Política

Protestos foram uma resposta ao ‘peemedebismo’ da política

Para o filósofo Marcos Nobre, governantes privilegiaram a supermaioria parlamentar, ignoraram as reformas e criaram as condições para as revoltas

Protestos foram uma resposta ao ‘peemedebismo’ da política
Protestos foram uma resposta ao ‘peemedebismo’ da política
Em vez de reformas, governo optou pelo 'peemedebismo', diz filósofo. Na foto, o presidente do Senado, Renan Calheiros, aliado dos governos Collor, FHC, Lula e Dilma
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Durante a sua exposição no debate sobre os protestos de junho, no último dia do 37º Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), em Águas de Lindoia (SP), o filósofo Marcos Nobre, pesquisador o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), traçou um panorama da história política recente do País para explicar a origem das mobilizações que tomaram as ruas do País. Segundo ele, a revolta de junho revelou um “descompasso flagrante” entre a cultura política do sistema de representação e a base da sociedade. “Esse descompasso significa que há uma democracia que não pode se reduzir ao sistema político, muito menos à eleição. A democracia é muito mais do que isso.”

Participaram do debate o cientista político Marco Aurélio Nogueira, professor de titular de teoria política da Unesp, o sociólogo Marcelo Ridenti, professor titular da Unicamp, e a militante do Movimento Passe Livre (MPL) Mariana Toledo.

Segundo Nobre, o descompasso é explicado pelo “mito da governabilidade”, criado a partir do impeachment de Fernando Collor de Mello, segundo o qual, para governar, é preciso abrir concessões por atacado para formar uma “supermaioria parlamentar”. Esse modo de operar, chamado por ele de “peemedebismo”, marcou os governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso e blindou o sistema político em relação à sociedade civil organizada. “A mensagem era: ‘se é impossível reformar o sistema político para fazer alguma coisa para a nação, é necessário ao menos dirigir esse sistema político’. O governo FHC foi uma combinação da necessidade de adaptar o país a uma nova situação do capitalismo internacional e manter o sistema político como foi herdado. Como? Fazendo um cordão sanitário no BNDES, no Ministério da Fazenda, da Educação, eventualmente da Saúde, na qual a cultura política do sistema político não pode entrar com tudo, e negociando por atacado (com outros partidos para ocupar os outros cargos).”

No inicio do governo Lula, o governo de minoria foi ameaçado de impeachment, em 2005, devido ao escândalo do “mensalão”. Isso, segundo Nobre, levou o PT a fazer um pacto com o sistema político tal como ele funcionava. “Lula tinha duas opções. Uma, a reforma do sistema. Outra, o combate à desigualdade. Em 2005, o que o governo Lula disse à sociedade política organizada foi: ‘não dá pra fazer as duas coisas’. Se quisesse combater as desigualdades, teria de fazer um pacto.”

Fora desse sistema, a sociedade organizada acompanhou a expansão da internet e detonou o monopólio de informação por parte da mídia tradicional. “Com isso, você tem a possibilidade de discutir. E isso vai direto para as ruas, onde os manifestantes vão dizer: ‘eu tenho emprego, mas ele é uma porcaria’.” Para Marcos Nobre, os protestos de junho são o final de um longo processo de transição democrática que tem como base o ‘peemedebismo’ e a blindagem ao sistema político a partir de 92.

“Os protestos de junho são uma resposta a essa blindagem. Deixou clara a exigência de uma mudança radical do sistema político e mostrou que há um descompasso entre a maneira como o sistema político funciona e a maneira como a sociedade está se autocompreendendo. Isso significa que o sistema político vai se reformar radicalmente? Espero que sim. Já? Não. Por isso é importante dizer o que aconteceu depois de junho.”

Em sua exposição, o sociólogo Marcelo Ridenti citou o acesso da juventude à universidade e aos meios digitais nos últimos anos para dizer que “está se gestando uma realidade nova no Brasil, com desejo forte de democratização”. Ao mesmo tempo, afirmou o professor, cresceu o descontentamento com a desumanização das cidades, com serviços de educação, transporte e moradia precários.

“Os protestos foram o movimento de uma juventude escolarizada que trabalha e têm dúvidas sobre as suas possibilidades de ascensão. Muitos trabalham o dia inteiro, estudam, e enfrentam uma condição terrível para se locomover nas cidades. Têm uma mistura de desejo de reconhecimento e realização para se colocar na sociedade brasileira pela integração com o consumo. E deixaram uma mensagem: ‘queremos uma melhor gestão para a aplicação do fundo público, não para financiar a Copa do Mundo, mas os interesses públicos’.”

Segundo o professor, as manifestações ganharam proporção cada vez maior a partir da revolta “contra a polícia e os mecanismos de repressão, incompatíveis com a democracia”.

Mariana Toledo, do MPL, se opôs à ideia de que o apoio popular ao movimento aconteceu em razão da truculência da polícia. Ela citou a violência cotidiana nas periferias e disse que a revolta antes estava apenas invisível. Toledo criticou o processo de heroicização do movimento por parte da mídia que antes os chamavam de “vândalos”, mas destacou: a agenda dos protestos é permanente, mas os movimentos sociais, mesmo após a visibilidade de junho, seguem criminalizados pelo Estado e por parte da mídia.

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