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Últimos artigos de Cultura

Fernando Faro revolucionou a televisão com música

Divino maravilhoso

#10

#10

Será que um dia a profecia daquela cigana vai se concretizar?

É doce morrer no mar

“A menina parece um palmito!”, exclama o espectador adolescente no escurinho do cinema, diante da primeira aparição de uma personagem ruiva, muito pálida, no filme brasileiro O Escaravelho do Diabo, de Carlo Milani. Não parece uma frase que ouviríamos num cinema da região central de São Paulo. De fato, estamos a mais de 20 quilômetros da Praça da Sé, na Vila Císper, bairro de origem operária (Císper vem de Companhia Industrial São Paulo e Rio) situado no distrito de Ermelino Matarazzo, na zona leste da capital paulista, à beira do Parque Ecológico do Tietê, perto da divisa com o município de Guarulhos. Neste dia 20 de abril de 2016, entra em funcionamento com gala a primeira sala de cinema do CEU (Centro Educacional Unificado) Quinta do Sol, unidade municipal de ensino inaugurada em abril de 2008. Na sessão inaugural, um público ruidoso de adolescentes e crianças tem direito a piano, pipoca, sanduíche, refrigerante, música de Luiz Gonzaga cantada e tocada ao vivo, filme de detetive inspirado na literatura infanto-juvenil de Lúcia Machado de Almeida, projeção de primeira, som excelente e discursos de autoridades. “Quem vem ao cinema não quer blábláblá”, tenta contemporizar Maria do Rosário Ramalho, secretária municipal de Cultura da gestão Fernando Haddad (hoje o prefeito não está presente, nem o secretário de Educação, Gabriel Chalita). “Então vai logo”, reage, sem cerimônia, uma adolescente na plateia. O espaço segue a vocação dos CEUs e não se destina exclusivamente ao cinema. Como explica o gestor da unidade, o alagoano radicado paulistano Uoston Barros de Sá, há pouco tempo esteve fazendo show aqui a cantora e compositora paulistana Maria Gadú. Uoston se emociona quando conta que Gadú, ao chegar e encontrar mais de mil candidatos a espectadores esperando pelas cerca de 400 vagas no teatro-cinema-etc., decidiu fazer duas sessões em vez de uma, sem modificar o valor do cachê combinado. A inauguração da sala de exibição no Quinta do Sol se deve à ação da Spcine, escritório municipal de desenvolvimento, financiamento e implementação de programas e políticas para cinema, TV, games e web. A empresa, vinculada à Secretaria Municipal de Cultura, pretende instalar 20 salas como essa pelas periferias da cidade até o final de maio. A sala do Quinta do Sol é a quarta a ser inaugurada, após as dos CEUs de Jaçanã, Heliópolis e Butantã. As sessões do circuito, gratuitas e abertas a quaisquer espectadores, acontecem às quartas-feiras, quintas-feiras e domingos. O diretor-presidente da Spcine, Alfredo Manevy, busca um diálogo mais próximo e direto com a plateia. Pergunta quem aqui costuma ir ao cinema em shopping center. Muitos levantam a mão. Pergunta quem vai ao shopping mais de duas vezes por ano. Menos adolescentes levantam a mão. Pergunta quem quer ter cinema perto de casa. Praticamente todo mundo levanta a mão. Manevy arranca aplausos da juventude quando menciona que o Quinta do Sol projetará, em breve, um filme da moda em que dois famosos super-heróis norte-americanos contracenam. E chega quase de imediato à mensagem central do discurso: “O que quero pedir para vocês, em nome da Prefeitura e da Spcine, é que cuidem da sala, espalhem a notícia, falem para seus pais, primos e amigos que a gente tem uma sala de cinema aqui no CEU Quinta do Sol e que esse cinema é gratuito, para todas as pessoas, idades e gostos. Cuidem bastante da sala, divulguem, participem”. Em conversa com a reportagem, Manevy traça os objetivos fundamentais do circuito SP Cine nas periferias. “São Paulo tem no mínimo 30% das pessoas de baixa renda na população, um apartheid óbvio num grande polo econômico e cultural, que se orgulha de ser cosmopolita. A ideia do projeto é criar um circuito público de salas, para primeiro incluir as pessoas na experiência de ir ao cinema. Todo mundo aqui já viu filme: na TV, no celular, na internet. Mas a experiência da sala escura, da convivência social num espaço fechado com uma tela grande, provavelmente não tiveram ou tiveram poucas vezes.” O segundo ponto explica, em parte, o painel de primeiros cartazes no Quinta do Sol, com desenho e aventura norte-americanos, O Escaravelho do Diabo e a condensação cinematográfica da telenovela bíblica Os Dez Mandamentos, da TV Record (em contraste com os 15% destinados pelo mercado comercial ao cinema nacional, o Circuito SP Cine destinará no mínimo 40% da programação para filmes brasileiros): “O segundo objetivo é gerar tela para uma programação de qualidade que o circuito comercial não oferece, uma programação mais equilibrada. Temos que trazer algumas coisas que estão no imaginário, que são as mais demandadas num primeiro momento, mas colocando, por exemplo, O Escaravelho do Diabo, que é nacional, ou Sinfonia da Metrópole, da Juliana Rojas, um filme independente autoral radical. A gente tem que tem que ter uma inteligência de programação”. Manevy provoca o senso comum de quem está habituado a olhar a cultura sempre a partir do centro: “Um terceiro objetivo é lidar com a demanda de uma elite cultural da periferia, que é poderosíssima, responsável por uma produção cultural top hoje, com hip-hop, saraus… Eles querem Andrei Tarkovsky, David Lynch, mas temos que calibrar, trabalhar muito com público infantil, ampliar repertório”. Na linha de oferecer melhores opções para camadas sociais geralmente relegadas a planos subalternos, o gestor público ressalta o cuidado de levar às periferias uma agenda sincronizada com as do dito centro. “Queremos trabalhar sempre com lançamentos, para não dar ideia de que o cinema deles é de catálogo, de filmes antigos, o que seria uma maneira de dizer que é B, de segunda linha. O menino de comunidade tem de poder dizer que tem aqui na comunidade o filme que o garoto de classe média tem no shopping.” Na sala de exibição, o público ruidoso se comporta de modo irreverente, mas nunca de ouvidos fechados para os sons ao redor. Faz-se um silêncio quase completo quando, em seu discurso, a coordenadora de difusão da Spcine, Ana Louback, sugere que quem que já leu o livro assista ao Escaravelho pensando em como o cineasta fez a transposição da forma escrita para a audiovisual, porque “talvez um dia vocês estejam aqui contando as histórias de vocês numa tela de[+]  Também já escrevemos sobre:    O que é a música sertaneja, segundo a academia   2 de outubro de 2015     Por que o sertanejo é tão repelido pela sociedade   6 de outubro de 2015     A nova cara do gospel   6 de outubro de 2015     Existe cultura em SP?   20 de dezembro de 2013

Cinema na Quinta do Sol

#9

#9

Em décima edição, festival reúne 500 artistas 
por dez espaços na capital baiana

A alegria do recomeço

O corpo nu incomoda também por se mostrar exposto, vulnerável. Nos tempos atuais, quem consegue suportar tanta vulnerabilidade?

O corpo nu

Em sua septuagésima peça, o norte-americano Bob Wilson dramatiza a alegria e a tragédia de Garrincha

Balé das pernas tortas

Um século após a primeira gravação oficial, o estilo cresce até pelo WhatsApp

O samba se reinventa

Nesses tempos modernos, andamos muito impacientes

Paciência de Jó

Comemoração dos 400 anos da morte de Shakespeare importa talentos em campanha promovida pelo governo britânico

O bardo em campanha

#8

#8

Tira a Bela e pode ir para o mundo. Nos realities, eu não lembro de ver negros no júri e não lembro de algum ter saído vencedor.

Ainda o preconceito

Japan Fest de Marília chega à sua 14ª edição em busca da renovação, sem perder a tradição marcante da cultural oriental Mario-san surge saltitando e balançando suavemente seus braços largos, trajando um happi, uma vestimenta vermelha e preta, após o término da apresentação da Orquestra Marília Nikkey Gakudan. Jovens iniciam uma roda ao seu redor. São coreografias simples baseadas em repetições. Logo a roda vira uma espiral e poucos parecem prestar atenção no líder. Os movimentos seguem uniformes e contagiantes. A música tocada por um DJ é o J-pop, que ganhou esse nome no fim dos anos 1990 para caracterizar as bandas japonesas que tocavam pop music. Só que para a coreografia dos jovens de Marília as canções são executadas num ritmo mais acelerado, com batidas que lembram, vagamente, o funk, o rap ou o rock. É uma típica dança de festival, que em japonês se traduz como matsuri dance. Mas, apesar do nome, trata-se de uma criação 100% brasileira. Adolescentes da quarta geração de filhos de descendentes de japoneses que migraram para o Brasil, os chamados yonseis, são os maiores entusiastas da matsuri dance. A dança foi inventada, em 2003, pelo grupo Sansei de Londrina (PR) e se espalhou pelos municípios com colônias nipônicas, como é o caso de Marília, cidade de 232 mil habitantes localizada a 438 km da capital paulista. Vem se tornando uma espécie de dança da integração, por atrair crianças, adolescentes, adultos e idosos (os odiityans e as obaatyans), incluindo não-descendentes de várias etnias. Quando vídeos no YouTube passaram a ser compartilhados, os jovens yonseis espalhados pelo Brasil formaram grupos e começaram a criar suas próprias coreografias. Já houve exibições de matsuri dance em estados como Amazonas, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros. Em Marília, a dança chegou há pouco mais de cinco anos. “Fomos gravando e eles foram adaptando passos da discoteca, mas sem deixar de incorporar um ou outro passo do bon odori”, explica Mario-san, o microempresário Mario Tahara, de 41 anos. A fusão do novo com o milenar tem estimulado que jovens fãs da matsuri dance acabem preservando a tradição do bon odori, uma cerimônia budista japonesa de homenagem aos mortos. Envolve todo um ritual, que vai desde a iluminação com velas flutuantes, o som característico dos tambores taiko, a disposição dos músicos, o uso do quimono, as épocas do ano e os horários em que pode ser realizado até as variadas coreografias que remetem à lavoura ou à pesca. Em geral, a dança moderna, já sem o sentido religioso, ocorre depois da tradicional, e os jovens acabam participando das duas. Em Marília, onde ocorreu no primeiro fim de semana de abril a 14ª edição do Japan Fest, um tradicional evento da cultura oriental em São Paulo, a matsuri dance foi uma das atrações paralelas. Diferente de Londrina, onde se originou, e de Maringá, cidades paranaenses com grupos maiores que se apresentam para plateias de até 20 mil pessoas, no interior paulista a dança luta para conquistar um maior espaço. Cidades com colônias grandes de japoneses, como Tupã, Bastos e Garça, realizam eventos do gênero e também começam a abrir suas programações para os jovens. Essa renovação rompe com a lógica de isolamento que os orientais no Brasil fizeram questão de preservar – ou, muitas vezes, foram obrigados a se isolar. Durante a Segunda Guerra Mundial, e alguns anos depois dela, os descendentes de japoneses eram vistos como o “perigo amarelo”, inimigos dos brasileiros. Uma herança que vinha desde o Estado Novo de Getúlio Vargas, quando imigrantes japoneses, alemães e italianos tiveram suas liberdades de locomoção e comunicação cerceadas. Nos anos 1960 e 1970, os nipo-brasileiros iniciaram um processo de inclusão de brasileiros na colônia, como a permissão de casamentos de seus filhos com os gaijins (os não-japoneses), fenômeno pesquisado por Ruth Cardoso em sua tese sobre a mobilidade social dos japoneses. Era uma forma que encontraram para se integrar à sociedade brasileira. De lá para cá, essa paulatina miscigenação fez com que as festas orientais passassem a ser frequentadas por um público ocidental que se interessa pela culinária e pela cultura japonesa. Na festa de Marília, uma espécie de quermesse com atrações artísticas compareceram mais de 50 mil pessoas entre os dias 8 e 10 de abril. A programação, no melhor estilo Japan Pop Show, incluiu karaokê, concurso de miss nikkey, taiko, cosplay e shows de cantores da colônia nipônica. A maioria das atrações veio de Marília e de cidades como Lins, Tupã, Assis, Araçatuba e Mogi das Cruzes. Há cenas memoráveis. A começar de uma exposição de ikebana, que já teve mais de 30 edições e começou antes mesmo do Japan Fest. No bon odori da Marília Nikkey Gakudan, sete senhoras cantaram com colas escritas em japonês nos seus leques, que também serviam de proteção contra o sol inclemente. De Londrina, vieram o grupo folclórico Jishin Shamidaiko e o Taiko Ishin Ladies. O primeiro é um grupo de jovens músicos que tocam instrumentos do Japão, como o koto (uma harpa lírica, também conhecida como cítara japonesa) e o shamisen (espécie de banjo de três cordas que as gueixas tocam). As Ishin Ladies são um grupo de mulheres de meia idade para cima, a mais velha delas com 74 anos, que tocam o tambor japonês com a energia de adolescentes. De Mogi das Cruzes, veio um garoto-prodígio de 11 anos, já vedete de programas de auditório da televisão brasileira. Ryu-Jackson toca e dança músicas do rapper sul-coreano Psy e de Michael Jackson. Começou a sua carreira artística aos 4, quando, depois da morte do cantor norte-americano, passou a querer imitá-lo. Ryu dubla seus ídolos, mas também canta com voz potente e afinada em português, inglês e japonês. A dupla de campeões brasileiros de karaokê Takeshi Nishimura e Satiko Ono, de São Paulo, faz uma apresentação com cenas que lembram a leveza e a pureza dos movimentos do teatro kabuki. Os cachês são modestos. Principais atrações musicais das duas primeiras noites, os cantores Kenji Yamai e[+]  Também já escrevemos sobre:    O que é a música sertaneja, segundo a academia   2 de outubro de 2015     Por que o sertanejo é tão repelido pela sociedade   6 de outubro de 2015     Somos caipiras piraporas   13 de setembro de 2013     A nova cara do gospel   6 de outubro de 2015

Japan Pop Show

Filme do norueguês Joachim Trier tem como ponto central o conflito de uma mãe a ser 'descoberta'. Não é o 'anjo do lar', mas alguém deslocada dentro da própria casa

Mais forte que bombas

#7

#7

O Brasil de abril de 2016 está caminhando mais ou menos a

Luta de Classe

Não espere que a mídia industrial brasileira lhe conte esta historinha. Nestes mesmos dias em que a Câmara Federal brasileira se prepara para votar um estrambólico processo de golpe de estado ~constitucional~ contra a presidenta Dilma Rousseff, um livro ligeiro e certeiro dá a chance de contrastar o que está acontecendo agora mesmo com o que aconteceu quase exatos 52 anos atrás, quando outro golpe de estado depôs o presidente (não diretamente eleito) João Goulart. Os dois processos guardam muitas diferenças. Mas havia um personagem não-humano central em 1964, que se mantém, sem tirar nem por, personagem não-humano central de 2016: a Fiesp, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. A dissimulada patrocinadora dos dois golpes é personagem central de À Espera da Verdade – Empresários, Juristas e Elite Transnacional – Histórias de Civis Que Fizeram a Ditadura Militar, da editora Alameda, lançado na cidade de São Paulo no último dia 30 de abril de 2016. Não espere que a mídia golpista brasileira sequer lhe conte da existência desse rápido e nada rasteiro livro. Assinado coletivamente por uma equipe interdisciplinar ancorada na academia (formada por Felipe Amorim, Haroldo Ceravolo Sereza, Joana Monteleone, Rodolfo Machado e Vitor Sion), À Espera da Verdade é também um trabalho jornalístico, um livro-reportagem que apareceu primeiramente em forma de reportagens avulsas dos sites Última Instância e Opera Mundi e da revista Samuel, escritas em sincronia com os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012 por, adivinhe quem, Dilma Rousseff. (A propósito, os vínculos entre Dilma, Comissão da Verdade, impeachment fajuto e tentativa de novo golpe de estado clamam por ser estudados e esmiuçados, pelo jornalismo muito antes que pela academia, pela história ou pelos museus.) O livro-estudo-reportagem de agora conta histórias inéditas entremeadas com histórias mais que conhecidas, ao menos por quem se interessa minimamente pela história do Brasil – o que exclui a quase totalidade da mídia comercial instalada no país, um mutirão de reacionários recém-convertidos aos movimentos de rua, um punhado raivoso de brasileiros de extrema direita e vários outros atores ocultos (ou não) dos dois processos golpistas, remanescentes do de 1964 e conspiradores ativos de 2016. Ler agora mesmo À Espera da Verdade elucida não só os anos de 1964 e 1961-1963 (o golpe e sua antessala), como oferece a preciosa oportunidade a(o) leitor(a) de estabelecer um chocante paralelo com seus equivalentes 2016 e 2013-2015. A chave da caixa de Pandora se encontra no segundo subtítulo da obra, Histórias de Civis Que Fizeram a Ditadura Militar. (Caímos entre 1964 e 1985 não numa ~revolução~ ~redentora~, ditadura militar ou ditabranda, como muitos até hoje se empenham em nos impingir, mas sim numa ditadura civil-militar.) Na ponta-cabeça dessa pirâmide encontraram-se em 1964 e se encontram hoje a Fiesp e uma galeria estrelada de injetadores de dinheiro e poder. Do passado, ouvimos no livro nomes como Volkswagen, Mercedes Benz, Siemens, Esso, Texaco, Ultragaz, Banco Mercantil do Brasil, Souza Cruz, Scania, Pfizer, O Estado de São Paulo, Moinhos Santista, Duratex e dezenas de etcs. Hoje, convivemos todo dia com a Rede Globo e seu elenco estelar de poderosíssimos anunciantes privados, superficialmente ilibados, civis acima de qualquer suspeita. À Espera da Verdade relata passo a passo o processo de construção civil do golpe militar que desabaria sua fúria sobre o Brasil em 31 de março de 1964. Explica a avassaladora campanha de propaganda feita sobretudo pela Fiesp, pelo Ipês (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e pelo Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), todos interligados e contando com aporte ideológico e financeiro (no mínimo US$ 20 milhões, segundo o livro) do poder central dos Estados Unidos da América. Em 2016, o jornalismo brasileiro está reduzido à condição de destroço, a ponto de não haver, até o momento, investigação e documentação equivalentes sobre o que se passa agora mesmo, nas diferenças e semelhanças com 1964, 1954, 1961, 1932, 1992… Em 2016, nos quedamos parvos à espera da verdade, à espera do À Espera da Verdade de 2066, aconteça o que acontecer nos próximos dias. Os processos de 1964 e 2016 talvez sejam diferentes, mas a leitura de À Espera da Verdade assusta de cara pelas semelhanças. Pense, por exemplo, que a campanha eleitoral para o parlamento de 1963 contou com maciço investimento (inclusive estadunidense) para eleição de congressistas comprometidos com o ideário conservador, direitista, anticomunista, em última instância golpista. Pense, agora, em Eduardo Cunha e seus (no mínimo) 38 apóstolos.  Pense, então, em José Serra, Michel Temer, Geraldo Alckmim, Paulo Skaf, Marta Suplicy, todos eméritos paulistas comprometidos com a Fiesp – a dona do pato que todo mundo sabe quem estamos ameaçados de pagar. Capítulo notável de 2016, e onde a história insinua se inverter, é aquele que se intitula “As mulheres golpistas”. Vale a transcrição de parte dos dois empolgantes parágrafos iniciais: “Em 19 de março de 1964, foi realizada na cidade de São Paulo a ‘Marcha da Família com Deus pela Liberdade’. (…) Passaram à história como as genuínas idealizadoras e promotoras da marcha organizações femininas e mulheres da classe média paulistana. No entanto, por trás deste aparente protagonismo feminino às vésperas do golpe que deu lugar a 21 anos de regime ditatorial, esconde-se um poderoso aparato financeiro e logístico conduzido por civis e militares que tramavam contra Jango. Um detalhe: quase todos eram homens”. Semelhanças e diferenças: em 2013-2016, a fórmula ~tradição, família, propriedade~ de promoção da comoção popular e do justiçamento volta repaginada e embebida numa barafunda de máscaras como Anonymous e Black Blocs e siglas como CBF, STF, MPL e MP, sob patrocínio e financiamento que à mídia golpista fiespista não interessa minimamente escarafunchar (sigamos 1964, estúpidos!?). O complexo Ipês/Ibad converte-se, quase caricatural (mas ainda desesperadoramente eficaz), numa garatuja chamada Instituto Millennium, a partir de onde a mídia industrial organiza as fofocas e mentiras que vai dimensionar. Desta vez, as mulheres – e aí a diferença se faz loquaz – não aparecem fazendo escudo e blindagem para machos afeitos às trevas como Temer, Serra, Skaf, Cunha, Alckmin etc. Não. Desta vez é diferente. O tropel de quase todos homens se move, desta vez, para demover do poder de facto (como diria o chefe ou vice-chefe ou vice-vice-chefe da conspiração) uma mulher. Desta vez, além de ser mulher, ela é direta e democraticamente eleita, como não havia sido o velho Jango. Eleita por brasileira(o)s em processo legítimo, Dilma Rousseff é protagonista de 2016 como as mães de família,[+]  Também já escrevemos sobre:    Roda viva outra vez   20 de março de 2016     Uma outra narrativa é possível?   20 de outubro de 2015     Macartismo à brasileira   19 de fevereiro de 2016     O sertão está virando mar   2 de setembro de 2013

2016 versus 1964

E o chocolate foi mais um que entrou na gourmelândia

Meu doce paladar infantil

A obra fotográfica de quatro artistas atesta a melancolia em relação ao projeto da cidade moderna

A aura sombria

#6

#6

A vida entre seres humanos invasivos vem corrompendo meu juízo, que já não é lá essas coisas

Consumo compulsivo

Uma oportuna seleção de documentários

É (quase) tudo política

Lanchonete de teatro é assim: não tem e o que tem não presta ou tá frio

No teatro é diferente

#5

#5

Uma pena que tenhamos perdido todo sentido do humor e que muito pouca gente ainda entenda uma ironia

Sem a loucura

Lembranças do apartamento de um amigo em Paris

O exilado

O que restou de subversão e de rebeldia num big business como esse?

A tribo do rock

O iraniano Mohsen Makhmalbaf capta o ditador em cada um

Essência autoritária

Confissão de um fraco

#4

#4

Que lembranças consigo recuperar desse ano?

