Política

Ter orgulho de ser negro e gordo

Após a retirada de tramitação do PLC 122, que criminaliza a homofobia. o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) passou a sofrer uma série de ataques. Aqui, sua resposta.

Ter orgulho de ser negro e gordo
Ter orgulho de ser negro e gordo
Apoie Siga-nos no

Mais uma vez está  curso principalmente no Twitter uma tentativa de me difamar por meio da deturpação de minhas palavras (digo “mais uma vez” porque já houve outras e ainda hoje eu tenho que desmentir, para um ou outro desatento, ofensas à Bíblia e aos cristão atribuídas a mim pelos canalhas difamadores ligados e associados ao pastor da mala cheia, ao deputado que pede a senha do cartão de crédito aos fieis e à família de parlamentares que defende a tortura e a ditadura militar – e são esses mesmo canalhas que estão tentando me difamar agora, deturpando o que eu disse para ingênuos, desatentos e incapazes de interpretar texto).

A tentativa de me difamar parte do seguinte episódio:

O PLC 122 (projeto de lei anti-discriminação de minorias estigmatizadas) foi, infelizmente, apensado ao projeto de reforma do Código Penal, saindo de tramitação. Por conta disso, eu fiz umas postagens no Twitter defendendo o projeto e explicando que seu mérito pode ser incorporado ao Código Penal, resultando num tiro pela culatra da arma dos reacionários homofóbicos que desejavam enterrá-lo.

Eis então que o perfil de um homem negro e gordo me interpela, acusando-me de me vitimizar e dizendo que o PLC 122 atenta “contra a liberdade de expressão”. Aí, eu respondi a ele que um negro gordo (portanto, uma minoria estigmatizada que deve ser diariamente vítima de discriminação) se colocar contra o PLC 122 é mais que burrice: é o fim do mundo.

Bom, os perfis dos difamadores decidiram então, por conta disso, acusar-me de “xingar” o tal homem de “negro” e “gordo”, como se essas palavras fossem ofensivas; como se ser negro e gordo fosse motivo de vergonha e como se as pessoas que são negras e gordas tivessem que afirmar o contrário do que são.

Ora, ou a estupidez desses difamadores é tão grande a ponto de eles não perceberem que o que eu disse foi que uma minoria estigmatizada não pode atacar um projeto de lei anti-discriminação de minorias; ou eles (os difamadores) estão agindo de má fé (aposto mais nisso!).

A ironia é que eles – difamadores desprezíveis – ao considerarem as palavras negro e gordo ofensivas; ao considerarem que alguém não pode ter orgulho de ser negro e/ou gordo (como eu tenho orgulho de ser gay, negro e nordestino!), eles é que estão sendo racistas (aliás, eles são racistas, basta ver a quem estão ligados e associados!).

Ora, o que eu disse ao cara que me interpelou (e ratifico) é que alguém que é negro e gordo ser contra uma lei anti-discriminação de minorias é o fim do mundo, porque essa lei vai protegê-lo! É como uma mulher ser contra uma lei anti-violência de gênero (A Lei Maria da Penha)! E como um professor ser contra uma lei que garanta maior orçamento para a educação!

Eu apontei para a contradição dele, para seus preconceitos internalizados. E se alguém acha que dizer que outro é negro é uma ofensa, deveria refletir sobre o seu próprio racismo. Eu estou orgulhoso da minha cor, como estou da minha orientação sexual.

Infelizmente, tem negros que são homofóbicos, tem gays que são racistas, tem judeus que são machistas, tem nordestinos que são antissemitas e não percebem o quanto isso é contraditório. É, sim, ofim do mundo!

Explico isso para vocês, não para os difamadores. Eles continuarão me difamando, cada dia com uma mentira nova. Mas não tenho medo deles e não vou sair de cena nem me calar (que é o que eles querem que eu faça). Jamais! Em 2014, estarei ainda mais em cena apesar dos perigos, dos castigos, da força mais bruta e da noite que assusta! Aproveito para desejar a todos vocês boas festas e um ano ano mais feliz!

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.

CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.

Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo