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Análise

Donald Trump, Brexit e a maioria silenciosa

por Mauricio Moraes publicado 09/11/2016 14h53
O público que tinha vergonha de dizer que votaria no magnata republicano foi para as urnas. E venceu
RHONA WISE / AFP
Eleição de Donald Trump

A vitória de Trump nos EUA, assim como o Brexit no Reino Unido, o rechaço da paz na Colômbia ou o apoio popular ao golpe no Brasil mostram o triunfo da insensatez

Em junho de 2016 eu estava em Londres durante o referendo do Brexit, sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. Na véspera da votação, até havia um medinho de que os eleitores mais conservadores detonassem o que esperávamos ser um apocalipse nas ilhas britânicas.

Mas havia a quase certeza de que o bom senso triunfaria e que, seguindo o que diziam as pesquisas de opinião, o Reino Unido não pediria o divórcio com a Europa. Mas uma maioria silenciosa, que tinha vergonha de dizer que votaria pela saída do bloco, lacrou o destino do país. Ganhou o Brexit.

Contrariando a lógica econômica e política, e levados por uma propaganda calcada em mentiras e na aversão aos imigrantes, o país cedeu a uma opinião pública pautada pelo ódio das redes sociais.

Cinco meses após o resultado, o Reino Unido caminha perdido nas trilhas do Brexit, sem a certeza de que isso realmente ocorrerá, enquanto empresas deixam Londres para outras cidades da Europa, levando os empregos e anunciando uma recessão no país.

No Brasil, tão logo Dilma Rousseff foi reeleita, a oposição apostou em cheio na desestabilização de seu governo. Primeiro pediu recontagem de votos e, antes mesmo de Dilma tomar a segunda posse, já se falava em seu impeachment (que então parecia uma miragem).

A tempestade perfeita que derrubou a presidente reuniu uma recessão econômica, uma base parlamentar desarranjada, um Judiciário ativista e uma mídia que escolheu lado no debate político.

Mas nada seria possível se não fosse a “opinião pública”, que por aqui foi igualmente pautada pelo ódio na internet, ganhando depois as ruas. Um adesivo que mostrava Dilma de pernas abertas, colado na entrada da gasolina nos carros, foi a ilustração perfeita do machismo escancarado que ganhou aplauso, assim como o discurso racista, homofóbico e contra nordestinos.

Sem entrar no mérito sobre se houve orquestração ou lavagem cerebral nas manifestações verde-amarelas, o certo é que o povo comprou o argumento de que era preciso remover Dilma de qualquer jeito, mesmo que fosse preciso romper a Constituição. Mais uma vez contrariou-se a lógica econômica e política. E fez o golpeachment.

E o que dizer dos colombianos que rechaçaram um plano de paz para por fim a uma guerra civil com as Farc que já dura mais de 50 anos? Como explicar que um povo escolheu continuar fazendo guerra? Lá, como cá e acolá, o resultado da história foi construído com mentiras de toda a sorte em uma campanha grotesca.

Por isso, a eleição de Trump não surpreende e já era de se esperar. A maioria silenciosa que tinha vergonha de dizer que votaria no magnata republicano foi para as urnas. Simples assim. Aliás, nos outros lugares ao menos se votou. No Brasil, se usurpou o poder sob o pretenso apoio popular em um processo contestado por parte expressiva da sociedade.

O mundo não vai acabar com Trump. Populistas como o novo presidente americano, uma vez no poder, não farão tudo o que prometeram. O problema, então, não é a construção de um muro na fronteira com o México (o que nunca vai acontecer).

O estrago de Trump já está feito. Ele destapou o caldeirão de ódio do cidadão comum, que agora se sente respaldo a destilar seu preconceito seja contra latinos, negros, LGBTs e imigrantes. Nada diferente do fenômeno Jair Bolsonaro no Brasil ou de qualquer populista de ultradireita da safra atual.

A vitória de Trump nos EUA, assim como o Brexit no Reino Unido, o rechaço da paz na Colômbia ou o apoio popular ao golpeachment no Brasil mostram o triunfo da insensatez. Será difícil a tarefa de entender, no meio da tormenta, o que nos empurrou para isso. Muita história será contada sobre 2016.

Se servir de consolo, a única certeza é a de que não estamos sozinhos. Os brasileiros, britânicos, colombianos e americanos já sentimos o gostinho do que é viver o velho novo mundo.

E vem mais por aí.

Em 2017 tem eleição na França com Marine le Pen e na Alemanha com a novata Frauke Petry. Desta última ainda vamos ouvir muito falar.