Cultura
Com que roupa?
Estamos assistindo a cada dia o desaparecimento de alguma coisa. Mas tem uma que não vai acabar. Por Alberto Villas
Outro dia, jantando com a minha filha, conversando sobre esse mundo moderno, coisas novas que aparecem, velhas e ultrapassadas que somem, ela me chamou a atenção para um detalhe.
– Pai, uma coisa que não vai acabar nunca é roupa.
– Como assim?
– Roupa! Nunca vão inventar uma roupa digital ou as pessoas vão passar a andar nuas.
Verdade. Já escrevi um livro inteiro sobre coisas que desapareceram, que sumiram do mapa. Falei do horizontal da TV, do sabonete Eucalol, do Simca Chambord, da brilhantina Myrurgia e da Revista do Rádio. Falei também do sabão Rinso, do vidro bolha do fuscão e da escola de datilografia. São coisas que sumiram mesmo.
Eu me pergunto. Quem ainda coleciona selos, quem ainda coleciona chaveiros, moedas, flâmulas, papel de carta ou caixinha de fósforo?
Temos falado muito ultimamente daqueles que estão na UTI, praticamente desenganados. Os CDs, as agendas de papel, o talão de cheques, as videolocadoras, os jornais impressos. Acho que até as chaves vão sumir, vão ser substituídas por cartões como já fazem os hotéis. Mas roupa, pensando bem, não vai acabar nunca. Os fabricantes podem ficar tranquilos.
É claro que umas roupinhas já sumiram de vez. Quem ainda compra uma peça de organdi, de popeline ou de alpaca? E onde foram parar aquelas blusinhas de Banlon, de Helanca, o Pervinc 70, a calça Topeka ou a camisa Volta ao Mundo? Sumiram, mas a roupa mesmo – calça, camisa, blusa, saia – essa continua firme e forte.
Uns grupinhos de nudistas aqui, outros ali, sempre vão existir. Como os índios. Mas outro dia mesmo eu vi na televisão um índio dando entrevista na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, vestindo uma camisa Lacoste. Não sei se era pirata, mas que tinha um jacarezinho do lado esquerdo, isso tinha.
As pessoas vão substituindo tudo. Trocaram o VHS pelo DVD, o freio comum pelo ABS, o vasilhame pelo pet, a laranjada pelo suco de caixinha, a carta pelo e-mail, o filme Ektachrome da Kodak pela foto digital. Estão começando até a trocar o livro pelo e-book. Mas eu quero ver o dia em que alguém vai chegar e dizer:
– Roupa? Eu não uso mais!
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