André Roncaglia

Professor de economia da Unifesp, pesquisador associado do IBRE-FGV e doutor em economia do desenvolvimento pela FEA-USP. É co-autor de 'Brasil, uma economia que não aprende'

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Tentações eleitorais

Estão usando Ciro para dar um verniz progressista à estratégia de derrubar Lula. Superada esta fase, estas forças não o desejarão no poder

Tentações eleitorais
Tentações eleitorais
Ciro Gomes na Paulista, em ato convocado pelo MBL. Foto: Karen Lusvardi/Divulgação/Redes Sociais
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Em face do fla-flu progressista, é preciso que se diga: foi bem-intencionada a ida de Ciro Gomes à manifestação do dia 12 de setembro. Sua luta foi pela democracia, pela eleição, pela parcimônia no campo democrático. Contudo, as intenções de Ciro não purificam os movimentos de direita com os quais dividiu o palanque.

MBL e comparsas nunca esconderam suas inclinações golpistas. Seu arrependimento momentâneo se refere, não ao golpe de 2016, mas ao descontrole político que hoje ameaça sua agenda econômica. Uma versão benigna de suas frustrações aceitaria a hipótese do autoengano.

Mais uma vez, os liberais de passeata caíram na arataca que sempre embaraça os movimentos dos individualistas crédulos: apostam que suas intenções vão desaguar nos resultados pretendidos.

O debate a respeito da frente ampla não pode ignorar o reacionarismo econômico dos “liberais” do MBL e afins

Receberam como resposta o liberalismo autoritário de Pinochet, agora protagonizado pela dupla Bolsonaro-Guedes. Os liberais do MBL, como seres sociais e políticos não são o que dizem ser e muito menos são o que pretendem dizer a seu próprio respeito.

O bolsonarismo é uma doença autoimune do corpo político que precisa ser controlada. Bolsonaro apenas lhe empresta o nome. Eis o único aspecto que alinha os astros nesta foto. Mas a vida é filme e o roteiro já é conhecido.

Estes não são grupos pró-democracia, senão aquela que produz os resultados que eles defendem. Trata-se aqui tão-somente do jogo eleitoral que lhes permitirá financiar campanhas com base no poder econômico que lhes dá sustentação. Estão usando Ciro para dar um verniz progressista à estratégia de derrubar Lula. Superada esta fase, estas forças não desejarão Ciro Gomes no poder.

Se eleito, tentarão colonizar seu governo com interesses escusos e, possivelmente, sofrerá outro golpe quando seu PND confrontar tais interesses. Esta é a história do nosso país.

Não tem a ver com gostar de ou apoiar um candidato, com sua inteligência e inovação programática. Tem a ver única e exclusivamente com a agenda econômica em um país em que o trabalhismo apenas conseguiu respirar quando foi tutelado pelo Estado.

 

As correntes progressistas precisam reduzir sua permeabilidade a declarações vazias de preocupação com o social e a lisura “democrática”. Estes grupos defendem o modelo econômico que torna o desastre social um tsunami que o rodinho da política pública jamais conseguirá conter. Afinal, para eles, o povo não cabe no orçamento e, com teto de gastos (que eles defendem), jamais caberá.

Por isso, é fundamental a união estratégica dos partidos de esquerda para conseguir formar uma base de sustentação no congresso em caso de manutenção do processo eleitoral. Ganhar a presidência é muito pouco para a esquerda. Sem uma blindagem mínima no Congresso, as forças do bolsonarismo entranhado se acumularão contra a esquerda, seja Lula, seja Ciro, seja quem for da corrente progressista que queira mudar as estruturas que produzem as vastas desigualdades de renda e, sobretudo, de riquezas neste país.

O debate a respeito da frente ampla não pode ignorar o reacionarismo econômico dos “liberais” do MBL e afins. Na verdade, estamos diante da dissolução do paradigma econômico que prevaleceu desde os anos 80 no mundo; com características nacionais, sim, mas com a marca neoliberal. Essa dissolução promove reações muito conservadoras e reacionárias. Estes movimentos não têm nada a dizer, senão reafirmar o autoritarismo ancorado em propostas de política econômica sem conexão com os movimentos desencontrados da economia, movimentos que só agravam os danos sociais.

Fica o alerta. O abraço do MBL equivaleu, metaforicamente, ao abraço e o beijo de Judas Iscariotes em Jesus. Ciro não é Jesus Cristo, mas estes movimentos de direita adoram um saco com trinta moedas, não importa quem lhes sirva de fariseu.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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