1950

O maestro e trompetista cubano mistura jazz e samba aos ritmos da ilha

Ceruto, o rei do mambo

Canadense que realizou shows dos Rolling Stones desenvolve pulseira com chip para megashows. Por Jotabê Medeiros

Ele quer matar o dinheiro

Roda viva outra vez

Um dia perguntei a meu médico quando poderia parar de tomar o medicamento. Ele riu e me disse que não tivesse pressa de que tal dia chegasse

Sem morrer de inveja

#3

#3

Anotações em torno de uma escala forçada na capital do Senegal

A máquina voadora

Na falta do dinheiro, a linhaça é sempre uma alternativa

Pode estar substituindo

#2

#2

#1

#1

A desproporção com que a vertente cultural ocidental ou americanoeuropeia se sobrepõe à índio-africano-ibérico-popular é de atordoante violência

Eu e Naná

Panamá é a nova meca dos insatisfeitos com muita grana a nada a declarar

O canal

“Acho complicado você agradar outra pessoa se você não está feliz.” A frase foi dita pelo autor de telenovelas João Emanuel Carneiro, em entrevista sobre o final de A Regra do Jogo, da Rede Globo. Primeira novela de JEC depois da explosiva Avenida Brasil, A Regra do Jogo se despediu melancolicamente do público na sexta-feira 11, sem deixar saudades e sem ter conseguido agradar nem gregas nem troianos. De volta à frase fugidia de João Emanuel: se não agradou é porque seu autor não estava feliz, certo? Não pretendo aqui fingir que estive dentro da cabeça do dramaturgo para checar seus estados de espírito, mas, a exemplo da desastrosa antecessora Babilônia, de Gilberto Braga, A Regra do Jogo foi qualquer coisa, menos uma novela feliz. A frustração de expectativas cresceu e nos absorveu ao longo de vários meses, enquanto uma soturna trama policialesca se desenrolava sob direção burocrática da equipe de Amora Mautner, a mesma que fora tão revolucionária nos tempos idos de Avenida Brasil. Tentar buscar um pouco de contexto é bom, engorda e faz crescer. Avenida Brasil foi ao ar pela primeira vez em março de 2012. Dilma Rousseff iniciava o segundo ano de seu primeiro mandato. Pareciam dias de trégua (ainda que a mídia comercial transbrasileira tratasse a condutora da nação como “faxineira” em vez de presidentA). A Globo investia então, de modo inédito neste século, em uma trama solar de orgulho e valorização da ascensão social experimentada por brasileiras e brasileiros desclassificados (como define o sociólogo Jessé Souza no iluminador livro A Tolice da Inteligência Brasileira ou Como o País Se Deixa Manipular pela Elite, Leya, 2015), que frutificava desde os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Avenida Brasil elogiava o Brasil, as brasileiras e os brasileiros, por estranho que isso possa parecer sendo transmitida por quem a transmitiu. Não foi o que aconteceu com A Regra do Jogo, em nenhum sentido. Talvez involuntariamente (será?), A Regra do Jogo representa nos mínimos detalhes o inverso e o reverso de Avenida Brasil. Aconteceu em meio ao Grande Ataque às conquistas sociais brasileiras, operado com fúria e ódio pelo conservadorismo local (e pela extrema direita estadunidense que governa o sistema Globo), e em tudo representa este taciturno e implosivo momento. Queira ou não seu autor, A Regra do Jogo foi instrumentalizada pelas Organizações Globo para desmentir tudo que Avenida Brasil afirmara. Compôs linha acessória do cenário fantasmagórico do Jornal Nacional ajudando a converter otimismo em pessimismo como numa catequese mais-que-religiosa. Foi sutil como os elefantes que pisam nossas cabeças diariamente no JN. Não impressiona que não tenha agradado nem israelenses nem cubanas. Sem querer entrar na mente de JEC, intuo que mora bem aí, na estranha transmutação de ouro em golpismo alucinado, a infelicidade em torno de A Regra do Jogo. Não sou eu que estou dizendo, foi a própria novela que disse. Para além da atmosfera sub-hollywoodiana de tiro, porrada e bomba e das frouxas tramas cômicas colaterais que ocuparam sua trajetória capítulo por capítulo, A Regra do Jogo foi freudiana de cabo a rabo. O que se viu nos últimos meses na tela do ex-horário nobre (hoje ocupado pelo trem-fantasma sensacionalista do JN) foi uma carnificina intrafamiliar. O pai de Juliano (vivido por Tony Ramos, ex-namoradinho do Brasil, atual garoto-propaganda frigorífico da Friboi) era o Vilão Completo, o mal do mal do mal. O pai de Dante era o Vilão Incompleto, o vilão trapalhão, o vilão que virou nome póstumo de hospital infantil no último capítulo. O pai das mocinhas perturbadas Nelita e Kiki, vivido pelo petista solar José de Abreu, era mau psiquiátrico, de hospício, a ponto de se revelar o “Pai” da facção criminosa que nunca teve nome e acabar engolido por ela. (O que em Avenida Brasil era moderníssimo embaralhamento entre o “bem” e o “mal” virou maniqueísmo à moda antiga em A Regra do Jogo: Zé Maria, Romero Rômulo e Gibson Stuart confirmados como o “mal”, o desempregado Juliano e o policial Dante legitimados como o “bem”. Capitão Nascimento curtiu isso.) A carnificina edipiana foi de deixar Sigmund Freud e William Shakespeare em chinelas. Juliano esteve a um palito de estourar a têmpora de papai Friboi, mas se contentou em enviar o homem que o concebeu a redentoras masmorras. Dante amparou nos braços o sangue de assassinato do avô e do pai (adotivos). Gibson acabou assassinado por uma das filhas (que papá havia mantido sequestrada por décadas), em conluio com a outra filha e com a esposa, em nome do restabelecimento da ordem, da felicidade e da paz. Às mulheres, magistrais em Avenida Brasil e na anterior A Favorita (2008), couberam papéis subservientes de fratricida, inauguradora de hospital infantil com nome de bandido, esposa cega de megaempresário corrupto (Renata Sorrah, numa das piores personagens de sua história), vítima de violência marital redimida por um príncipe encantado, funkeira idosa iludida pelo Mal Supremo… A vilã cômica Atena tentou alguma reabilitação (feminina?, ou tipicamente misógina?) para as novas gerações, fechando a última cena da novela vitoriosa, com milhões de euros no banco e um filho de bandido bonzinho a tiracolo. O que sobressaiu, noves fora tudo, foi a galeria masculina de péssimos pais, sempre dispostos a trair e apunhalar pelas costas os próprios filhos. E de filhos fratricidas – edipianamente, todo mundo quis matar o pai em A Regra do Jogo. E foi aí que morou o diabo. Se o personagem principal da infeliz A Regra do Jogo fosse o angustiado João Emanuel Carneiro, não haveria outra identidade possível para o Pai da Facção, que o filho tenta inutilmente assassinar em sonho e em pesadelo: Rede Globo. Como na ficção, o Pai da Fação é supostamente tão bonzinho, protetor e anticorrupção que até parece… uma mãe.  Também já escrevemos sobre:    Nelsinho não é Lula, não   3 de novembro de 2015     Pergunta se é Roberto Carlos   23 de fevereiro de 2014     Dez Mandamentos para o Jornal Nacional   16 de outubro de 2015     Serra dos pelados   6 de novembro de 2013

O Pai da Facção

O que não pode faltar é a coxinha

O banquete do dia 13

A Câmara Federal está perdendo uma bela oportunidade de se apresentar à nação como guardiã da decência

A casa da mãe joana

Entre elas, a que fez aprender a não pegar doces escondido

As mais belas histórias

A natureza hostil em "O Cavalo de Turim" e o diário do artista José Leonilson em "Paixão de JL"

Tratado do todo

Rita não é apenas um nome. É muito mais

Lovely Rita

'Multiplicar-se única' divide saberes e sabores num reencontro sonoro de Regina Machado com Tom Zé

Com sarcasmo, com afeto

A morte de Umberto Eco condensa a névoa pela qual trafega um mundo cada vez mais desigual e desorientado

O sábio que sabia rir

Confesso que sou um viciado em retratos em branco e preto

As tais fotografias

Jovens criadores encontram espaço para experimentar em um tradicional bairro do centro de São Paulo

O retiro da vanguarda

A humanidade toda estava ali. Era só olhar para ver

Sinapse interpessoal

A carta de Marta (*)

