Cultura
Desejo voraz
No filme Até os Ossos, o realizador italiano Luca Guadagnino troca as atmosferas requintadas pelo retrato de um casal de jovens canibais
Como os canibais se beijam? Deve ser confuso. Há uma massa sangrenta – um turbilhão de redemoinhos abstratos, dos quais brotam dois rostos – na pintura da norte-americana Elizabeth Peyton presente no cartaz de Até os Ossos, do realizador italiano Luca Guadagnino. O filme, que conta a história de dois jovens canibais apaixonados, estreou na quinta-feira 1º.
“Eu disse a Elizabeth: ‘Encontre uma imagem no filme que você queira comentar’. E ela encontrou o beijo final, que é muito ambíguo”, diz Guadagnino. “É um beijo de amor ou de aniquilação? É um beijo de comer o outro ou de cair dentro do outro? O beijo é sempre um momento muito perigoso – principalmente por causa de dois anos de Covid”, completa, rindo.
Muitos dos filmes de Guadagnino traziam o requinte da moda, da culinária, da ópera (Um Sonho de Amor, 2009) e do florescimento do romance gay em meio ao esplendor bucólico (Me Chame pelo Seu Nome, 2017). Em Até os Ossos, temos o desejo voraz por carne viva.
O canibal é o primo pobre do filme de terror. Enquanto os vampiros são vistos como aristocratas elegantemente depravados e os zumbis são respeitados como o proletariado oprimido que volta para se vingar, os comedores de carne incorporam o apetite puro e mal-educado, e são um tanto desprezados nas telas.
“O canibalismo é realmente perturbador”, diz. “Recorrer a esse tabu para sobreviver é algo que todos tememos.” Os canibais de Até os Ossos são um par extremamente simpático: a adolescente Maren (Taylor Russell) e seu namorado, Lee (Timothée Chalamet), que viajam pela América no fim dos anos 1980, lutando para sobreviver em um mundo hostil.
“Eu era um daqueles caras isolados, e me curava com o cinema. Encontrava muito consolo no terror”
Guadagnino é um diretor adulto: Um Sonho de Amor traz Tilda Swinton como uma Madame Bovary moderna na alta sociedade de Milão; seu filme seguinte, Um Mergulho no Passado, foi uma tragicomédia frágil sobre as aventuras de férias dos entediados e ricos.
Mas ele também já retratou as agonias da juventude. Seu primeiro filme, Melissa P. (2005), sucesso de bilheteria na Itália, é uma adaptação de um best seller sobre sexualidade adolescente. E ele marcou profundamente os espectadores mais jovens com Me Chame pelo Seu Nome, que fez de Timothée Chalamet um sucesso internacional, e seguiu com o subestimado We Are Who We Are, minissérie elegantemente melancólica sobre adolescentes americanos lutando com questões de identidade em uma base militar dos EUA na Itália.
Até os Ossos é quase um dublê sombrio daquele filme. Sua heroína, Maren, é interpretada de forma hipnotizante pela jovem canadense Taylor Russell, que ganhou o Prêmio Marcello Mastroianni de melhor jovem atriz no Festival de Veneza. Seu retrato de uma alma perdida vulnerável, mas feroz, dá ao filme seu coração terno.
Até os Ossos também vai impressionar os que se lembram da figura irresistivelmente desajeitada que Chalamet viveu em Me Chame pelo Seu Nome. Reencontrando Guadagnino cinco anos depois, Chalamet retorna como uma celebridade internacional, presente em inúmeros tapetes vermelhos.
Até os Ossos, que rendeu a Guadagnino o Leão de Prata de melhor diretor em Veneza, é sua segunda empreitada em material de terror. Antes, dirigiu uma releitura livre do clássico de Dario Argento, Suspiria. “Eu era um daqueles caras isolados, e me curava com o cinema”, diz sobre sua juventude. “Encontrava muito consolo no terror.” Seus heróis no gênero incluem John Carpenter, Wes Craven, o mestre dos anos 40 Jacques Tourneur e George Romero.
Estética e emoção. O cineasta mostrou a que veio com Um Sonho de Amor e virou cult com Me Chame pelo Seu Nome – Imagem: Paris Filmes e Sony Pictures
“Sempre encontrei nos melhores filmes de terror uma qualidade muito subversiva e esquerdista de derrubar a casa, e é desanimador ver como o terror contemporâneo foi para o outro lado”, diz. “É completamente conservador, impondo um ponto de vista sádico.”
