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A China, a agropecuária e o pessimismo

por Rui Daher publicado 08/07/2016 03h59
Em 2015, vivíamos uma fase de pessimismo e estagnação, direcionada à troca de governo. Mesmo quem andava bem colocava pedras no caminho
Wilson Dias/Agência Brasil/Fotos Públicas
O ministro interino das Relações Exteriores José Serra

Ministro interino das Relações Exteriores, José Serra pretende "dar ênfase" à demanda de alimentos para a China

Em declaração bombástica para o jornal Valor Econômico no último dia 5, o ministro interino das Relações Exteriores, José Serra, diz: “A China deslocou a curva de demanda por alimentos para cima. Vamos dar ênfase para isso”.

Percebo a comunidade internacional atônita. Nem mesmo me refiro aos analistas, estudiosos, pesquisadores, por certo distraídos, e enfim alertados.

Andanças no sítio do senhor Tadashi Maemura, em Piedade (SP), levam-me a delicioso yakissoba, equilibrado saquê e sua alegria em saber que sua produtiva plantação de cebolas irá contribuir com o chop-suey chinês.

Lamentou apenas o preço do produto no mercado interno ter feito, há alguns anos, ele reduzir a área para plantar alcachofras. Ouviu do trader: “Ótimo! Sem problema, compram muito para uso medicinal”.

Aí, não mais como andança, mas “sentança” de leitura, no Blog do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA), Mr. Sinclair “Blind Lemmon” Leighton, morador de Arcadia, Flórida, guitarrista de blues, pergunta se deve ampliar o investimento na produção de laranjas. Lera que na província de Jiangxi, região da China produtora de citros, a área estava caindo por causa do greening.

Dou o desconto. Como o ministro poderia saber disso se passou os últimos 20 anos conspirando para ser presidente da República, e sem entender “poisa” nenhuma de diplomacia comercial ou agropecuária?

Sinto-me tranquilo com os acontecimentos políticos do País. Nunca duvidei de que voltariam. Nossa preocupação distributiva até durou muito. Apenas fico perplexo, ma anche divertente, com notícias, digressões profundas, discussões tópicas e histéricas em folhas, telas e redes sociais cotidianas.

Antes de ir para o agro, permitam-me um tequinho a mais.

A colunista do Valor, Rosângela Bittar, em sua coluna do último dia 6, diz que Michel Temer, em dois meses de interinidade, “conseguiu muito”. Segundo ela, sua primeira conquista foi “estabelecer uma base mais fiel no Congresso”. Ué, mas de onde saiu o golpe se não naquela votação “pela-minha-pátria-meu netinho-e-as-fezes-que-expilo-diariamente”? Infidelidade só se fosse a do marido da vizinha.

E a jornalista segue louvando uma série de intenções fiscais, que de Joaquim Levy não puderam ser, mas de Henrique Meirelles podem, garantidas pelos R$ 50 bilhões marotos adicionados ao rombo.

Finalmente, o agro. Do alto e com a lupa. Como a crise tem afetado nossos caboclos, campesinos, sertanejos e ruralistas?

Em 15 de janeiro, a chamada da coluna era: “Os resultados do agro, em 2016, podem quebrar a cara dos pessimistas”.

Sim, vivíamos uma fase de pessimismo e estagnação, direcionada à troca de governo, e mesmo quem andava bem davam um jeito de colocar pedras no caminho.

Uma montanha rochosa se antepunha ao futuro da agropecuária. Preços das commodities, custos dos insumos importados, insegurança jurídica e, mais uma vez, a China que iria parar.

Antes disso, durante 2015, várias vezes alertei para que a queda drástica nas cotações internacionais das commodities agrícolas era conjuntural, e logo começaria moderada recuperação. Era absurdo compará-las aos picos de 2011 a 2013.

Fato é que em junho deste ano, segundo cálculo mensal da FAO, em relação ao início de 2016, chamado “fundo do poço”, houve recuperação de 10% no índice geral e, especificamente, nos óleos vegetais (soja), de 16,5%. Também subiram milho, trigo, açúcar, café, cacau, algodão e suco de laranja.

Quer dizer consumo se recuperando diante de oferta e estoques finais. Para a FAO, se houver choque, será de alta. Estudos de longo prazo realizados pelo órgão da ONU para agricultura e alimentação e pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) concluem que “o Brasil tende a ganhar ainda mais participação em alguns de seus principais mercados”.

Ah, bem, isso visto assim do alto. E com a lupa?

O general da reserva Sebastião Roberto Peternelli Júnior, apoiador expresso do golpe civil-militar de 1964, indicado pelo Partido Social Cristão (PSC) para presidir a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), depois de nossa gritaria teve seu nome afastado para o cargo.

É o que deveremos continuar fazendo. Lupa sobre eles.