Você está aqui: Página Inicial / Política / "A universidade não cria liberais", defende ex-professor de Harvard

Política

Educação

"A universidade não cria liberais", defende ex-professor de Harvard

por Gabriel Bonis publicado 14/05/2013 08h17
Em livro, Neil Gross analisa por que acadêmicos dos EUA são mais progressistas que outros setores da sociedade
Universidade da Columbia Britânica (Canadá)
download.jpg

"Pesquisas recentes sugerem que a universidade não cria liberais”, diz Neil Gross

Por razões históricas, o setor acadêmico do ensino superior dos Estados Unidos consolidou desde o início do século XX uma reputação de bastião do pensamento político de esquerda e liberal. Algo que, com o passar dos anos, levou os conservadores a tecerem críticas de que as universidades norte-americanas haviam se transformado em locais de doutrinação e silenciamento de vozes contrárias. “Por muito tempo, cientistas sociais acreditaram que a faculdade tornava os estudantes mais liberais. Mas pesquisas recentes sugerem que a universidade não cria liberais”, diz Neil Gross, ex-professor da conceituada Universidade de Harvard, nos EUA, a CartaCapital.

Atualmente lecionando Sociologia na Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, o professor analisou no livro Why Are Professors Liberal and Why Do Conservatives Care? (Por que os Professores são Liberais e Por que os Conservadores se importam?) (Harvard University Press, 400 págs., US$ 27,91) a reputação liberal da academia dos EUA. E conclui que o setor emprega uma proporção maior de liberais porque sua “imagem progressista” atrai mais estudantes liberais para a carreira. “A verdadeira razão pela qual não há muitos professores conservadores, ao menos nos EUA, é porque não existem muitos conservadores que vão para a universidade obter Ph.D.s.”

Na entrevista abaixo, Gross analisa o sistema universitário norte-americano, diz que as ciências aplicadas reúnem mais professores conservadores e critica docentes que exageram no uso de suas inclinações políticas nas salas de aula.

CartaCapital: De onde surgiu esse tema? É uma resposta ao livro The Professors: The 101 Most Dangerous Academics in America (Os Professores: Os 101 Acadêmicos Mais Perigosos nos Estados Unidos, em tradução livre), do conservador David Horowitz?

Neil Gross: Interessei-me pelo tema quando lecionava em Harvard, há sete anos. O livro de Horowitz acabara de ser lançado. Naquela época, também havia uma grande controvérsia em Harvard sobre alguns comentários do então presidente da instituição, Lawrence H. Summers [em 2005, ele sugeriu em uma conferência acadêmica, que “diferenças inatas” poderiam explicar por que havia menos mulheres bem sucedidas que homens em carreiras ligadas à ciência e matemática. Ele se demitiu e uma mulher assumiu o seu cargo]. Havia muita preocupação na universidade sobre esses comentários, muitas pessoas os consideravam políticos e não científicos. Era um momento de conflitos sobre política na educação superior. Tentei analisar o tema como sociólogo para entender qual era a política dos professores e por que eles eram o que eram nas universidades.

CC: Aproveitando a deixa do título do seu livro: Por que os professores são liberais e por que os conservadores se importam?

NG: Algumas das teorias mais famosas sobre o tema não têm muita força explicatória como é possível imaginar. O fato de que os professores possuem um nível educacional elevado e que a educação parece inclinar as tendências políticas pessoais mais para a esquerda não explica muito. Outro argumento tem a ver com a autosseleção. A verdadeira razão pela qual não há muitos professores conservadores, ao menos nos EUA, é porque não existem muitos conservadores que vão para a universidade obter Ph.D.s Mas por quê isso ocorre? Há uma relação com o que é chamado de “inclinação política” de ocupação. Ao longo do tempo, algumas profissões ganharam uma reputação pela política típica de seus membros. E durante o século XX, a academia dos EUA construiu uma imagem liberal. Essa reputação interessa mais a estudantes liberais que podem considerar essa carreira, enquanto essa opção, em geral, não atrai um aluno conservador. Neste sentido, a inclinação à esquerda dos professores se tornou um fenômeno autoproduzido. Há uma reputação de que eles são mais liberais, o que leva estudantes liberais a querer se tornar professores, reforçando essa imagem.

CC: Na campanha presidencial dos EUA no ano passado, o candidato republicano Rick Santorum chamou Barack Obama de “esnobe” por defender que todos os americanos fossem para a universidade. Para ele, há “bons homens e mulheres” que realizam suas tarefas diárias sem precisar de “um professor liberal que os doutrine”. O ensino superior cria, de fato, liberais?

NG: Por muito tempo, cientistas sociais acreditaram que ir à faculdade tornava os estudantes mais liberais. Recentemente, as pesquisas sugerem que essas estimativas foram supervalorizadas. Há algumas evidências de que quando as pessoas cursam o ensino superior, suas visões mudam para uma direção mais progressista. Elas tendem a ficar mais tolerantes a problemas sociais, por exemplo. Por outro lado, pesquisas mais profundas que analisam a população jovem como um todo, incluindo os que vão à universidade e os que não vão, indicam que essa concepção foi superestimada. Pessoas com ensino superior completo tendem a ser mais liberais, mas grande parte disso se explica pelo fato de que indivíduos mais liberais no ensino médio têm mais chances de completar a educação superior. Não há evidência concreta de que as pessoas se tornem muito mais liberais na faculdade.