A estética sangrenta de Até os Ossos foi inspirada pelo vienense Hermann Nitsch, conhecido por suas obras de arte e performances viscerais. Mark Rylance, que interpreta o velho canibal Sully no filme, conta que o diretor insistia que o personagem deveria usar um colete no estilo do artista alemão Joseph Beuys. “Ele é preciso nos detalhes”, diz Rylance. “Em uma cena em que Sully cozinha galinhas, ele me mostrou como assar as galinhas da Cornualha. A compreensão (do personagem) veio por meio de atividades sensuais, roupas, adereços, ações, preparo de comida.”
Apesar da atenção minuciosa aos detalhes visuais e à atmosfera, é um erro pensar em Guadagnino principalmente como um estilista, diz David Kajganich, roteirista do filme. “Ele é um humanista que vê o mundo da perspectiva de um intelectual, e isso oferece uma profundidade e um rigor de pensamento sobre a emoção do Homo sapiens.”
Guadagnino é a tal ponto uma criatura do cinema que só namora cineastas. Durante uma década, esteve casado com o diretor Ferdinando Cito Filomarino. “Os cineastas são muito atraentes para mim. Meus melhores amigos são todos diretores. Eu entendo os diretores, entendo as nossas fraquezas, nossas inseguranças e nossas arrogâncias.”
Quando Um Sonho de Amor surgiu, o mundo ficou impressionado com o alcance visionário e a confiança de Guadagnino. O fato de seu criador ostentar uma barba densa e selvagem – hoje mais domesticada – apenas aumentou a impressão de que a Itália talvez tivesse produzido seu próprio Stanley Kubrick. E Guadagnino admite ter tido ambições do tipo. “Eu tinha muitos pensamentos megalomaníacos, de fazer coisas como conquistar o mundo do cinema, mas não sabia como. Durante muitos anos, eu não soube como funcionava uma sequência.”
Na verdade, Guadagnino há muito espera fazer um filme que Kubrick planejou, baseado no romance sobre o Holocausto de Louis Begley, Wartime Lies (Mentiras da Guerra). Esse é apenas um dos muitos projetos que ele teve em ebulição nos últimos anos, incluindo um remake de Scarface, uma espécie de sequência de Me Chame… e um filme de ficção baseado no álbum de Bob Dylan Blood on the Tracks. Seu próximo projeto já está filmado, no entanto: Challengers (Desafiantes), sobre um triângulo amoroso no mundo do tênis profissional.
“Espero, como chef e como cineasta, chegar ao centro do paladar sem complicação. Clareza de sabor”
Ao lado de tudo isso, Guadagnino conseguiu iniciar uma atividade paralela em interiores e arquitetura. Depois que um amigo o convidou para projetar uma mansão, ele pediu a colaboração de alguns arquitetos conhecidos e agora dirige um escritório em Milão, o Studio Luca Guadagnino. “A mentalidade do arquiteto e a dos cineastas não poderiam ser mais diferentes. Trabalhamos sob a pressão do momento, enquanto a arquitetura é… tempo, tempo, tempo, temos muito tempo.”
E há ainda sua paixão por cozinhar, que lhe foi transmitida pelo pai. “Espero, como chef e como cineasta, chegar ao centro do paladar sem muita complicação. É isso o que eu quero”, ele sorri. “Clareza de sabor.”
Ex-cozinheiro profissional, ele se lembra de um noivado em Roma, quando foi contratado por uma família rica que comemorava o 90º aniversário do patriarca. “Vou lá com meus amigos e trabalhamos na cozinha, que dá para a esplanada onde estão fazendo a festa. E o cara sopra a vela e diz: ‘Nunca devemos esquecer de celebrar nosso Duce’ – e cem pessoas dizem: ‘Duce!’” Com uma risada incrédula, Guadagnino estende o braço numa saudação de Mussolini. “Isso foi em 1994 – e não acho que muita coisa tenha mudado.”
“A Itália sempre esteve à direita”, diz, com pesar, citando a eleição de Giorgia Meloni, empossada primeira-ministra da Itália no mês passado. “Algo assim nos dá o direito de dizer: ‘Levamos uma mulher ao poder, então não se pode alegar que sejamos atrasados’. Isso permitirá que espíritos de animais selvagens percorram a nação. É uma farsa, e muito assustadora.” Existem, no mundo, coisas muito mais assustadoras do que canibais de cinema. •
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.
PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1237 DE CARTACAPITAL, EM 7 DE DEZEMBRO DE 2022.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Desejo voraz “
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