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Opinião

O absurdo já não nos impressiona

por Aline Valek publicado 19/04/2016 10h49
Nem a mais absurda ficção tem conseguido competir com nosso momento político, um show de personagens e enredos surreais
Marcelo Camargo/ Agência Brasil
Deputados

A enorme quinta série de domingo

São tempos difíceis para a ficção. Diante da concorrência de uma realidade cotidianamente doida, onde disputas políticas são protagonizadas por bonecos infláveis e o noticiário começa a se parecer com enredo de novela, a ficção estremece e teme engrossar a fila do desemprego.

Impressionar as pessoas com histórias surreais não será mais o mesmo depois de testemunharmos uma votação no Congresso se transformar em uma enorme quinta série descontrolada que deixaria qualquer professor com problemas psicológicos para o resto do ano.

Teve beijinho pra mamãe, filhinho e netinha, homenagem a torturador, voto rimado, profetização, bandeira enrolada no pescoço tal qual capa do Superman, e voto pelo fim da corrupção dedicado a papai na cadeia, ou a marido que seria preso no dia seguinte.

E deputados trabalhando com tamanha disposição em pleno domingo? Surreal é pouco. 

Perto disso, o que é acordar de sonhos intranquilos e perceber-se metamorfoseado em um inseto gigante? Fichinha. Coisa pouca. Alguns diriam até que seria um alívio. Antes se transformar num personagem kafkiano do que permanecer numa realidade em que os insetos gigantes governam e legislam sobre nossas vidas.

“Pelo fim da infestação de insetos!”, gritam energicamente as baratas reunidas, roçando as antenas com as patinhas peludas.

Dessas coincidências que só deixam a coisa toda com mais cara de inventada, esse show de horrores teve lugar na história num dia 17 de abril, mesma data em que, no já longínquo ano de 2014, morria o escritor Gabriel García Márquez.

Certa vez numa entrevista, quando perguntando sobre a magia contida em suas narrativas, García Márquez respondeu:

“A vida cotidiana na América Latina nos demonstra que a realidade está cheia de coisas extraordinárias. Conheço gente inculta que leu Cem Anos de Solidão com muito prazer e muito cuidado, mas sem surpresa alguma, pois afinal não lhes conto nada que não pareça com a vida que eles vivem”. 

De fato, a literatura latino-americana se fortaleceu no campo do realismo fantástico, gênero literário que busca explorar o absurdo ao mostrá-lo como algo cotidiano e comum.

Talvez o histórico de violações, exploração, desigualdades e longos períodos de ditadura nesses países tenha algo a ver com isso. Introduzir elementos fantásticos vistos com normalidade dentro da história teria sido uma forma de apontar para os absurdos da própria realidade.

Além de Gabriel García Márquez, foram grandes nomes nesse gênero os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges.

Nossos vizinhos podem ter conseguido mais destaque trabalhando com o absurdo no campo da literatura, mas isso não apaga nosso brilho, não: aqui no Brasil levamos o absurdo tão a sério que ele não nos basta apenas na ficção. Incorporamos no nosso dia a dia. Misturamos com arroz e feijão.

Aqui, a mídia é que lança o raio normalizador no surreal que nos cerca, conseguindo o efeito do realismo fantástico de apresentar o estranho como comum. Afinal, não deve ter nada de mais num presidente da Câmara citado em tantos escândalos que até parece empenhado em quebrar um novo recorde mundial nas olimpíadas da pilantragem. Não, imagina, absolutamente normal.

Acostumados demais a entrar na internet ou ligar a TV e nos deparar com histórias mais doidas do que as performances da Carreta Furacão (em que um Fofão genérico e um Ben 10 fazem parte do mesmo universo, é bom ressaltar), acabamos ficando insensíveis; uma história precisa transbordar de insanidade se quiser ao menos nos fazer cócegas.

Não é mais qualquer coisa que nos surpreende ou nos choca. Mas tem muita gente se esforçando para romper os limites da loucura a fim de nos fazer sentir qualquer coisa, nem que seja uma mistura de nojo com vontade de se transformar numa barata para não precisar mais lidar com essa realidade. O problema é que, atualmente, não foram os escritores que ficaram com esse papel de nos revirar a cabeça. Em matéria de absurdo, a política tem sido imbatível: todo dia um 7x1 da realidade em cima da ficção.