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Sociedade

Crônica do Villas

A viagem

por Alberto Villas publicado 04/12/2014 11h18
O pai, a mãe, os cinco filhos e a bicharada on the road
Alberto Villas - família

Três dos 5 filhos, nos primeiros dias de Brasília

Hoje fico aqui pensando como foi possível meu pai e minha mãe enfiarem cinco filhos dentro daquela Rural Willys e pegar a estrada de Belo Horizonte rumo a uma Brasília que nem existia ainda.

Falando assim, pode parecer fácil, cinco filhos atrás, o pai e a mãe na frente. Mas não eram cinco filhos pequenos, éramos já crescidinhos naqueles primeiros dias dos anos 1960 quando pegamos a estrada que era quase que uma reta só. Se fossem só os sete, até que dava pra entender, mas nós não éramos os únicos seres vivos dentro daquela Rural Willys.

No bagageiro, além das malas, sacolas e caixas de papelão, tinha ainda duas gaiolas de passarinhos, um caixote com um casal de pombos e um cachorro, o Tupi. Hoje fico aqui pensando onde minha estava com a cabeça quando permitiu que levássemos aquela bicharada de mudança pro planalto central do País, como se fosse uma Arca de Noé.

Numa gaiola, um pintagol que cantava feito um doido. Não tinha como se desfazer dele por nada nesse mundo. Na outra, um casal de periquitos australianos, o macho azul e a fêmea amarela. No caixote, duas pombas inteiramente branquinhas e o cachorro era marrom escuro, bem vira-lata. Mas como deixar Tupi pra trás e mudarmos pra Brasília, a exatos 777 quilômetros da nossa casa?

Acontece que não tínhamos 777 quilômetros pela frente, eram muito mais. No dia em que ponte entre Paracatu e Cristalina desabou, poucos dias antes de partirmos, o meu pai abriu um mapa da revista Quatro-Rodas em cima da mesa de jantar e começou a estudar o caminho que iríamos fazer. Não tínhamos como não ir. A obra do Serviço de Meteorologia o esperava e nossas escolas também. Muito bem.

Pegamos a estrada e nossa primeira pernoite foi no triângulo mineiro. Pra chegarmos até Uberlândia, foi uma aventura. Minha mãe não confiava muito em comida de beira de estrada e levava tudo de casa, dentro de dois enormes isopores que o meu pai comprou não sei onde, porque isopor era novidade naquela época.

Tinha de tudo. Sanduíche de mortadela, frutas, biscoito, pudim de pão com passas e, numas panelinhas de alumínio, comida mesmo. Arroz, feijão, verdura e bife. Não existia tupperware e minha mãe acondicionava tudo nessas marmitas. O meu pai providenciava o gelo para que nada azedasse. No outro isopor, umas garrafas de água mineral São Lourenço, de Crush e de Guaraná Champagne Antártica. Só eu gostava de Crush e meu pai sabia disso, por isso sempre tinha Crush na minha casa.

Quando a fome apertava, a gente parava no meio do caminho e meu pai, na maior cara de pau, pedia ao dono do restaurante para esquentar nossas marmitas. E eles esquentavam na boa. Comíamos ali mesmo na mesa do restaurante e quando terminávamos o meu pai ia lá e dava uma gorjeta pra cada funcionário do restaurante. Mas comer comida de estrada, a gente não comia. Hoje fico aqui pensando como passamos três dias e três noites dentro daquela Rural Willys até chegarmos à capital federal, que estava apenas engatinhando.

Os pombos arrulhavam, o pintagol cantava, os periquitos faziam uma barulheira infernal e o cachorro latia quando descia da Rural e encontrava outro vira-lata qualquer.

A segunda noite foi em Goiânia. Meu pai resolveu ficar num hotel bacana, o Presidente, mas ele não aceitava bicho. Deixamos as pombas e os passarinhos ali no bagageiro e o cachorro, embrulhamos numa toalha e conseguimos chegar com ele até o quarto, na maior clandestinidade.

Quando a camareira bateu na porta, escondemos Tupi dentro do guarda-roupa e, por muita sorte, ele não latiu, porque senão estaríamos fritos. Foram três longos dias.

Só o meu pai já tinha ido naquele fim de mundo e quando ele avistou a cidade lá longe, parou a Rural no acostamento, subiu numa pedra e deu um grito: Isso é Brasília! Minha mãe, que cochilava, abriu um dos olhos, deu uma espiada e perguntou: Onde? A cidade era apenas obra e muita poeira vermelha.

O meu pai, Juscelino roxo, era só entusiasmo. Quando ele entrou no bairro do Cruzeiro e estacionou o carro na porta de uma casa de madeira amarela, foi que soubemos que ali iríamos morar até que o Serviço de Meteorologia ficasse de pé. Logo arranjamos um cantinho pro Tupi, outro pro casal de pombos, perto da caixa d’água, e dependuramos as duas gaiolas na varanda.

Mas hoje eu fico aqui pensando que pai, que mãe, deixaria os filhos levarem um cachorro, um casal de pombos e duas gaiolas de passarinhos numa longa viagem rumo ao desconhecido?