Cultura
O sobrenatural como crítica social
Na terceira temporada da série O Reino, o cineasta Lars von Trier exercita seu humor corrosivo
As três décadas entre a primeira e a terceira temporada de O Reino oferecem um resumo de como as séries evoluíram do modelo banal ao artístico, em contraposição à parcela mais visível dos filmes produzidos e consumidos hoje.
As três temporadas da série em exibição na plataforma Mubi trazem a assinatura ilustre do diretor dinamarquês Lars von Trier. O projeto pertence à categoria vaga de Quality TV, ou ficção sofisticada. O conceito já existia na produção europeia de tevê desde os anos 1970, quando Ingmar Bergman e Rainer Wainer Fassbinder emprestavam suas assinaturas em troca de experiências com narrativas longas.
Depois de ser importado para os Estados Unidos pela HBO e hoje se espalhar via streaming, o modelo das séries com cara de cinema passou a ser tratado como revolução, embora o processo tenha sido mais de adaptação. Trata-se, sobretudo, de ocupar o tempo do consumo com formatos de duração maior que a dos filmes. Ou seja, mais oferta com menos recursos.
O Reino 1 (1994) e O Reino 2 (1997) foram realizadas durante a fase da transição da obra de Lars von Trier, quando ele passou das ficções intrincadas e cerebrais, como Europa (1991), para os dramas emocionalmente intensos, com Ondas do Destino (1996).
A série explora um gênero popular, o horror, misturado com o ácido comentário social e político, uma das marcas autorais de Von Trier.
Ambientada em um hospital construído sobre um antigo pântano onde se explorava o trabalho, a trama de O Reino tem uma face sobrenatural: a busca por fantasmas de crianças abusadas e sacrificadas no passado.
O fantástico é também álibi para Von Trier lançar seu humor corrosivo sobre as relações de poder, a ciência e a razão. Ao contrário das séries hospitalares, em que se privilegia os dramas e heroísmos de médicos, enfermeiros e pacientes, O Reino é habitado por canalhas, corruptos e covardes. Ou doentes.
Na terceira temporada – produzida em 2022 e apresentada no Festival de Veneza –, as almas penadas estão de volta, mas o pesadelo real assombra na forma das tecnologias e dos modos de controle sutis ou desejados.
Von Trier não aparece mais ao final dos episódios, por causa dos efeitos da doença de Parkinson. Escondido atrás de uma cortina vermelha, o diretor fala como um fantasma do inconsciente, envia mensagens cifradas para escapar do bloqueio da hipercomunicação.
Agora que o cinema está perdendo seus últimos espaços para oferecer ficções inquietantes, cineastas como Von Trier e David Lynch exploram as brechas na nova ordem para subverter a ordem. •
PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1239 DE CARTACAPITAL, EM 21 DE DEZEMBRO DE 2022.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “O sobrenatural como crítica social”
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