Política

A divisão do campo progressista após a vitória de Bolsonaro

Ciro Gomes critica PT, Gleisi Hoffmann rebate e PSOL não é convidado para debater bloco parlamentar com PDT, PSB e PCdoB

A divisão do campo progressista após a vitória de Bolsonaro
A divisão do campo progressista após a vitória de Bolsonaro
Os eleitores de esquerda lambem suas feridas, mas as lideranças parecem querer abri-las
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Ao negar declarar voto no petista Fernando Haddad às vésperas do segundo turno da disputa presidencial, Ciro Gomes justificou sua posição por uma razão prática que não gostaria de adiantar: “Se eu não posso ajudar, atrapalhar é o que eu não quero”. Encerrado o pleito, os eleitores de esquerda lambem suas feridas, mas seus representantes parecem querer abri-las. 

Em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo nesta quarta-feira 31, o pedetista se diz “miseravelmente traído” por “Lula e seus asseclas”. 

O candidato expôs sua revolta com o acordo costurado entre o PT e o PSB para isolá-lo na disputa. Disse que Haddad jamais deveria ter aceitado o “papelão” de ser vice de Lula até o impedimento do ex-presidente, algo recusado por ele próprio. 

Chamou o teólogo Leonardo Boff, historicamente ligado ao PT, de “bosta” por críticas à sua viagem a Paris em meio à campanha de segundo turno. O pedetista disse ainda não querer participar “dessa aglutinação de esquerda”. Segundo ele, “isso sempre foi um sinônimo oportunista para a hegemonia petista”. 

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Também citada pelo pedetista na entrevista, Gleisi Hoffmann rebateu Ciro nas redes sociais. Segundo a presidente do PT, sua legenda faz “articulação pública aberta e transparente” e “não age por mágoa ou traição”. Defendeu ainda a trajetória de Boff e Frei Beto, outro alvo do pedetista, por terem “emprestado suas vidas à causa do povo”. 

As palavras duras de Ciro confundem-se com uma iniciativa encampada pelo deputado André Figueiredo, do PDT, para formar um novo bloco parlamentar que inclui seu partido, o PSB e o PCdoB. Nesta quarta-feira 31, estiveram presentes à reunião deputados como o pessebista Alessandro Molon e o comunista Orlando Silva. 

Segundo Figueiredo, o grupo terá “muitas pontes” com os petistas, mas eles não integrarão oficialmente o bloco. Ele declarou ainda que “não podemos aceitar de forma alguma o hegemonismo que o PT quer instalar”. 

A tentativa de isolar o PT após as eleições respingou em outro partido do campo progressista, o PSOL. A legenda ganhou força na Câmara, ao passar de cinco para dez deputados, uma marca superior à do PCdoB, que terá nove representantes na Câmara.

Segundo Figueiredo, o partido que lançou Guilherme Boulos na disputa à Presidência não estaria incluído por não ser um “modelo de oposição que seja construtivo para o País”. 

Juliano Medeiros, presidente do PSOL, comentou que, se a oposição pretendida por esse bloco defende uma conciliação com Bolsonaro, “fizeram bem ao não nos convidar”. “Disputas para isolar partido A ou B, para garantir a liderança dessa ou daquela legenda, dividindo precocemente a oposição, é tudo o que o Bolsonaro quer”. 

Com as brigas internas, o campo progressista afasta-se cada vez mais da frente ampla pretendida no início deste ano. Provavelmente a luta política diária os aproximará novamente, mas as rusgas nunca foram tão evidentes. No momento, caberia uma inversão na frase de Ciro: se ninguém pode atrapalhar, ajudar é que não se quer.  

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