Lembra quando a gente brincava de Comandos em Ação e as meninas brincavam de Barbie? Então, uma vez meu avô me viu brincando com meia dúzia de Comandos em Ação e uma Barbie. Era para ela ser a namorada de um deles, mas ele achou que aquilo era “coisa de veado”. Sim, pra ele e pra maioria das pessoas, eu não podia brincar com boneca, nem brincar de cuidar de bebê, nem brincar de cozinhar. Eu tinha que brincar de guerra, de futebol e de lutinha. Tinha que “treinar pra ser macho”. Meus soldadinhos não podiam ter namorada, mãe ou irmã. Eles eram um monte de soldados homens num mundo de homens. Igual à nossa divisão na escola: “meninos vs meninas”. E a gente não brincava com meninas. Nunca! Meninas eram chatas, choronas e frescas. Elas eram, na melhor das hipóteses, princesas que a gente salvava jogando Alex Kidd ou Super Mario Bros depois de matar o vilão e terminar o game. Na adolescência a coisa piorou: começamos a querer nos aproximar das meninas, mas continuávamos achando elas “chatas, choronas e frescas”. Pior, agora as achávamos “metidas” também. Meninas de 14 anos não queriam saber de meninos da sua idade. Na nossa cabeça, elas queriam homens mais velhos, homens mais bonitos, homens que não parecessem moleques. E, se você não tivesse grana, era pior porque você jurava que sua falta de sorte com o sexo oposto era culpa da sua falta de dinheiro e ficava com um ressentimento muito grande. Você via a loira linda na televisão e não tinha a loira linda pra você. Primeiro porque o Brasil não é um país de loiros. Segundo porque, na sua cabeça, se ela era loira e linda ia acabar com o Luciano Huck e não com o Mano Brown. Nós éramos um bando de homens, conversando com homens e vivendo com homens “tentando entender as mulheres” como cantava aquela música do Mundo Livre S/A que perguntava “de que vale um testículo sem carro?” E concluía: “Sem um carro, o testículo é um saco”. Era estranho que uma banda tão crítica quanto o Mundo Livre tivesse feito uma música tão machista como essa. Pensando bem, não era estranho, era a regra. Quase todas as bandas de rock ou rap dos anos 90 criticavam as mulheres assim como quem critica o “sistema, o preconceito ou violência policial”. Sem perceber que as mulheres não eram o “opressor”, mas o “oprimido”. As mulheres (que não tocavam em praticamente nenhuma banda daquela geração pré-Pitty, com exceção do Pato Fu) eram quase um inimigo a ser “combatido ou conquistado”. Exagero? Vamos recordar, porque recordar é viver: Se, hoje em dia, o assédio sexual é combatido (com toda razão) como crime, o que nos ensinavam os Raimundos, maior banda de rock nacional dos anos 1990? “No coletivo o que manda é a lei do pau/ quem tem, esfrega nos outros/ quem não tem só se dá mal.” (Em “Esporrei na Manivela: uma música inteirinha falando sobre assédio no busão.) Ainda ficando com os Raimundos, eles regravaram “Aquela” – de outra banda de Brasília, o Little Quail – e fizeram muito sucesso com essa ~romântica~ canção que nos ensinava que: “… respeito e consideração nunca tiveram nada a ver com tesão”. E quem se lembra do Catapulta (que teve um semissucesso na MTV com o clipe de “Poeira”)? Eles tinham uma das piores letras de todas: “Vô regaçá, botá ela pá suá/ chupá talho e ser dengoso, que um boquete vai rolar/ se ela pedir mais, eu vou lhe dar/ e se não pedir/ COITADA, VAI TER QUE SUPORTAR”. *** E ainda tinha um monte de letras de bandas de rap que eram tão duras com as “minas” quanto com o “sistema”.  Gabriel O Pensador (rapper branco que levou o hip-hop para as famílias de classe média) lançou um clipe tão violento nos anos 1990 que hoje em dia teria enterrado sua carreira com ele. Duvida? Assista novamente “Lôraburra” – um spoiler: ele transa com a mulher “burra”, manda ela embora, ela SE SUICIDA rejeitada e ele ainda vai no velório e JOGA UMA CAMISINHA USADA no caixão. O feminicídio mandou um abraço pros anos 1990. Os Racionais MC’s (uma boa banda que eu admiro até hoje) puxaram para esse lado algumas vezes, seja criticando as “Mulheres Vulgares” nos versos “mulheres só querem o que as favorecem/ dinheiro e posse, te esquecem se não os tiverem” ou colocando a mulher como um objeto de desejo a ser conquistado como em  “seu carro e sua grana já não me seduz/ e nem a sua puta de olhos azuis”.  Só que existe uma diferença entre carro e grana e uma mulher, certo? Carro e grana não são um ser humano (nem mesmo um ser vivo) e eles não têm sentimentos, vontades, dores e dúvidas. Ao contrário da mulher, que está mais próxima de você, amigo homem, do que de um Honda. Parece óbvio, mas foi assim que fomos criados para ver as mulheres, como objetos que podem nos proporcionar prazer. Se você estava do “lado do sistema” você queria conquistá-las como carro e dinheiro. Se você estava do lado “engajado” você não se iludia com elas, como não se iludia com o capitalismo e tal. Esquecíamos sempre, no nosso “mundo de menino”, que as mulheres eram tão humanas quanto a gente. E olha que só estou citando aqui bandas de rap e rock que eu gosto e que procuravam exibir alguma “consciência” em suas letras. Se você avaliar o axé (“tudo que é perfeito a gente pega pelo braço/ segura ela no meio/ mete em cima e mete em baixo”), funk (“dói, um tapinha não dói”) ou pagode (“vou dar um castigo nela/ vou lhe dar uma banda de frente/ quebrar cinco dentes e quatro costelas”) a coisa não melhora muito. E foi assim que a gente foi criado, assistindo a Xuxa dividir o mundo entre “meninos e meninas” que competiam para ver quem era melhor. Assistindo o H na Band, que era apresentado por um homem,[+]  Também já escrevemos sobre:    Já passou da hora de #ficaverão virar #vaiverão   15 de maio de 2015     Mulheres negras devem ser livres   12 de setembro de 2013     Um relato humano sobre uma tragédia nacional   10 de dezembro de 2015     Quem tem medo de Joelma?   1 de maio de 2013

Leia, se for macho

– O Rei da Pamonha lá está. E também o Rei do Bacalhau. E, além desses dois nobres, o Rei da Linguiça.

A nobreza na estrada

Saímos contentes feito crianças pelas ruas dos Campos Elísios, depois de entrevistar o ministro da Cultura, Juca Ferreira, na sede paulistana da Funarte. Evidentemente eu e o colega Jotabê Medeiros, juntos nessa aventura inédita, nos conhecemos há um milênio, desde quando ele era um dos mais atuantes jornalistas culturais do Brasil trabalhando no Estado de São Paulo e eu (modéstia à parte), idem, na Folha de São Paulo. Somos ambos paranaenses, nos conhecíamos há mil anos e nutrimos afeto e respeito mútuos, mas só em tempos recentes temos nos tornado realmente amigos, muito pela ação paciente do irmão em comum Eduardo Nunomura, ex-Folha, ex-Veja e ex-Estadão e meu parceiro de jornada aqui neste quixotesco FAROFAFÁ. Também participa deste pequeno exército (civil) brancaleone Haroldo Ceravolo, chapa meu e do Edu na mesma turma do curso de jornalismo da USP nos primeiros anos 1990, também ex-Folha e ex-Estado, atual proprietário da formidável editora Alameda. O que a ultracompetição de fachada entre jornais rivais separou, a derrocada acachapante do jornalismo industrial corrupto braZileiro fez o favor de unir. Meio sem rumo, eu e Jotabê saímos felizes da sede da Funarte, na alameda Nothmann, e fomos almoçar num pé-sujo simpático da alameda Barão de Limeira, onde ainda hoje funciona a sede corroída da altamente conservadora, reacionária, politizada, ideológica, militante e panfletária Folha de São Paulo. Não estou aqui falando pelo Jotabê, apenas por mim, mas, caminhando por entre as ciclovias do Minhocão rumo à estação Marechal Deodoro do metrô, não resisti de comentar com ele o quanto acho que somos vítimas de alguma subespécie de macartismo cultural todos nós, jornalistas que mais ou menos deixamos de compactuar com o tucanismo atroz da mídia comercial tucanistanesa. Jota fez silêncio, talvez discorde, mas, quanto a mim, desde que saí da Folha, em 2004 (inicialmente rumo à “petista” CartaCapital), tenho sido um pária nas fortalezas do PIG, Partido da Imprensa Golpista. O PIG, partido ativo (e altamente predador das identidades brasileiras) desde ao menos os tempos do ditador trabalhista Getúlio Vargas, é liderado autoritariamente pelas Organizações Globo e seguido com fidelidade canina por sabujos tipo Folha, Estado, editora Abril etc. etc. etc. Todos nós, jornalistas de profissão e/ou fé, somos impreterivelmente funcionários do PIG, mas apenas enquanto compactuamos ideologicamente com ele. Depois, caímos no mundo, num mundo feito de silêncio, sarjeta e solidão. Particularmente, não tenho emprego fixo desde 2009 (quando saí da “petista” CartaCapital) – vivo de bicos, muitas vezes sem trabalho, aquela coisa e tal. Furei bloqueios aqui e ali “frilando” até mesmo, eventualmente, para veículos PIG tipo Estadão e revistas da editora Abril. Foram exceções confirmadoras de regra geral. Nestes dias incríveis em que o PIG tucano se volta contra o próprio tucanismo e produz denúncias público-privadas de polichinelo contra o insuspeitíssimo correligionário (senão guru) Fernando Henrique Cardoso, tenho convicção de que dezenas e dezenas e dezenas de jornalistas brasileir@s mais ou menos destoantes da nomenklatura tucanistanesa poderiam estar aqui neste mesmo espaço contando histórias escabrosas sobre o neomacartismo cultural tucanistanês. O macartismo tipo tucanistanês é insidioso, silencioso, trevoso como um tal Vampiro Brasileiro que todos que trabalhamos na área conhecemos bem. Nesta modalidade pós-EUA, não somos acusados de nada. Não somos combatidos nem perseguidos publicamente. Não nos difamam nas páginas amarelas (até porque não temos notoriedade para tanto). Não possuímos recibo ou prova das rejeições que colecionamos. Apenas deixamos de existir para os radares do Comitê Central Tucanistanês, simples assim. Não posso provar que fui escorraçado sem qualquer explicação plausível de uma coluna cultural da revista cultural Cult (veja bem, sou um reles cronista cultural, daqueles sem poder para nem sequer arranhar o céu tucanistanês), apenas porque tal aparato jornalístico é controlado por gente do Vampiro Brasileiro em pessoa – estou falando de José Serra, o Indizível, aquele que nenhum(a) jornalista tucanistanês(a) pode – ou podia – nominar. Não sei quant@s estariam dispostos a listar exemplos caudalosos, mas outro dos segredos de polichinelo de que trata em eloquente artigo a jornalista ex-global Tereza Cruvinel é que o nome de José Serra é intocável no jornalismo brasileiro, especialmente nas redações de Tucanistão São Paulo. O coronel político-midiático “moderno” controla tudo, entre esgares stalinistas de paranoia, desde quando desperta da esquife até o anoitecer. Afirmo para você aqui, menina: dez entre dez colegas do jornalismo político já tiveram a cabeça a prêmio por desagradar, numa vírgula que fosse, esse czar do tucanistanismo paulistês e do entreguismo petrolífero antigetulista braZileiro. Que se atreva a contar o primeiro causo quem tenha prontuário no departamento Serra da Polícia Política de Tucanistão – mas também vale para outros czares, Aécio Neves, Geraldo Alckmim, Beto Richa, outros (bem) menos votados. Ou alguém vai negar e sustentar que não existe o macartismo cultural versão tropicália, esse que cimenta brutalmente as bocas de todo mundo que fuja minimamente dos conformes ideológicos do partido midiático (PIG-Tucanistão)? Certamente negarão os soldados do PIG-Tucanistão (tipo Ricardo Noblat, da Rede Globo de Ditaduras), partido político-midiático de resto sempre disposto a clamar sorrateira, bonachona e debochadamente pela democracia (enquanto golpeia), pelo livre arbítrio (enquanto arrebanha) e pela liberdade de expressão (enquanto censura). Mas todo mundo sabe que não existe liberdade em Tucanistão.    Também já escrevemos sobre:    A Folha publica opiniões divergentes…   20 de outubro de 2014     Quem afundará primeiro: a imprensa ou a política?   16 de abril de 2015     O pós-crise de Juca Ferreira   18 de fevereiro de 2016     #JornalistasLivres   13 de março de 2015

Macartismo à brasileira

Em 'Macunaíma', a personagem de Mário de Andrade critica o fato de se falar uma língua e se escrever em outra

Carta às icamiabas

texto: Cilmara Bedaque e divulgação GROWLERS NO SPTH Até este domingo (21/02) , o São Paulo Tap House estará vendendo growlers – recipientes feitos de cerâmica – de dois litros (R$ 98) para os clientes, abastecido com o chope Burgman Casa Nova. Depois do dia 21, os clientes poderão escolher entre os 40 estilos de […]

As novas pós carnaval

O baiano Tom Zé, que era o avesso do avesso do avesso de uma estrela

Outro tom

“Ocupa, ocupa, ocupa o Minhocão!” O grito de guerra em tom de ameaça é entoado repetidas vezes durante a passagem do bloco Agora Vai pelas imediações do Elevado Presidente Costa e Silva, entre Perdizes e a Barra Funda, em São Paulo, na tarde e noite da terça-feira de carnaval. O conflito é iminente: todo ano, no final do carnaval, o bloco iniciado há 12 anos sai do largo Padre Péricles e sobe em cortejo ao Minhocão, que balança feito pinguela de madeira ao pula-pula da multidão. Neste ano, a Prefeitura de São Paulo interditou a subida, por questões de segurança (e determinação do Ministério Público), e o trajeto teve de se limitar ao chão firme. Como é próprio deles e delas, foliãs e foliões ameaçam a desobediência civil. Do anoitecer em diante, chegam recorrentes rumores de que a tribo dos Agora Vai vai invadir o interditado: “Ocupa, ocupa, ocupa o Minhocão!”, ou, entre os mais exaltados, “não tem arrego!”. Ameaçamos, mas acabamos por não invadir, mobilizados pelos organizadores do bloco que pedem ao microfone que as regras sejam respeitadas e/ou talvez por alguma outra força estranha maior do que essa. A cidade antes tida como anticarnavalesca por excelência parece viver momentos de consolidação civilizatória. Os índios não perpetramos o ataque, os bandeirantes não são compelidos a acionar os sempre presentes carros estaduais da Polícia Militar, que zunem pisca-piscas maiores que as fantasias folionas, mas não excedem limites. O acordo tácito se faz: vocês nos concedem o benemérito de um pouco de alegria e cidadania, nós devolvemos a dádiva em forma de obediência e um pouco de folia. Ninguém pode se dizer 100% ou 99% feliz, mas é evidente a olhos nus que os teores de alegria, quiçá felicidade, se alastram pela cidade velha. E a cidade velha, menina, ela não parece mais a mesma com que estávamos acostumadas. Habitada por índios e bandeirantes e seus mestiços e outras gentes, a cidade rotineiramente brutalizada vive dias incomuns, de pacificação e de confluência incomum de interesses e/ou desejos. Durante o carnaval de 2016, paulistaníssimos manifestantes anonymous, black blocs e de cara descoberta desaparecem transitoriamente, ativistas de sofá mantêm a militância virtual e uma outra massa humana surge do nada, como se aqui fosse a Bahia, Rio de Janeiro ou Pernambuco, menos São Paulo. O vai-não-vai do Agora Vai sobre o Minhocão encerra com algum nível de tensão os festejos oficiais, mas a história do carnaval paulistano de 2016 começou antes, mais precisamente no domingo de 24 de janeiro, um dia antes do 462º aniversário da menina cidade velha habitada por índios, bandeirantes, africanas e outras gentes de todo gene e de todo canto do mundo.   (Continua em A Rainha Má: por que vocês não gostam de ser vocês?; reportagem completa em Outros carnavais)  Também já escrevemos sobre:    Outros carnavais   15 de fevereiro de 2016     Tarado ni Você: acorda cedo, menina!   17 de fevereiro de 2016     A Rainha Má: por que vocês não gostam de ser vocês?   17 de fevereiro de 2016     Ciga-Nos, Bloco Soviético: identidade e paródia   17 de fevereiro de 2016

Agora Vai (ou não vai?)

