Política

Para analistas, crise da água pode afetar Aécio

Escassez em São Paulo vira tema importante de campanha e ameaça influenciar resultado no maior colégio eleitoral do País. Especialistas dizem que PSDB erra ao tentar atribuir culpa ao governo federal

Para analistas, crise da água pode afetar Aécio
Para analistas, crise da água pode afetar Aécio
Foto: Arquivo
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A grave crise hídrica que atinge o estado de São Paulo pode diminuir as intenções de voto para o tucano Aécio Neves. Em meio à disputa acirrada na reta final das eleições presidenciais, a falta de água deve abrir uma diferença favorável a Dilma Rousseff (PT) no maior colégio eleitoral do país, preveem especialistas.

“As torneiras estão secando, e isso tem se transformado em um grande constrangimento para o governador Geraldo Alckmin e para o PSDB”, avalia o cientista político Carlos Melo, do Insper.

Com a intenção de desgastar a imagem de Aécio e o favoritismo do PSDB em São Paulo, o PT tem usado a crise para criticar a forma de gestão tucana.

Em propaganda eleitoral veiculada nesta segunda-feira 20, Dilma diz que o governo paulista foi alertado em 2004 sobre a necessidade de a Sabesp (estatal responsável pela distribuição de água no estado) reduzir a dependência do Sistema Cantareira, mas “não fez nada”. O sistema de captação de água é responsável pelo abastecimento da região metropolitana de São Paulo.

“Esse é mais um exemplo do modelo de gestão tucana”, declarou a presidente. “Há meses que venho tentando ajudar, mas eles não demonstraram interesse em fazer obras com o nosso apoio”, completou, anunciando a liberação de 1,8 bilhões de reais para a construção do Sistema São Lourenço, que, segundo ela, resolveria o problema da falta de água no “médio prazo”.

Já Aécio joga a responsabilidade para o governo federal. O candidato pelo PSDB afirmou nesta segunda que “talvez tenha faltado uma parceria maior” do Planalto, e criticou a atuação da Agência Nacional das Águas, órgão federal que regula o gerenciamento dos recursos hídricos no país.

“Vi essa questão da água ser muito discutida na campanha de São Paulo e nós vimos o resultado”, afirmou, em referência à reeleição de Alckmin para o governo do Estado.

Para o cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, da FGV-SP, a crise hídrica pode ser um fator de decisão do voto em um estado em que o PT “vai muito mal”.

“O governador vem adiando o enfrentamento do problema. Esse fato não tinha provocado muitas consequências entre os eleitores, porque, até então, não estava faltando água nas torneiras”, analisa. “A impressão que eu tenho é que Alckmin está esperando chegar o dia 26 [segundo turno] para tomar um posicionamento.”

De acordo com a Constituição, a gestão dos recursos hídricos disponíveis no território de um estado é de responsabilidade do governo estadual.

Teixeira avalia que Aécio erra estrategicamente ao usar o argumento de houve falha do governo federal. “A maneira escolhida por ele foi inesperada, porque, do ponto de vista prático, o governo federal tem pouco a fazer, a não ser empréstimos ou aporte de recursos. A grande responsabilidade nessa questão é dos estados”, argumenta.

Carlos Melo, do Insper, ressalta que esta é a primeira vez, desde que a crise foi anunciada, que se tenta responsabilizar o Planalto.

“Não adianta agora Aécio jogar a questão da água para o governo federal. O governador Geraldo Alckmin não disse isso em momento algum, pelo contrário, chamou para si a responsabilidade até o último momento. É no mínimo incoerente”, analisa.

A escassez de água em São Paulo deve ser um dos pontos principais do último debate presidencial, que será realizado nesta sexta-feira (24/10) pela TV Globo, a dois dias do segundo turno.

Uma pesquisa do Instituto Datafolha divulgada nesta segunda mostra que 60% dos moradores da cidade de São Paulo tiveram algum problema com interrupção do fornecimento de água nos últimos 30 dias.

Para Melo, é inevitável que Dilma se refira ao problema. “Aécio vai dar uma resposta e tentar puxar outros pontos da agenda política”, diz.

Teixeira destaca que o PSDB foi eleito para mais quatro anos em São Paulo antes que o problema se agravasse e os eleitores fossem diretamente afetados. “Assim como Aécio explorou até o limite o caso de corrupção na Petrobras, a crise da água surge como uma janela de oportunidades para Dilma. É a bala de prata que ela tem”, opina o especialista.

Nesta terça-feira (21/10), o presidente da Agência Nacional das Águas, Vicente Andreu Guillo, criticou o governo paulista. Segundo ele, a população não está sendo alertada corretamente sobre a gravidade do problema.

“Não há obras em curso que possam atender a demanda no curto prazo. Se a crise se acentuar, não haverá alternativa. Poderemos assistir a um colapso nunca antes visto na região metropolitana de São Paulo”, afirmou em debate sobre a crise da água na Assembleia Legislativa do estado.

Adolpho José Melphi, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo, atribui a falta de água em regiões do Rio de Janeiro e do Triângulo mineiro e em São Paulo à escassez de chuvas.

“Desde que o sistema foi criado, há 30 anos, nunca tivemos uma falta praticamente total de chuva. Não sou pessimista. Não acho que vai acabar a água em São Paulo. As autoridades têm que correr com a conclusão das obras que estão em andamento e a população, economizar”, afirmou.

Nesta semana, o Senado deve pedir informações ao Ministério do Meio Ambiente sobre a situação dos reservatórios de água do rio São Francisco, que vem passando por uma estiagem. Em setembro, foi anunciado que a nascente do rio em Minas Gerais havia secado.

Segundo o senador Kaká Andrade (PDT/SE), o governo federal tem alterado a vazão de usinas hidrelétricas para diminuir o risco de racionamento de energia elétrica, o que tem comprometido o abastecimento.

  • Autoria Karina Gomes

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