CC: Muitos acadêmicos nos EUA votam no partido Democrata, mas pontuam que o partido não é tão liberal assim. Eles enxergam o partido como liberal?

NG: Os Democratas têm grande apoio dos professores, mas a natureza dele varia conforme os pontos de vista dos acadêmicos. Se analisarmos os números da eleição presidencial ou para quem os professores doam dinheiro nas campanhas políticas, eles fazem isso muito mais em favor dos democratas. Ao falar com acadêmicos progressistas, eles tipicamente votam nos democratas nas eleições nacionais, mas sentem com frequência que o partido é muito central e não reflete seus interesses. Já os acadêmicos de centro-esquerda podem achar que os democratas os representam de forma eficiente. Muitos acadêmicos, no entanto, prefeririam votar em candidatos mais a esquerda se essa fosse uma opção viável no sistema eleitoral dos EUA.

CC: Há áreas de ensino mais propícias para professores conservadores, como administração, engenharia e economia?

NG: Há variações substanciais nos posicionamentos políticos conforme as disciplinas ensinadas. Na minha pesquisa, e em diversos outros levantamentos, as Ciências Sociais aparecem como área mais ligada à esquerda. Economia é uma exceção. Conforme se analisa áreas de ciência mais aplicada, como engenharia e negócios, tende-se a encontrar mais conservadores.

CC: O que explica essas variações? Seria por que nestas áreas de ensino os professores não precisam demonstrar suas posições políticas?

NG: As Ciências Naturais não são tão liberais quanto as Ciências Sociais. Ainda assim os professores de naturais são mais liberais que a população em geral. E por que há uma diferenciação entre campos? Fundamentalmente, isto está relacionado às conexões entre as disciplinas e outras áreas da sociedade. As disciplinas mais ligadas aos setores conservadores da sociedade tendem a reunir um elenco mais conservador. As mais ligadas a questões sociais e artes atraem mais liberais.

CC: Na introdução do seu livro, o senhor cita o caso de uma professora que leva convicções políticas próprias para a sala de aula na universidade. Um comportamento criticado e chamado de enviesado por conservadores. O senhor acredita que o ensino superior “direcionado”, seja para a esquerda ou à direita, é um problema nos EUA e no mundo?

NG: A educação superior é uma empresa muito diversa. O que é apropriado em uma área pode não ser em outra. Há muitas instâncias nas quais os professores falarem de suas concepções políticas em aulas é algo proveitoso. Em algumas ocasiões, isso pode levar ao pensamento crítico. Mas o ensino superior dos EUA tem um problema de percepção. Os conservadores acreditam que o ensino superior está em crise, que não ensina o que deveria e que a pesquisa é ideológica. Isso é algo falso, mas não temos sido convincentes em persuadir os críticos. Uma preocupação de ensinar com influência política é que se cria a impressão de doutrinamento, mesmo que isso não esteja ocorrendo. Muitos professores levam muito a sério a tentativa de não doutrinar os seus alunos, mas apenas ensinar os conceitos de suas áreas.

CC: Mas é possível ser tão objetivo? Ao indicar uma leitura aos alunos o professor será subjetivo e considerará, mesmo que subliminarmente, suas próprias visões políticas?

NG: Depende do campo. Se você ensina microbiologia, não há como suas concepções políticas interferirem no conteúdo das aulas. Já nas ciências sociais e humanas, é inevitável que as visões pessoais afetem o que é ensinado e moldem a informação.

CC: Em seu livro, o senhor diz que a ânsia dos conservadores em atacar os liberais no mundo acadêmico é uma hipocrisia. Podemos dizer isso porque eles também colocam suas tendências políticas em suas aulas?

NG: Certamente há lugares na educação superior onde os conservadores podem ensinar ideias que consideram importantes. Há universidades e campos de estudo assim. Mas existem muitos tipos de conservadores e de críticos. Da forma como veem, a educação superior é comandada por pessoas de esquerda, o que eles acham injusto. Se alguém estivesse ensinando visões políticas diferentes das suas, você obviamente ficaria chateado, mas isso não explica todos os aspectos dos ataques.

CC: Esses ataques refletem algo do Macarthismo, quando as pessoas de esquerda nos EUA eram vistas como comunistas e consideradas traidoras?

NG: Há esse aspecto da história. No tempo do Macarthismo, esse viés era usado não só contra professores, mas funcionários do governo e atores de Hollywood. Ainda existe alguma influencia do conceito. Ao olhar as ondas de oposição a professores liberais ao longo do tempo, algumas estão no período do Macarthismo. Mas houve outras nos anos 1980 e 1990 e também após os atentados de 11 de setembro de 2001.

CC: Os professores do ensino superior são, de fato, mais liberais ou esse posicionamento está mais relacionado a concepções de vida pessoais?

NG: Isso pode variar conforme o país. Nos EUA, profissionais altamente qualificados tendem a ser mais liberais e democratas. Os professores, no entanto, tendem a ser mais democratas e mais liberais que esses profissionais. A razão para isso que é os liberais são mais propensos a se tornarem professores. Ser professor não faz de alguém um liberal.

registrado em: