Cultura
Cannes tem dia de ótimos atores
Cate Blanchett não está menos do que magnífica como a protagonista de ‘Carol’, de Todd Haynes
De Cannes
Há mais de uma década, Todd Haynes mostrou o dilema de um pai de família atraído por homens nos Estados Unidos dos anos 50. Dennis Quaid dava conta da dor e paixão da vida dupla, mas a crise cabia toda a Julianne Moore no papel da mulher desesperada com a descoberta. O diretor inverte o quadro agora, mas continua no mesmo período, quando o assunto era mais que tabu e sim um desvio psicológico e moral.
Em Carol, Cate Blanchett é a personagem do título que seduz e fica louca por Rooney Mara. Casada e mãe, já sabemos quando o filme começa que existe ao menos um amor lésbico antes da jovem. Prestes a se divorciar, a elegante Carol ganha todo o ódio do marido e é flagrada por escuta durante uma cena de sexo. As duas suspendem uma viagem pelo centro americano e Blanchett volta para enfrentar o marido. Não sem antes a bonita e delicada cena na cama. Haynes é assim, sofisticado, e nunca força a barra. O tom do filme é melancólico, nunca expansivo, de modo a não querer marcar uma postura de realização em prol das personagens. Como no filme anterior, elas também estão Longe do paraíso.
Foi um dia de ótimos atores em Cannes. Blanchett não está menos que magnífica. Faria um ótimo par com Vincent Lindon. Ele surge em La Loi du Marché, a lei do mercado, como o desempregado que não consegue se recolocar como o operário especializado e devoto por décadas a mesma empresa. Tem família, inclusive um filho deficiente.
O filme de Stephane Brizet, que fez Mademoiselle Chambom também com Lindon atraído pela delicadeza da arte do piano, além da pianista, é claro, acompanha o trajeto do protagonista por entrevistas, discussões no banco para empréstimos, com colegas sindicalista, e todas a regras desse mundo globalizado e corporativo. Aceita um posto como segurança de um supermercado, de olho nos pequenos ladrões de mercadoria. Há um incidente que o abala.
Um filme cortante, sintético e direto sobre as mazelas da economia devastadora que vivemos na atualidade, na Europa e em todo lugar. Diretor e ator fazem uma parceria forte, mas me parece que um tanto levado pelo registro dos Dardenne, o que pode diminuir suas chances na premiação.
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