Sociedade

Sabe quem morreu?

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Quando passou dos setenta, o meu pai começou com uma mania. Acordava todo dia cedo, ia até o alpendre e pegava em cima do capacho o jornal Estado de Minas. Entrava e, na copa, sentava-se numa confortável cadeira colonial, colocava o jornal em cima da mesa, arrumava os cadernos e ia direto saber quem morreu.

Numa Belo Horizonte meio provinciana ainda, era raro o dia em que ele não encontrava nas páginas daquele jornal, um morto mais ou menos conhecido. Se não era amigo, conhecia pelo menos de nome.

– Deve ser parente de Chaim, porque o sobrenome é Mitre!, dizia ele.

Meu pai, apesar de morrer de medo da morte, sempre brincava com ela. Adorava contar piada de morto e quando morria uma pessoa que não conhecia, costumava dizer:

– Morreu, morreu! Antes ele do que eu!

Ainda não cheguei aos setenta, mas acho que herdei do meu pai essas manias de colocar os cadernos em ordem e ir direto na seção de obituário do jornal. Só que ao invés do Estado de Minas, é a Folha de S.Paulo.

Tenho, como ele, uma cadernetinha com os aniversários de todos os parentes, amigos e amigas. De uns tempos pra cá, anoto também o dia da morte quando, infelizmente, isso acontece.

Confesso que, até os sessenta anos, ao sentar na cabeceira da mesa, ia direto ao “Erramos”, aquela coluninha que fica ali embaixo, na página 3. Mas agora, estou preferindo ir direto aos mortos. Não que São Paulo seja uma cidade pequena ou provinciana como aquela Beagá dos anos 60. É muito raro eu conhecer um morto da Folha, mas eu me divirto muito com os títulos, com todo respeito a eles, os mortos.

Conheço muita gente que trabalha na Folha mas não faço a menor ideia quem faz esses títulos. Não sei se você já se atentou pra isso. Mas foi lendo no caderno Cotidiano que fiquei sabendo que, nos últimos dias, morreu um crítico de cinema que amava o Vitória, um homem que amava Iêda, a aviação e o agreste potiguar, um armênio que fez do Brasil o seu lar e um fotógrafo do Pantanal que conheceu João Paulo II.

Quem faz o título do principal morto do dia, pesca uma, duas ou três informações do texto e escreve simplesmente:

Um vaqueiro empreendedor

Uma mulher independente

Agrônomo amante da literatura

Narrou a saga ferroviária no país

Iluminou o Cristo Redentor

Ortopedista renomado, viajou pelo mundo

Sim, todos esses morreram porque, mais cedo ou mais tarde, todo mundo morre mesmo. Só nos últimos dias, o editor  registrou a morte do médico erudito da avenida Angélica, de um meticuloso cozinheiro libanês, de um homem que dedicou-se ao ensino em Bauru e outro que dividia a cama com os livros. Sem contar aquele que era reverenciado pelos músicos.

Fico imaginando o dia em que o responsável pela seção de obituário da Folha morrer. Quem será que vai fazer o título? Que título?

Jornalista, trabalhava na Folha e fazia títulos

Sim, talvez.

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