Cultura
A última canção
Assustado, olhei para um lado e para o outro e me perguntei: quem ainda compra discos?
Segunda-feira, onze horas da manhã. Entrei na Fnac de Pinheiros e desci bem devagar pela escada rolante pra ir direto na seção de discos. Quando coloquei os pés no chão do subsolo percebi que uma música estava tocando, bem baixinho. Era Maria Gadu.
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Olhei para os lados e não vi uma viva alma. Vi sim, um vendedor com os olhos grudados na tela do computador, bem lá no fundo. Passei por camisetas, miniaturas de automóveis, games, personagens de histórias em quadrinhos e seriados de televisão até chegar onde estavam os discos, os CDs.
Primeiro dei uma olhada na prateleira de novidades. Vi que lá estava a cantora sertaneja Paula Fernandes, o Marcelo Camelo ao vivo no Theatro São Pedro, o Caetano mandando aquele abraçaço e a Ângela Rô Rô coitadinha, bem feito. Tinha mais gente. O Martinho da Vila 4.5, três tons de Fafá de Belém, a Ana Carolina e a Maria Gadu que insistia em cantar baixinho.
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Fiquei assustado de me sentir sozinho ali naquele espaço andando feito um zumbi, observando prateleiras de A a Z. Comecei por Alceu Valença, passei por Bebel Gilberto, fui pra Cartola, cheguei a Djavan, depois pro E de Edu, de Elis, de Eliete Negreiros. Acelerei e cai no J de Jorge Benjor, Jorge Mautner, Jorge Vercillo e fui parar no M de Maria Bethânia, Malu Magalhães, Marina Lima… até chegar no Z de Zélia Ducan, Zé Ramalho, Zizi Possi e Zé Keti.
O silêncio se instalou naquele subsolo e eu continuei olhando as prateleiras, me lembrando de tantas canções da minha vida. Desde Onde eu nasci passa um rio que está no disco que Caetano dividiu com Gal, o primeiro que comprei com o meu salário de escrevente datilógrafo do Ministério da Agricultura, ali na Lojas Gomes da Avenida Afonso Pena, Belo Horizonte.
Lembrei da bossa nova que um dia dancei de rostinho colado com Suzana, da tropicália que cantarolava nas viagens a Ouro Preto quando caminhava contra o vento, sem lenço e sem documento no sol de quase dezembro. Passei pelo iê-iê-iê do rei me lembrando das curvas das estrada de Santos, tempo em que eu era terrível e queria que tudo mais fosse pro inferno. Cheguei ao rock dos Titãs, do Capital, da Plebe, da Legião.
Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha
Deixei os discos de lado e fui ver a miniaturas. Tinha um Kombi vermelha e branca maravilhosa dos meus tempos de easy rider. O bonecos bem guardados na vitrine de vidro me olhavam assustados, dragões e seres que pareciam do outro mundo. O simpático boneco Tocoyo também estava lá no cantinho, quietinho quietinho me espiando meio enviesado.
Passei pelos dvds, pensei em comprar Meia Noite em Paris, quem sabe o Doutor Jivago, um clássico que assisti ainda jovem no Cine Pathé mas acabei escolhendo O Filho do Holocausto do meu amigo Pedro Bial. Voltei aos discos. Agora uma outra música rolava naquele ambiente frio e vazio.
O canto vinha de longe
Lá do meio do mar
Não era canto de gente
Bonito de admirar
Eram os irmãos Caymmi.
Sozinho ali, tive então a impressão de que a música está morrendo, uma sensação ruim de que ela vai um dia acabar para sempre. Talvez pessimismo bobo esse meu. Uma música veio então à minha cabeça, uma canção daquele cantor que imitava Roberto Carlos lá no início dos anos 70 e que eu ouvia muito no rádio GE da minha casa.
Esta é a última canção que eu faço pra você
Já cansei de viver iludido só pensando em você
Se amanhã você me encontrar
De braços dados com outro alguém
Faça de conta
Que pra você não sou ninguém
Fui na letra P só pra xeretar se ainda existem discos de Paulo Sergio pra vender. Encontrei Paulo Ricardo, Paulo Diniz, Paulo Vanzolini, Paulinho da Viola. Mas Paulo Sergio não tinha, está fora de catálogo há muitos anos, me informou o vendedor que consultou o computador. Subi a escada olhando para aquele vazio lá embaixo, ganhei a calçada e fui caminhando pelo bairro pensando comigo mesmo. Será que alguém sabe quem é Paulo Sergio, aquele cantor da última canção?
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