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Extremismo de direita ameaça futebol alemão

por Deutsche Welle publicado 12/02/2013 10h53, última modificação 06/06/2015 18h25
Grupos xenófobos são minoria, mas ganham espaço nas torcidas organizadas de forma silenciosa

Os Aachen Ultras (ACU) sempre se consideraram uma torcida organizada politizada e antirracista. Um grupo que sempre declarou seu amor pelo Alemannia Aachen e também se engajou na luta contra o racismo, o antissemitismo e a homofobia. Isso não agradou alguns torcedores, especialmente a Karlsbande, a "gangue de Karl", uma torcida organizada mais radical e que se descreve como apolítica. Por "apolítica" entenda-se que a Karlsbande está aberta a todos que torcem para o Alemannia, até mesmo neonazistas e bandidos.

 

Nesse contexto, os Aachen Ultras não eram vistos como defensores dos valores democráticos, mas tidos como extremistas de esquerda e provocadores. Eles foram intimidados por causa de sua postura política, ameaçados, atacados. No estádio e também fora dele, por meses a fio.

A diretoria do Alemannia Aachen, um clube empobrecido que disputa a terceira divisão, sempre negou apoio à causa do ACU. Por fim, determinou sanções contra a Karlsbande, mas não as implementou de forma permanente. Algumas semanas atrás, os Aachen Ultras desistiram. "Não vemos perspectiva alguma em continuar lutando no estádio contra uma estrutura de torcidas de tendência direitista", diz um membro da torcida que deseja permanecer anônimo.

A situação é inédita no futebol alemão. "É triste e chocante que um grupo de jovens dedicados à luta contra a discriminação seja abandonado de tal forma por seu próprio clube e que, decepcionados, decidam parar suas atividades", comenta Patrick Gorschlüter, porta-voz da Aliança de Torcedores Ativos (Baff, na sigla alemã), que luta contra a discriminação há quase 20 anos.

Gorschlüter observa que os extremistas de direita têm se tornado mais agressivos nos últimos tempos. Em Dortmund, torcedores mostraram, com uma grande faixa, sua solidariedade a um grupo neonazista proibido. Em Braunschweig, um grupo antirracista publicou um prospecto comprovando a ligação entre neonazistas e torcedores do time líder da segunda divisão do futebol alemão, o Eintracht. Casos de discriminação foram relatados também em Düsseldorf, Duisburg, Dresden e Kaiserslautern. Em toda parte, o que acontece é que uma minoria enfraquece a maioria.

De acordo com o pesquisador Wilhelm Heitmeyer, padrões depreciativos como racismo, sexismo ou homofobia estão profundamente enraizados na sociedade alemã. Segundo ele, quase 50% da população acredita haver estrangeiros demais vivendo na Alemanha.

"O estádio é o único lugar em que este padrão de depreciação alcança um grande público, sem penalidades", diz Heitmeyer. O culto da masculinidade, a mobilização das massas em um espaço confinado, emoções, patriotismo local e álcool fazem ressentimentos aflorar com mais facilidade no ambiente futebolístico. "Há um esquema amigo-inimigo", argumenta Heitmeyer. "Os torcedores querem delimitar espaço em relação a seus adversários e enfraquecer seus oponentes, também pela discriminação." Esse clima é propício para os ativistas de extrema direita, conclui.

 

Disputas políticas

Diferentemente da década de 80 e 90, neonazistas não vão aos estádios empunhando bandeiras e símbolos nazistas, como resultado de padrões modernos de segurança e do trabalho profissional dos clubes com os torcedores. Em vez disso, os extremistas usam códigos e se mantêm discretos. Eles são ativos em bares, trens com torcedores, fóruns de internet. Para muitos meios de comunicação, essa conduta desperta pouco interesse, pois não produz imagens espetaculares para a televisão, com fogos de artifício ou torcedores provocando tumultos.

A consequência é uma percepção distorcida da realidade, de acordo com o cientista social e pesquisador de torcidas Gerd Dembowski, da Universidade de Hannover. "No debate atual sobre segurança no futebol, neonazismo e racismo são apenas uma nota de rodapé, sempre associados à violência e à pirotecnica."

Torcedores alemães organizaram muitos protestos contra as novas medidas de segurança nos estádios impostas pela Federação Alemã de Futebol (DFB) e da Liga Alemã de Futebol (DFL). Segundo o blog alemão publikative.org, especializado em notícias sobre discriminação e neonazismo, também grupos extremistas das cidades de Chemnitz, Halle e Colônia tiveram participação nos protestos para que o número de manifestantes fosse o maior possível.

Dembowski afirma que, assim, grupos antirracistas podem estar perdendo influência junto aos torcedores. Muitos desses grupos se afastaram dos grandes movimentos, muitas vezes por causa de desavenças políticas. Resta saber se, nesta atmosfera carregada, os velhos hooligans de direita voltarão à cena, como o Borussenfront, de Dortmund, ou o Standarte, de Bremen.

Pouco dinheiro para prevenção

Heitmeyer salienta que o extremismo de direita está em constante transformação. Quando estruturas fixas, como o Partido Livre dos Trabalhadores Alemães (FAP), foram proibidas, os neonazistas passaram a se organizar em estruturas menos rígidas, em associações ou em grupos definidos como "nacionalistas autônomos". Mas qual é o papel do futebol nisso tudo?

"Temos que fortalecer as torcidas organizadas que lutam contra a discriminação nos estádios de futebol", opina Michael Gabriel, diretor do Centro de Coordenação de Projetos para Torcidas. Assistentes sociais cuidam de torcedores em mais de 50 entidades dedicadas a jovens, mas o trabalho de prevenção contra o extremismo de direita progride com dificuldade, por causa de falta de financiamento para boa parte dos projetos.

Os Aachen Ultras se despediram das arquibancadas na partida entre o Alemannia e o Viktoria de Colônia. Quase 300 torcedores contrários aos racismo, vindos de toda a Alemanha, estiveram no estádio para mostrar sua solidariedade. Os membros dos Aachen Ultras vão continuar lutando contra discriminação, porém não mais dentro dos estádios. Pelo menos por enquanto.

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