Cultura
Banda faz som de material reciclado e se firma na capital do sertanejo
Grupo completa 15 anos em Goiânia, utilizando embalagens de plástico, tubos de pvc e peças metálicas para criar seus instrumentos
O grupo goiano Vida Seca completa 15 anos de existência em 2020. A banda surgiu de um bloco de percussão de movimento estudantil que usava materiais descartáveis. A agremiação acabou, mas um quarteto decidiu continuar o projeto, confeccionando e usando produtos reciclados à base de plástico, pvc e metal como instrumentos de sopro, percussão e cordas para produzir seu som.
O projeto cresceu, se consolidou e caminha para o terceiro álbum, a ser lançado no início do ano que vem, com nome de Upan (selo Milo Records). Dois singles desse trabalho já foram para rua (as músicas Tudo Cãimbra e Flautas Victory) e um terceiro, uma nova versão da música autoral Cubana, já estava para sair.
Os materiais reciclados utilizados como instrumentos nos últimos singles lançados pelo Vida Seca são diversos.
A conga (tambor de percussão) é de containers de plástico usados para produtos alimentícios. O bumbo da bateria é um tambor quadrado de material de plástico.
As latas de tinta são caixas de bateria. O chimbal, também componente da bateria, é feito com calha.
Há ainda uma baqueta, com uma embalagem de Yakult com arroz presa a ela, que dá forma um chocalho.
A marimba, que é um instrumento percussivo com a disposição análoga ao piano, tem as teclas de porcelanato, afinadas na escala tonal. Há ainda vários copos de metal usados para produzir som.
O tambor de língua ou fenda, em geral feito de madeira ou bambu, no caso do grupo Vida Seca, é de cilindro de gás de ar condicionado, onde foram feitos cortes para produção de som.
Há utilização de pvc nos instrumentos de sopro, desde o didgeridoo, que é um instrumento comprido aborígene com som semelhante ao berrante, até flautas com afinações diferentes.
“Ao longo desses 15 anos fomos pesquisando outros grupos, contatando construtores de instrumentos daqui do Brasil e de fora”, conta Ricardo Roqueto, que junto com Igor Zargov, Danilo Rosolem e Thiago Verano formam o Vida Seca.
“Daí, fomos criando instrumentos afinados na escala tonal, como o que chamamos de ladrilhofone, que é feito de porcelanato”.
A inspiração do Vida Seca veio muito do Uakti, grupo musical brasileiro referência no uso de instrumentos musicais não convencionais e que depois de quase 40 anos de atividade, em 2015, se dissolveu.
Mas há outras influências, como o suíço naturalizado brasileiro Walter Smetak (1913-1984), o americano Harry Partch (1901-1974), músico e renomado criador de instrumentos musicais, e o luthier Márcio Vieira, integrante do Circo Teatro Udigrudi de Brasília.
Projeto cresceu, se consolidou e caminha para o terceiro álbum, a ser lançado no início do ano que vem. Foto: Juliana Cordeiro
“No início, a gente catava os materiais na rua. Depois passamos a ir a ferro-velho. E quando fazíamos apresentações em empresas, a gente negociava para pegar alguns materiais recicláveis descartados, como calhas e peças metálicas”, lembra Ricardo Roqueto.
Césio-147
O segundo álbum tem o nome de Rua 57 nº 60, um tributo as vítimas do césio-147 em Goiânia. O título do trabalho é o endereço onde se desencadeou a tragédia (hoje é um lote concretado).
“Lá fizemos uma performance em 2007 a convite da associação das vítimas pelos 20 anos do acidente com césio-137. Desdobramos isso num curta-metragem e gravamos um disco depois aproveitando o material e criando outros”, conta Ricardo.
O grupo se considera um tipo de catador de material e isso os aproximou da tragédia com o césio-137. É que na Rua 57 nº 60 foi onde catadores de ruas, em 1987, encontraram e recolheram a máquina de radiologia que desencadeou um rastro de contaminação, provocando um dos maiores acidentes radioativos do mundo.
“Quando a associação nos convidou, foi uma redescoberta dessa história e da dor dessas pessoas. Esse assunto retornou muito forte para nós, por que eles brigam até hoje por assistência do Estado. A gente quis trazer esse trabalho para dentro de nossa linguagem e, de alguma forma, ajudá-los a ter visibilidade”.
Depois do lançamento do álbum, além de shows o projeto em homenagem às vítimas do césio foi levado às escolas e também a debates.
Subjetividade
A música instrumental de Vida Seca é bastante subjetiva, fora dos padrões de mercado, mas o grupo conseguiu atingir um público em Goiás e participar da cena musical local, levando seus sons produzidos com materiais reciclados para vários festivais.
“A nossa música está entre o popular e o experimental”, define Ricardo. A banda também já se apresentou no exterior, incluindo Portugal, Uruguai e Argentina.
A cena musical em Goiânia é dominada muito pelo sertanejo, não à toa é chamada capital do gênero, e um pouco pela cena alternativa de rock, representada por bandas como Carne Doce e Boogarins, que já ganharam expressão nacional.
Em Goiás, o mainstream sertanejo é tão poderoso que o próprio poder público promove circuito de shows do gênero, quando uma política pública pautada pela diversidade devia privilegiar justamente a cultura fora do mercado.
Apesar disso, o Vida Seca se firma com shows, performances e oficinas pelo país. “Tivemos muita perseverança”, resume Ricardo Roqueto.
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