Política

Estátua indesejada por Ernesto Araújo volta ao Itamaraty

É símbolo de política externa oposta à atual, atrelada aos EUA e debochada pelo Washington Post

Estátua indesejada por Ernesto Araújo volta ao Itamaraty
Estátua indesejada por Ernesto Araújo volta ao Itamaraty
Foto: Brendan Smialowski / AFP
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A decisão de Donald Trump de subir o imposto do aço brasileiro importado pelos americanos foi descrita pelo Washington Post como demonstração de que “saiu pela culatra” a política externa pró-Estados Unidos de Jair Bolsonaro. Com o governo aturdido pelo episódio, um diplomata notou: a estátua de San Tiago Dantas, patrono de uma política externa oposta à atual e que era seguida há décadas, voltou ao Itamaraty. Um fantasma a lembrar que há opção à “culatra”. 

Com Dantas a representar o Brasil na ONU e depois à frente do Itamaraty, no início dos anos 1960, antes do golpe militar de 1964, o País inaugurou a chamada Política Externa Independente. Esta consistia, em linhas gerais, em não se atrelar aos EUA e em manter relações diplomáticas e comerciais amistosas com o então bloco comunista, inimigo de Washington. 

O sumiço do busto levara Hussein Kalout, Secretário de Assuntos Estratégicos do governo Temer e hoje professor de Relações Internacionais em Harvard, a apontar um ato arbitrário que buscava “expurgar o pensamento crítico, o dissenso, o pluralismo e a valorização da memória do Itamaraty” e uma “vã tentativa de apagar ou diminuir a importância de vultos históricos, cuja contribuição para o Brasil foi reconhecida por todas as correntes políticas, mas não mais”.

O comentário, feito em outubro, tirou do sério o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. O chanceler foi ao Twitter no dia seguinte e disse que era “fake news” que ele tivesse mandado retirar a estátua, como Kalout havia escrito também. Mas que “podia ter mandado” pois discorda em tudo da herança de San Tiago Dantas. E em seguida punha a esculhambá-la.

Para Araújo, a política externa independente (PEI) de Dantas virou “fetiche do establishment brasileiro de política externa” e não devia. Motivos: era “ideológica” embora tentasse “disfarçar”, afastava-se dos EUA para “bajular o bloco comunista” e ignorava o que “somos enquanto nação” em favor “de como queremos ser vistos pelos analistas bem-pensantes”. “Na mente pobre e raivosa dos saudosistas da PEI há um interesse muito claro: rebaixar o Brasil”, escreveu.

A julgar pelo Washington Post, quem rebaixou o Brasil foi a política externa subordinada a Trump.

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