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A República dos Bárbaros

Os deserdados da civilidade simulam retidão moral para praticar as brutalidades dos ‘homens de bem’

A República dos Bárbaros
A República dos Bárbaros
Foto: EVARISTO SA/AFP
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O magnífico projeto iluminista-burguês da liberdade, igualdade e fraternidade está fazendo água. Não podemos colher outro ensinamento das imprecações agressivas de Jair Bolsonaro contra os ministros do STF. Ao apontar sua garrucha velha e enferrujada para Alexandre de Moraes ou Luís Roberto Barroso, Bolsonaro não pretende atingir as pessoas dos ministros, mas, sim, a instituição STF.

No mesmo diapasão, seus fanáticos, ignaros e ressentidos apoiadores pretextam combater o “comunismo”, mas, na verdade, buscam  destruir as instituições que acompanharam a formação do Estado Moderno ao longo de séculos. O propósito é substituir a civilização pelas regras das sociedades das cavernas.

A civilização ocidental, disse Gandhi, teria sido uma boa ideia. Imaginei, santa ingenuidade, que as batalhas do século XX, além do avanço dos direitos sociais e econômicos, tivessem finalmente estendido os direitos civis e políticos, conquistas das “democracias burguesas”, a todos os cidadãos. Mas talvez estejamos numa empreitada verdadeiramente subversiva em seu paradoxo: a construção da ­República dos Bárbaros. Uma novidade política engendrada nos porões da inventividade contemporânea, regime em que as garantias republicanas recuam diante dos esgares das consciências toscas, movidas pelo narcisismo dos ressentidos.

Esses deserdados da civilidade simulam retidão moral para praticar as brutalidades dos “homens de bem”. Os direitos individuais e os valores da modernidade são tragados no redemoinho do moralismo particularista e exibicionista dos amorais. Trump e Bolsonaro exibiram de forma contundente o papel do ultraje pessoal na avacalhação do debate público. A ofensa pessoal usada como argumento e a resposta no mesmo tom são instrumentos da brutalização das consciências.

O expediente de satanizar o adversário revela indigência mental e despreparo para a convivência democrática. É, portanto, saudável exorcizar as tentações do maniqueísmo, o bem contra o mal.

Os bárbaros do teclado repercutem nas redes sociais os impropérios dos líderes truculentos. Manejam com desembaraço a técnica das oposições binárias, método dominante nas modernas ações e interações entre os participantes das redes. Nos comentários da internet, vai “de vento em popa” o que Herbert ­Marcuse chamou de “automatização psíquica” dos indivíduos. Os processos conscientes são substituídos por reações imediatas, simplificadoras e simplistas, quase sempre grosseiras, corpóreas.

Os indivíduos mutilados executam os processos descritos por Franz Neumann, em Behemoth, seu livro clássico sobre o nazismo: “Aquilo contra o que os indivíduos nada podem e que os nega é aquilo em que se convertem”. O que aparece sob a forma farsista de um conflito entre o bem e o mal está objetivado em estruturas que enclausuram e deformam as subjetividades exaltadas. A indignação individualista, a raiva contra os opositores e os arroubos moralistas são expressões da impotência que, não raro, se metamorfoseia em desvario autoritário.

Donald Trump e seu discípulo Jair Messias são fiéis pastores de seus crentes. São fiéis a seus fiéis. Para um contingente parrudo de americanos e brasileiros, não importam os deslizes de seus Deuses e Messias. Importa, sim, que os Escolhidos insistam e persistam na afirmação das crenças, ideologias, visões do mundo, valores que refletem os ressentimentos dos súditos maltratados pelas frustrações e misérias da vida.

Diante das misérias da vida e de uma vida de misérias, as vítimas dos deuses mundanos buscam refúgio no Incompreensível. Nos tempos de cólera, elas fogem das dúvidas e angústias que as atormentam. Adaptadas, conformadas, até mesmo confortadas e felizes, preferem aceitar que sua existência é apenas uma permissão dos deuses e de seus procuradores na Terra.

Nos espaços fabricados pelas Novas Crenças não é possível manter conversações, porque neles a norma não é a argumentação, mas o exercício da animosidade sob todos os seus disfarces, a prática desbragada da agressividade a propósito de tudo e de todos, presentes ou ausentes, amigos ou inimigos.

As redes sociais, prometidas como o espaço do movimento livre das ideias e das opiniões, se transformaram num calabouço policialesco em que a crítica é substituída pela vigilância. A vigilância exige convicções esféricas, maciças, impenetráveis, perfeitas. A vigilância deve adquirir aquela solidez própria da turba enfurecida, disposta ao linchamento. Não se trata de compreender o outro, mas de vigiá-lo. “Estranho ideal policialesco o de ser a má consciência de alguém”, diz o filósofo Gilles Deleuze, também suspeito de patrocinar o marxismo cultural.

*Retomei neste artigo, por oportuno, temas já tratados em outras ocasiões. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1207 DE CARTACAPITAL, EM 11 DE MAIO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “A República dos Bárbaros”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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