São Paulo recoloca seus blocos na rua e tenta se reinventar como lugar carnavalesco, de convívio humano e exercício de cidadania 1. Agora Vai (ou Não Vai?) “Ocupa, ocupa, ocupa o Minhocão!” O grito de guerra em tom de ameaça é entoado repetidas vezes durante a passagem do bloco Agora Vai pelas imediações do Elevado Presidente Costa e Silva, entre Perdizes e a Barra Funda, em São Paulo, na tarde e noite da terça-feira de carnaval. O conflito é iminente: todo ano, no final do carnaval, o bloco iniciado há 12 anos sai do largo Padre Péricles e sobe em cortejo ao Minhocão, que balança feito pinguela de madeira ao pula-pula da multidão. Neste ano, a Prefeitura de São Paulo interditou a subida, por questões de segurança, e o trajeto teve de se limitar ao chão firme. Como é próprio deles e delas, foliãs e foliões ameaçam a desobediência civil. Do anoitecer em diante, chegam recorrentes rumores de que a tribo dos Agora Vai vai invadir o interditado: “Ocupa, ocupa, ocupa o Minhocão!”, ou, entre os mais exaltados, “não tem arrego!”. Ameaçamos, mas acabamos por não invadir, mobilizados pelos organizadores do bloco que pedem ao microfone que as regras sejam respeitadas e/ou talvez por alguma outra força estranha maior do que essa. A cidade antes tida como anticarnavalesca por excelência parece viver momentos de consolidação civilizatória. Os índios não perpetramos o ataque, os bandeirantes não são compelidos a acionar os sempre presentes carros estaduais da Polícia Militar, que zunem pisca-piscas maiores que as fantasias folionas, mas não excedem limites. O acordo tácito se faz: vocês nos concedem o benemérito de um pouco de alegria e cidadania, nós devolvemos a dádiva em forma de obediência e um pouco de folia. Ninguém pode se dizer 100% ou 99% feliz, mas é evidente a olhos nus que os teores de alegria, quiçá felicidade, se alastram pela cidade velha. E a cidade velha, menina, ela não parece mais a mesma com que estávamos acostumadas. Habitada por índios e bandeirantes e seus mestiços e outras gentes, a cidade rotineiramente brutalizada vive dias incomuns, de pacificação e de confluência incomum de interesses e/ou desejos. Durante o carnaval de 2016, paulistaníssimos manifestantes anonymous, black blocs e de cara descoberta desaparecem transitoriamente, ativistas de sofá mantêm a militância virtual e uma outra massa humana surge do nada, como se aqui fosse a Bahia, Rio de Janeiro ou Pernambuco, menos São Paulo. O vai-não-vai do Agora Vai sobre o Minhocão encerra com algum nível de tensão os festejos oficiais, mas a história do carnaval paulistano de 2016 começou antes, mais precisamente no domingo de 24 de janeiro, um dia antes do 462º aniversário da menina cidade velha habitada por índios, bandeirantes, africanas e outras gentes de todo gene e de todo canto do mundo. 2. A Rainha Má: por que vocês não gostam de ser vocês? Para 2016, a prefeitura paulistana programou três dias de celebração pelo aniversário da cidade. No miolo, um domingão de pancadas de chuva aninhado entre um sábado quente e uma segunda-feira feriadona, o trio elétrico da cantora e compositora baiana Daniela Mercury precipita o carnaval que tradicionalmente só começaria em fevereiro, ou nem sequer começaria, em se tratando de (não existe amor em) SP. A demanda reprimida (como diriam os mercadistas) arrasta uma infinidade de gente às avenidas Brigadeiro Faria Lima, Rebouças, Brasil, Henrique Schaumann, Paulista, Consolação. Daniela chorou diversas vezes ao longo do trajeto que durou cerca de sete horas  – e ainda chora dias depois, ao telefone, ao relembrar a experiência: “Era um sonho meu de muitos anos, e foi melhor que meus melhores sonhos. Abrir um circuito na Rebouças de uma maneira tão mágica, tão doce, é completamente particular. Foi como a primeira vez que desci pra Barra, em Salvador”. Com 5o anos de idade e 35 de música profissional, Daniela desfia emoções que se renovam: “Não só em São Paulo, mas em qualquer grande cidade, as pessoas trabalham muito, são muito tensas, estressadas. Os shows na rua e o carnaval são fantásticos para reunir as tribos todas da cidade, que ficam o ano todo separadas. Foi o que aconteceu quando eu subi a Rebouças. Um dos presentes mais lindos que recebi na vida foi a emoção de ver tanta gente em paz, dançando, se aproximando”. Da experiência, Daniela parte para a filosofia: “As pessoas vivem de janelas fechadas em São Paulo. Essas festas são muito importantes para as pessoas se verem, saberem quem mora naquele lugar, conviverem. O carnaval dá lições espetaculares de convivência. Quisera a vida no cotidiano tivesse a mesma harmonia e as mesmas afirmações de identidade que o carnaval tem, da negritude, dos pacifistas, da diversidade sexual, da liberdade de se vestir como quiser e ser quem quiser. Ninguém se sente mal ali. Por que durante o ano a gente hierarquiza tanto as emoções, se separa tanto?”. A cantora que nos anos 1990 se ergueu como um ícone comercial/industrial da axé music hoje brinca com um alter ego artístico de “rainha má”. “Digo que sou a rainha má porque sou mulher de andar de trio, não sou uma mulher que espero o trio passar por cima nem me coloco no lugar em que a sociedade me botou, desde menina: eu ocupo meu lugar.” O discurso atual finca bandeiras politizadas sobre a cidade velha e sobre o gênero musical já antigo, quase tradicional. Uma militante? “Eu sempre fui, eu sempre fui”, ri. “Fui criada com ‘vem, vamos embora que esperar não é saber’, com ‘é proibido proibir’. Fui criada num país sorumbático, coberto, escuro, triste, que viveu sem respirar a luz da liberdade’, reflete, referindo-se à ditadura civil-militar que ruiu em meados dos anos 1980. “É lógico que isso se reflete, a gente vai ficando coberta por outras coisas, pela grana que ergue e destrói coisas belas. O povo brasileiro fala muito mal de si. Se os brasileiros não gostam se ser indígenas, portugueses, africanos, quem são os brasileiros então? Por que vocês não gostam de ser vocês?”, indaga, ecoando artifícios cênicos da “rainha má” e perguntas que paulistas e paulistan@s nem sempre se fazem. Vivendo uma relação[+]  Também já escrevemos sobre:    Um passeio pelo mundo livre   5 de março de 2014     Passeando devagar, devagarinho pela folia   18 de fevereiro de 2013     A Bahia paulista   15 de fevereiro de 2015     O choque está nas ruas   25 de janeiro de 2016

Outros carnavais

Chegou a turma da alegria

Papinho momesco

'Do Valongo à Favela: Imaginário e Periferia' mapeia a história na região da Praça Mauá e não deixa o samba morrer

O samba da resistência

Por que será que a utopia proposta por Thomas Morus não vingou?

Só quero entender

Porque será que eles não ficam quietos um segundo?

