Alberto Villas

villasnews@uol.com.br

Jornalista e escritor, edita a newsletter 'O Sol' e está escrevendo o livro 'O ano em que você nasceu'

Opinião

Ele entrou de repente, e demos a volta ao mundo em 15 minutos

Eu ouvia atentamente, tentando entender até onde iria. Com uma vontade de partir com ele

Ele entrou de repente, e demos a volta ao mundo em 15 minutos
Ele entrou de repente, e demos a volta ao mundo em 15 minutos
Ônibus em São Paulo (Foto: Reprodução/Wikipedia)
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Ele entrou assim de repente e se agarrou na barra de ferro amarela que fica bem ao lado da porta de entrada, em frente a porta de saída, junto a sanfona do ônibus. Cabeça baixa, não chamou a atenção de praticamente nenhum dos passageiros, uns vinte, todos entretidos com os seus smartphones, surdos com os seus fones de ouvido.

Apenas a cobradora, uma mulher com os dedos cheios de anéis e os olhos pintados de azul, olhou para ele de cima a baixo, mas desviou o olhar assim que começou a falar sozinho. As cobradoras estão acostumadas com pessoas como ele, que entram nos ônibus e se recusam a passar na catraca, descem pela porta da frente. Andarilhos, anárquicos, livres.

Era um senhor que aparentava uns sessenta e poucos anos, maltratado pela vida. Vestia um jogging azul quase preto, ruço, uma camiseta cinza com os dizeres University of Florida, bem surrada, certamente comprada na 25.  Ele calçava um par de sapatos empoeirados, sem meias. O homem não olhou para ninguém, e de cabeça baixa ficou. Parecia ter os olhos fixos para o chão sujo de pó, gasto pelo tempo, típico de coletivo. Quase não se movimentava, mesmo com os solavancos que o motorista dava, a cada partida.

Eu poderia ir pra Lima, no Peru

Pequim, na China

Bogotá, na Colômbia

Buenos Aires, na Argentina

Eu poderia ir pra Nova Delhi, na Índia

Londres, Inglaterra

Paris, França

Berna, Suíça

Montevidéu, Uruguai

O ônibus sacudia muito, fazia curvas fechadas, seguia por retas e voltava a fazer curvas, rasgando a cidade, rumo a Avenida Paulista. O calor lá fora era sufocante, o tal aquecimento global a todo vapor. Dentro do ônibus, uma temperatura agradável, amenizada pelo ar condicionado que funcionava mais ou menos. Quando parava no ponto e abria a porta, vinha aquele ar quente sufocante que passeava em círculos entre os passageiros.

Eu poderia ir para Estocolmo, na Suécia

Nova York, nos Estados Unidos

Berlim, na Alemanha

Damasco, Síria

Beirute, Líbano

Eu poderia ir pra Cidade do México, no México

Istambul, na Turquia

Copenhague, Dinamarca

Moscou, Rússia

A cobradora olhava desconfiada, um pouco curiosa com aquele senhor recitando capitais e países como se estivesse rodando um globo terrestre. Ele levava em uma das mãos, uma sacola reciclável do supermercado Pão de Açúcar, bastante estropiada.

Continuava agarrado na barra de ferro amarela e eu ao lado dele, ouvindo sua aula de geografia, espiando dentro da sua sacola. Dava pra ver apenas alguns panos, não sei se de chão ou de prato. Pareciam sacos comuns, encardidos, enrolados. 

Eu posso ir pra Santiago, no Chile

Havana, Cuba

Cairo, Egito

Manágua, Nicarágua

Caracas, Venezuela.

Eu posso ir pra Tóquio, no Japão

Bruxelas, Bélgica

Lisboa, Portugal

Eu ouvia atentamente, tentando entender até onde iria. Vontade de partir com ele, percorrer ruas de Shinjuku, em Tóquio, beber um mojito na Bodeguita del Medio, em Havana, ver a exposição de Francis Bacon, em Paris, conhecer a nova Tate Modern, em Londres, circular pelas ruínas do centro de Damasco, folhear livros na Livraria Ateneo, em Buenos Aires, almoçar no Museu do Tintin, em Bruxelas, comer um quibe assado, de carneiro, debaixo das parreiras de Beirute, tomar um suco de romã gelado em Istambul, rever as esculturas da Praça Botero, em Bogotá, voltar ao museu da DDR, em Berlim ou saborear umas sardinhas na brasa, em Lisboa.   

Eu posso ir pra Helsinque, na Finlândia

Madri, na Espanha

Eu posso ir pro Canadá

É, pro Canadá

Canadá?

Não resisti e completei:

Ottawa!

O senhor olhou para os meus pés, fixou os olhos no meu All Star e disse apenas uma frase:

Esse sabe das coisas!

Quando o ônibus parou, ele desceu. Estávamos debaixo do viaduto Presidente João Goulart, o Minhocão. Desceu apressado, olhou para trás e percebeu que o seu segundo ônibus do dia estava chegando. Deu sinal e entrou. O luminoso dizia:

857P-10 Paraíso

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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