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Está na hora de o futebol europeu enfrentar os racistas

por The Observer — publicado 13/06/2012 10h45, última modificação 13/06/2012 10h45
Os comentários do presidente da Uefa, Michel Platini, sobre a sugestão de Mario Balotelli de que sairia de campo se fosse submetido a agressões racistas foram impensados
Oxlade

O meia inglês Oxlade-Chamberlain disputa bola com o lateral francês Debuchy, na estreia das duas seleções da Euro. Foto: Frank Fife / AFP

Em junho de 1984, depois de não conseguir se classificar para o Campeonato Europeu daquele ano, a equipe de futebol da Inglaterra voltava de uma partida amistosa contra o Brasil. No voo para casa naquele dia estava o jovem lateral Mark Chamberlain, que pouco antes havia se tornado o segundo jogador negro a marcar um gol pela Inglaterra. Também ia no avião um grupo de torcedores ingleses ligados à Frente Nacional, que passaram grande parte da viagem provocando Chamberlain, John Barnes e Viv Anderson, os três jogadores negros da seleção inglesa. Os torcedores manifestaram a opinião de que a Inglaterra na verdade tinha ganhado o jogo contra o Brasil por 1 a 0, e não 2 a 0, porque o gol maravilhoso marcado por John Barnes no Maracanã não contava, devido à cor de sua pele.

Embora com apenas 22 anos, Chamberlain, como Barnes e Anderson, estava quase acostumado a esse tipo de agressão em uma carreira profissional que começou aos 16 anos, em Port Vale, onde seu treinador o havia apresentado como "parece uma gazela... nossa joia negra". Em muitas tardes de sábado por todo o país, Chamberlain posteriormente fora obrigado a escutar torcedores – a maioria do time adversário, mas às vezes do seu próprio – fazerem sons de macaco e atirarem bananas.

A carreira de Mark Chamberlain nunca o levou às alturas que sua capacidade e seu ritmo mereciam, mas uma das coisas de que ele certamente se orgulha – assistir a seu filho, Alex Oxlade-Chamberlain, competir com seus intrépidos 18 anos pela camisa da Inglaterra que ele já vestiu – é que as pressões que seu filho enfrenta semanalmente não têm nada a ver com sua raça. O futebol inglês percorreu um longo caminho desde que o então treinador nacional, sir Bobby Robson, podia ouvir em uma entrevista coletiva a pergunta de se aprovaria um time de 11 jogadores não brancos. "Se os 11 melhores jogadores do país fossem negros, essa seria a minha seleção inglesa", disse Robson, o que alguns consideraram um comentário polêmico.

O fato de que é impossível imaginar um jornalista fazendo essa pergunta hoje, assim como é impossível imaginar que uma agressão racista declarada contra jogadores da Primeira Liga passe impune, é motivo de comemoração. As controvérsias importantes desta temporada em torno dos comentários racistas de Luis Suárez, do Liverpool, para Patrice Evra, do Manchester United, e as supostas declarações de John Terry, que ele nega, mostram que a questão não desapareceu. Mas a seriedade com que essas alegações foram tratadas deve ser aplaudida.

O esporte, costuma-se dizer, simplesmente reflete a sociedade. Mas de muitas maneiras o futebol inglês, com sua frente unida contra o preconceito racial no nível mais alto do jogo, em particular através da campanha "Kick it Out!", está na vanguarda de nossa sociedade cada vez menos racista. É a prova do que uma cultura de tolerância zero e a existência de uma massa crítica de modelos positivos podem conquistar. Embora o racismo obviamente ainda esteja presente na sociedade britânica, e mesmo no futebol, onde salas de diretoria e escritórios de treinadores ainda não refletem a diversidade da população nacional, houve avanços.

O resultado disso é que o precocemente talentoso Oxlade-Chamberlain nunca teve de jogar em um estádio em que fosse remotamente aceitável o tipo de agressão que seu pai teve de sofrer.

Oxlade-Chamberlain esteve entre os 11 iniciais de Roy Hodgson, não na frente de seu pai, Mark, que ouviu o conselho do Ministério das Relações Exteriores sobre o tema e não visitará um país em que "viajantes de origem asiática ou afro-caribenha e indivíduos pertencentes a minorias religiosas devem tomar um cuidado especial". As famílias dos jogadores ingleses Theo Walcott e Joleon Lescott, também negros, não estarão lá pelo mesmo motivo.

A reputação de intolerância da Ucrânia não se restringe aos torcedores de futebol; deve-se esperar também que nenhum ministro do governo britânico assista ao torneio e se possa pensar que apoia um regime acusado de uma série de abusos aos direitos humanos, incluindo a prisão da líder de oposição e ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko.

Os méritos de se realizar um evento esportivo em países com tal histórico são discutíveis, e as mesmas questões retornarão na Copa do Mundo de 2018, na Rússia de Vladimir Putin. Os argumentos a favor devem certamente incluir a esperança de que maior liberdade e tolerância sejam promovidas por exemplo. As intervenções de Michel Platini, presidente da Uefa e presidente eleito da Fifa, de certa forma deixaram de dar esse exemplo na semana passada.

Respondendo à sugestão do astro italiano Mario Balotelli, do Manchester City, de que deixaria o campo se fosse agredido racialmente por torcedores ou jogadores, os comentários de Platini foram impensados e frágeis. O ex-capitão francês sugeriu que esse ato resultaria apenas em medidas disciplinares contra o jogador, sem aproveitar a oportunidade de enfatizar que a agressão racista seria tratada nos termos mais sérios. Platini, já seguindo a trilha de seu mentor, o antediluviano presidente da Fifa Sepp Blatter, tentou evitar qualquer controvérsia afastando-se da responsabilidade pelo assunto.

"Não acho que exista mais racismo na Polônia e na Ucrânia do que na França ou em qualquer outro lugar, mesmo na Inglaterra", ele disse. "Não é um problema do futebol. É um problema da sociedade. Nós apenas tentamos regular os problemas do futebol."

Platini deveria saber melhor, no mínimo porque as grandes equipes francesas que se seguiram à sua própria geração foram exemplos poderosos de união e símbolos de uma nova aceitação da diversidade em seu país. Quando Jean Marie Le Pen desprezou a equipe vencedora da Copa do Mundo de Zinedine Zidane e Marcel Desailly como cheia de "jogadores estrangeiros" e "falsos franceses", o líder da Frente Nacional conseguiu apenas unir a maior parte do país contra si mesmo, e a equipe de futebol tornou-se uma causa incontestável para o sentimento antirracista.

Embora ninguém espere que os órgãos internacionais de futebol gerem coesão social da noite para o dia, fingir não ver, por exemplo, a agressão racial a jogadores holandeses que treinavam na Polônia antes do início da Euro é outro previsível gol contra. Como provou a própria Associação do Futebol da Inglaterra, e as nações unidas que é a Premier League, o campeonato inglês de futebol, com decisão e sanções aplicáveis é possível modificar as culturas. Ouvimos a elite global do futebol falar muito sobre seu grande poder de unir os povos; nas próximas semanas o esporte deve cumprir sua promessa.

* Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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