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Tortura, o limiar do humano

Não surpreende o ataque do filhote de Bolsonaro contra a jornalista Miriam Leitão. O que choca é a sociedade não reagir a tamanha infâmia

Tortura, o limiar do humano
Tortura, o limiar do humano
Foto: EVARISTO SA / AFP
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“Fui levada para uma grande sala vazia. (…) Chegaram três homens à paisana. Mandaram eu tirar a roupa. Fui tirando, constrangida, cada peça. Quando estava nua, eles mandaram entrar uns dez soldados na sala. Eu tentava esconder minha nudez com as mãos. Os soldados ficaram me olhando e os três homens à paisana gritavam, ameaçando me atacar (…) um homem voltou trazendo uma cobra grande, assustadora, que ele botou no chão da sala, e antes que eu a visse direito apagaram a luz, saíram e me deixaram ali, sozinha com a cobra. (…) Eu não tinha noção de dia ou noite na sala escurecida pelo plástico preto. E eu ali, sozinha, nua. Só eu e a cobra. Eu e o medo. (…) Não era possível nem chorar, poderia atrair a cobra. Passei o resto da vida lembrando dessa sala de um quartel do Exército brasileiro.”

Esses são trechos do depoimento da jornalista Miriam Leitão à Comissão Nacional da Verdade, sobre o momento em que foi torturada pela ditadura. Era dezembro de 1972, estava presa em um quartel de Vila Velha, no Espírito Santo. Miriam foi retirada da cela e escoltada até o pátio sob tapas, chutes e golpes que abriram a sua cabeça, após horas intermináveis trancada na sala escura com uma jiboia. A caminho do pátio, os torturadores avisaram que seria último passeio, ameaçando que seria fuzilada.

Há poucos dias, Eduardo Bolsonaro, filhote do presidente, debochou da tortura de Miriam, dizendo em uma rede social que teria “dó da cobra”. As barbaridades sofridas por ela estiveram longe de ser exceção. Brilhante Ustra, o torturador mais conhecido da ditadura, colocava ratos nas vaginas de mulheres durante as sessões de horror. Amelinha Teles, então jovem militante, foi torturada por ele diante de seus filhos de 4 e 5 anos. Os relatos colhidos pela Comissão da Verdade trazem centenas de situações indizíveis como essas. A barbárie era o padrão.

Que a família Bolsonaro defenda a tortura e deboche dela não é novidade. O problema da ditadura é que “torturou e não matou”, disse certa vez. Ele mesmo, na fatídica e vergonhosa sessão da Câmara Federal que votou o impeachment de Dilma, homenageou Brilhante Ustra aos olhos do mundo todo. O fato de Ustra ter comandado a tortura da própria Dilma tornou aquele momento ainda mais abjeto. Na campanha de 2018, disse que o livro do torturador estava em sua cabeceira e, já no Planalto, recebeu a viúva do crápula em almoço de honra. Não surpreende, portanto, o ataque covarde de seu filhote contra Miriam Leitão.

O que choca é a sociedade não reagir a isso nas devidas proporções. Ao defender um torturador no Congresso Nacional, o então deputado Jair Bolsonaro deveria ter sido cassado. Seria o mínimo em um país que respeita a sua história e a dignidade humana. Mas não: foi eleito presidente dois anos depois. De degrau em degrau, vamos chegando ao fundo do abismo ético e revelando uma sociedade profundamente adoentada.

A tortura é o ato humano mais torpe, o limiar da desumanização. Quem aceita a tortura do outro, perde a condição de dizer não a todo o resto. A naturalização da tortura também permitiu que, mesmo após o fim da ditadura, ela fosse mantida como prática corrente nas delegacias e presídios. Agora, não mais contra presos políticos, mas com os alvos de sempre do Estado brasileiro: pobres e negros.

No caso da família Bolsonaro, a relação com os porões da ditadura vai além da crença ideológica e do sadismo covarde. No livro A República das Milícias, o corajoso jornalista Bruno Paes Manso mostra como os antigos torturadores, diante da transição democrática e, consequentemente, da sua perda de função política, foram sendo incorporados pelo crime organizado. Muitos dos agentes do submundo da ditadura acabaram recrutados pelo jogo do bicho e, posteriormente, pelas milícias cariocas.

Transformaram-se em matadores de aluguel e donos de territórios, onde apresentavam-se como justiceiros para extorquir a população local. É nas milícias que a tradição de Brilhante Ustra e da escuderia Le Coq se encontra com o bolsonarismo, através de gente como Fabricio Queiroz e Adriano da Nóbrega, cujo assassinato pode ter sido encomendado pelo próprio presidente para “queima de arquivo”.

Mas nunca é tarde para tirar o país da miséria humana. Este é o grande desafio que temos em 2022: tirar os milicianos do Planalto e devolver os defensores da tortura para a lata do lixo. A encruzilhada que teremos este ano tem uma dimensão histórica muito além de uma simples eleição. Será uma escolha entre a humanidade e a desumanização. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1204 DE CARTACAPITAL, EM 20 DE ABRIL DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Tortura, o limiar do humano”

 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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