e o anúncio de “umas 30 mil mortes” pela pandemia da Covid-19.
A quem cabe a responsabilidade de termos ficado submetidos a tamanha fragilidade e de sermos agora novamente assaltados pelas mesmas ameaças completamente despropositadas?
Estamos atravessando um momento crítico, que pode ser transformado em mais uma oportunidade de alcançar nossa independência de fato.
Mesmo antes da barbárie que vimos acontecer no Distrito Federal, já sabíamos das dificuldades enormes que seriam enfrentadas para se administrar um vasto conjunto de forças e interesses. Inclusive, porque temos no Congresso Nacional a força do “centrão”, símbolo de conservadorismo.
O momento é de alerta máximo, não só pelas demonstrações tresloucadas na sede dos nossos poderes máximos como pela extensão da retaguarda que está na origem e deu suporte àquele pesadelo.
A maioria do movimento era composta de paus mandados dirigidos por reacionários bem orientados, bem financiados e até então protegidos por repartições militares.
Parte dos envolvidos nos ataques foi iludida pela desinformação, propalada por meios midiáticos de direita em redes sociais.
Apenas a comunicação, em todos os níveis – político, cultural e educacional –
é capaz de propiciar o esclarecimento da população em relação ao que significa a independência de fato e o que é a submissão neocolonialista que nos mantém agrilhoados.
Neste momento grave, a morte de Pelé e a posse do presidente Lula mostram ao mundo e, principalmente, a nós mesmos, que o Brasil é capaz de revelar cidadãos preparados para garantir nossos valores e contribuir para a harmonia da humanidade.
Outra grande figura deste País que retornou aos nossos pensamentos estes dias, e por um motivo triste, foi Roberto Dinamite, assim aclamado graças às explosões de alegria que seus gols trouxeram para os torcedores. O sorriso iluminado era uma marca do menino de Caxias.
Roberto é, até hoje, o maior artilheiro do campeonato brasileiro. Os dados subestimados de sua carreira, muito por conta de sua simplicidade, fizeram dele o maior ídolo da torcida vascaína.
Dinamite, além de tudo que fez em campo, construiu uma carreira na política pública e ainda foi presidente do Vasco da Gama. Morto aos 68 anos, fez questão de ser sepultado em Caxias, sua terra e de seus familiares. •
PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1242 DE CARTACAPITAL, EM 18 DE JANEIRO DE 2023.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Dias de perdas”
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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