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Cidade fantasma

As tropas russas esvaziam Kherson antes da batalha decisiva com os ucranianos pelo controle da região

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Escombros. Os corvos dominam o ambiente, futuro palco do embate entre as tropas russas e ucranianas - Imagem: Bulent Kilic/AFP
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As coisas desaparecem rapidamente da cidade ucraniana de Kherson. Algumas são objetos físicos. As tropas russas levam ambulâncias, tratores e carros particulares. O acervo cultural também se vai: arquivos, pinturas e esculturas dos museus de arte e do folclore local. Até os ossos do amigo e amante de Catarina, a Grande, Grigory Potemkin, foram arrancados de uma cripta na Catedral de Santa Catarina e levados embora.

Os soldados russos transportam o saque pelo Rio Dnieper, até a margem esquerda da região de Kherson. Eles também deportam cidadãos locais sob o pretexto de uma missão de resgate humanitário. Outros se recusaram a ir. Um toque de recolher de 24 horas foi imposto. Ninguém sabe quantos dos 300 mil habitantes de Kherson de antes da guerra permanecem. De acordo com parentes daqueles que continuam lá, a cidade está praticamente vazia, e seu destino fantasmagórico provavelmente será decidido nas próximas semanas em uma série de batalhas sangrentas.

A bandeira russa foi retirada do prédio neoclássico da administração estadual regional de Kherson. O gesto gerou especulações de que Moscou estava prestes a abandonar a cidade, que tomou no início de março, abrindo caminho para o retorno triunfante do exército ucraniano. Do ponto de vista militar, isso faria sentido, pois o contingente russo está efetivamente cercado. Ao mesmo tempo, parece improvável que Vladimir Putin e seus generais deixariam Kherson sem lutar. Os moradores não estão convencidos das maquinações de Moscou. “Provavelmente, é um truque”, disse Alyona ­Lapchuk. “Os russos estão se vestindo de civis e se escondendo nas casas.”

Segundo Lapchuk, que deixou ­Kherson em abril, é mais provável que as tropas russas estejam se preparando para acirrados combates de rua durante o outono e o inverno. Se essa estratégia fracassasse, o exército russo provavelmente “destruiria” Kherson, da mesma forma que arrasou Mariupol, matando dezenas de milhares de civis, ela sugeriu.

As autoridades ucranianas também estavam céticas quanto à saída de Moscou após nove meses. Elas disseram que as tropas russas recém-mobilizadas criam posições defensivas nos arredores de Kherson, ao mesmo tempo que postos de controle nas vizinhas ­Chernobaevka e Stepanovka eram abandonados. O desaparecimento da bandeira russa dos prédios foi um “truque informativo” para atrair as forças ucranianas para uma armadilha, eles acreditam. “Estamos recebendo informações contraditórias. Há um movimento da margem direita para a margem esquerda. É difícil entender qual é exatamente a intenção russa”, disse Serhii Khlan, vice-chefe do conselho regional de Kherson. Houve relatos confiáveis de que soldados russos andavam de cais em cais à beira do rio, roubando alguns barcos e afundando outros. “Os barcos bons são rebocados e levados. Os que eles não gostam são cortados com um machado”, disse um morador.

“É difícil entender as intenções de Moscou”, afirma Serhii Khlan, vice-chefe do conselho local

Khlan disse que as autoridades de ocupação russas explodiram torres, deixando Kherson sem internet ou conexão de telefone celular. Em meio a esse apagão de notícias, as autoridades russas pediam aos moradores que saíssem e alertavam sobre atos “terroristas” iminentes com o avanço militar ucraniano. ­Moscou também minou o reservatório de Khakhovka a montante, com a aparente intenção de inundar Kherson e causar um desastre ambiental, caso ­caísse nas mãos dos ucranianos.

Desde o fim do verão, as forças armadas de Kiev contra-atacaram. Elas libertaram quase toda a região de ­Kharkiv, no nordeste do país, e invadiram as áreas rurais de Kherson, uma vasta estepe. A Rússia agora controla um pedaço cada vez menor da margem ocidental do Dnieper. Em setembro, Putin “anexou” as províncias de Kherson, Zaporizhzhia, Donetsk e Luhansk. Qualquer retirada da cidade de Kherson seria, portanto, embaraçosa.

Uma nova espécie de “fronteira” de retaguarda parece, no entanto, tomar forma, com o Dnieper a servir de barreira natural inexpugnável contra futuros ataques ucranianos. Nos últimos dias, soldados russos expulsaram ucranianos de suas casas na margem esquerda do rio e então as ocuparam. Uma linha defensiva está sendo formada, estendendo-se da cidade de Velyka Znamyanka, na região de Zaporizhzhia, até Nova Kakhovka, na região de Kherson. A Rússia transferiu seu QG do Exército para a cidade portuária de Skadovsk, mais próxima da Crimeia.

Postagens de telegramas das aldeias da região contam histórias de orcs (soldados russos) ocupando propriedades privadas. Em Hladkivka, no distrito de ­Skadovsk, eles colocaram duas fileiras de pirâmides triangulares de concreto ao lado de uma floresta, cavaram trincheiras e derrubaram árvores, dizem os moradores. Em Nova Mayachka, ocuparam o prédio do conselho, levando consigo cozinhas de campo e tanques. Os soldados compram utensílios em lojas e realizam exercícios de treinamento, acrescentam os moradores. De acordo com Natalia Bimbiratye, voluntária da região de Kherson, os moradores evacuados à força são orientados a levar apenas roupas quentes, objetos de valor e documentos, deixando para trás galinhas, cães e pertences. “Esta é uma catástrofe humanitária. As deportações estão acontecendo há duas semanas”, disse ela. “Aqueles que continuaram até agora são principalmente aposentados ou pessoas que têm parentes doentes. Não sabemos quantos se foram e quantos restam.”

Organizações de direitos humanos ucranianas dizem que alguns moradores deslocados à força foram despejados em sanatórios congelados perto de ­Skadovsk. Outros foram enviados para a região russa de Krasnodar, ponto intermediário ­numa jornada que termina na Sibéria, afirmam. Várias centenas de crianças enviadas pelos pais de Kherson para escolas de verão russas não foram devolvidas e sua localização é desconhecida. •


Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1234 DE CARTACAPITAL, EM 16 DE NOVEMBRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Cidade fantasma “

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