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Sob a superfície luzente do K-Pop

Kim Hye-Jin, traduzida pela primeira vez no Brasil, revela as mazelas sociais e culturais da Coreia do Sul

Sob a superfície luzente do K-Pop
Sob a superfície luzente do K-Pop
A autora nasceu em 1983, em Daegu, e seu romance tornou-se um best seller no país - Imagem: Fósforo/Minumsa
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O cineasta Bong Jo-Hoo – que é, ao lado dos ídolos do K-Pop, um dos mais célebres nomes da indústria cultural sul-coreana – disse, não muito tempo depois de ganhar o Oscar por ­Parasita (2019), que, embora seu país pareça, na superfície, “muito rico e glamouroso”, o fosso entre ricos e pobres só tem aumentado. “A geração mais jovem, em particular, sente grande desespero”, afirmou.

Escrito em 2017 e tornado best seller na Coreia do Sul, Sobre Minha Filha, de Kim Hye-Jin, lançado agora no Brasil, é uma ficção que mostra os efeitos da realidade descrita por Jo-Hoo na vida de uma senhora de mais de 60 anos, mãe de uma jovem de 30 e tantos.

A filha da narradora é professora universitária, mas não possui emprego fixo. Como horista, tem uma carga pesada de trabalho e uma renda que não lhe garante sequer o pagamento do aluguel. “No passado, gente como ela era uma em cada dez (…) Na situação atual, são de seis a sete em cada dez pessoas”, inquieta-se a mãe, ela própria submetida a um trabalho precário, como cuidadora de idosos.

Hye-Jin parte da relação entre mãe e filha, separadas por um muro geracional e cultural, para mostrar a precariedade em que vivem parte dos sul-coreanos. Mas não só. Ela também revela, por meio da intimidade dessa família, o atraso de uma sociedade na qual a homossexualidade não é aceita e, das mulheres, espera-se que arrumem um marido.

Green, apelido da professora, tem uma companheira que a mãe, por anos, preferiu ignorar. A falta de dinheiro faz, porém, com que as duas se mudem para sua casa. A partir daí, os não ditos passam a pesar ainda mais.

SOBRE MINHA FILHA. Kim Hye-Jin. Tradução: Hyo Jeong Sung. Fósforo (144 págs., 64,90 reais)

“Por que raios têm de dormir juntas?”, se pergunta a velha senhora, que, a despeito dos tormentos, se mantém calada. “Eu nasci, cresci e envelheci neste país, onde ignorar e guardar silêncio a respeito do que acontece ao redor são considerados virtude e polidez”, diz, em contraposição à filha, que se move contra a homofobia e a violência doméstica.

Um dos aspectos particulares dessa breve e eficaz narrativa é que todas as personagens centrais são mulheres. Há, além da mãe, da filha e de sua namorada, Zen, escritora e ativista que, na velhice, vive em uma clínica, apartada de familiares, amigos e das próprias memórias.

Não deixa de ser curioso pensar que outro best seller sul-coreano lançado este ano aqui, Kim Jiyoung, Nascida em 1982 (Intrínseca), girava em torno da profunda desigualdade de gênero no país. É a literatura contribuindo para que a sociedade lide com seus fantasmas. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1238 DE CARTACAPITAL, EM 14 DE DEZEMBRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Sob a superfície luzente do K-Pop “

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