Vendedores de livros

O tormentoso affair de Zizinha e Quincas, em cenário tórrido de embates políticos na Corte e de mimosas contradanças nos salões de Paris

Um novelão à brasileira

Ideias para lugares novos e viagens não convencionais

Destino: 2016

Vi aparecer muita coisa nesse mundo desde que nasci

Parece que foi ontem

Afirmam os estudiosos do assunto que o Carnaval era uma válvula de escape para o peso da civilização

Carne levare

O que Iñarritú propõe é um regresso, de fato, a uma história fundada no genocídio para responder uma pergunta atual: Quando deixamos de ser bárbaros?

Somos todos selvagens

O que fazer quando o garçom diz que a sugestão do dia é cair fora?

Delírios gastronômicos

O lugar da memória no cinema elaborado de Andrea Tonacci

Ordem natural

O instrumento brasileiro toca na Orquestra de Piazza Vittorio, desde 2002 sucesso mundial

Um cavaquinho seduz Carmen

Tentei durante anos imitar a caligrafia, a organização e a habilidade do meu pai em descascar a laranja. Desisti. Do resto herdei quase tudo

Tal pai, tal filho

A partir do dia 10 de fevereiro, não teremos mais jornal em casa

Quarta-Feira de Cinzas

Entre os próximos dias 6 a 9 de fevereiro, isto é, durante o carnaval, o Cais da Alfândega, no Recife (PE), sedia a 21ª. edição do Rec-Beat, um dos mais longevos festivais de música do Brasil. Antonio “Gutie” Gutierrez sentiu a ameaça de, pela primeira vez em duas décadas, o festival não acontecer, e foi à luta: lançou uma campanha de financiamento coletivo, visando manter o nível das atrações – embora o festival seja um pouco menor em 2016 – e a gratuidade do evento. “Vamos fazer juntos o festival” é o slogan da campanha, que pretende arrecadar R$ 200 mil até o dia do início do Rec-Beat, que ao longo de duas décadas sempre primou por inovação e qualidade em sua programação. As recompensas pelas doações (clique aqui para colaborar) variam de brindes personalizados até ingressos para outros festivais brasileiros, além da coautoria da realização desta edição. Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo, com alguns Rec-Beat no currículo, entre bandas como Comadre Fulozinha e Eddie, além de em carreira solo, Karina Buhr assina a arte do pôster deste ano. De acordo com Gutie, a crise financeira em que mergulhou o país gerou cortes de até 50% do patrocínio, de “um valor que já não era tão expressivo”, segundo o produtor. Para termos uma ideia, prefeituras de três municípios maranhenses já anunciaram a não realização de um circuito oficial (leia-se: estatal) do carnaval este ano – Coelho Neto, Pedreiras e Santa Inês –, de acordo com informações do jornal O Imparcial. Gutie conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos. Zema Ribeiro: O que houve ao longo dos anos com o financiamento do Rec-Beat? Antonio Gutierrez: No inicio, por três edições, o Rec-Beat foi realizado em Olinda, na área interna de um casarão, o Centro Luiz Freire. Aí havia cobrança de ingressos, um preço simbólico, suficiente para cobrir os custos, que não eram altos porque ainda era o início do projeto e tudo era feito mais como uma diversão, com uma estrutura bem simples. Em 1999 fomos convidados pela Secretaria de Cultura do Recife para levar o Rec-Beat para o bairro do Recife, sítio histórico da cidade. O objetivo era o festival ser uma âncora para o público jovem de um projeto de fomento do carnaval no bairro, ainda muito incipiente. A partir daí o festival passou a receber patrocínio da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR) e também se tornou gratuito, como é até hoje. A gratuidade é um ponto-chave do festival e tem o lado bom e o lado ruim. O bom é que dá uma grande liberdade para se fazer uma programação mais ousada, pautada em novidades, em coisas mais experimentais que ainda não estão inseridas no grande mercado, ou seja, não precisamos escalar nomes do mainstream para atrair público pagante, uma vez que a gente não vende ingresso. A gratuidade permite que o público tome contato com bandas desconhecidas, ou pouco conhecidas, que certamente ele não pagaria pra ver se não estivessem ali, na rua, sem custo para ele. O lado ruim é que o festival perde uma fonte de receita, ou seja, não pode contar com recursos de venda de ingressos para cobrir seus custos e passa a depender, dessa forma, exclusivamente de patrocinadores e apoiadores. O Rec-Beat cresceu muito, ao longo dos anos, mas o patrocínio oficial não acompanhou a evolução dos custos de realização do evento. Além disso, o Rec-Beat sofre uma limitação para captar recursos junto à iniciativa privada, tendo em vista que a prefeitura já tem acordos com grandes patrocinadores que impedem o festival de captar recursos desses mesmos patrocinadores ou de concorrentes do patrocinador oficial, como cervejarias, por exemplo. Com o agravamento da crise financeira do país este ano e um corte do patrocínio da ordem de 50%, de um valor que já não era tão expressivo, fomos em busca de saídas para manter o festival no nível conquistado, principalmente no que se refere ao conteúdo artístico, conceitual, e a gratuidade. Foi aí que abrimos várias frentes, e uma delas foi a tentativa do financiamento coletivo. ZR: Muitos artistas têm recorrido ao financiamento coletivo para a realização de trabalhos artísticos (filmes, livros, CDs, DVDs, exposições etc.). O Rec-Beat parece ser pioneiro para a realização de um festival. O crowdfunding é “o” caminho, hoje? AG: Creio que somos pioneiros nisso, até agora não vi nenhum festival independente recorrer a esse mecanismo para levantar recursos. Pra gente é uma incógnita, não sabemos onde vai dar. A gente vê vários projetos de CDs, livros, filmes alcançando êxito. Mas não temos uma referencia de projeto para festival. Certamente com esta experiência vamos poder aprimorar a estratégia, avaliar os acertos e erros, caso a gente venha a fazer no próximo ano. Neste momento que estou respondendo a essa sua pergunta o que posso dizer é que o fluxo de adesão à campanha ainda não decolou, mas ainda faltam alguns dias para o encerramento. Mesmo assim eu acho que o crowdfunding pode vir a ser uma boa opção para o financiamento de festivais como o Rec-Beat. ZR: O momento por que passa o já tradicional festival é reflexo da crise que atravessa o país? AG: Acho que reflete a crise econômica e também a falta de discernimento em enfrentá-la. Quando você sofre restrição econômica, você tem que adotar um critério para reduzir seus custos de modo a manter o que é importante e vai te dar retorno e eliminar o que é supérfluo e só vai lhe trazer mais despesas. Eu não tenho dúvida de que o Rec-Beat traz um imenso retorno para o patrocinador, para o público, para a música independente, para a nova música brasileira, para a nova música latino-americana, para a tradição do carnaval pernambucano. O festival traz público. O festival contribui como destino turístico, para o fluxo de renda. Ano passado, e este ano também, o Rec-Beat entrou na agenda de três revistas de bordo de empresas aéreas colocando o evento como destino no carnaval, sem contar o destaque que recebe em vários veículos da imprensa nacional. A mídia espontânea gerada[+]  Também já escrevemos sobre:    Festival Casarão, 15 anos de muita luta   26 de maio de 2014     Festival Casarão, a adaptação e a celebração   4 de junho de 2014     A polêmica sobre o show do Ratos de Porão na Venezuela   30 de setembro de 2015     Um festival para a música brasileira jovem   16 de março de 2014

Rec-Beat apesar da crise

A celebração dos 462 anos de São Paulo evidenciou um confronto de mentalidades nas ruas da cidade

O choque está nas ruas

Num sábado meu amigo Wladyr Nader me disse: 'Vou te apresentar o Marcos Rey'

Cara de tacho

Gostei do termo “aquilo”, pois é algo próximo disso que encontrei após uma década de alegrias, muitas delas descritas aqui nesta revista

Escola do quê, mesmo?

Quem diria, elas foram parar na primeira página do jornal

Galinhas d’Angola

Versão restaurada de Oito e Meio traz as sombras da criação de Fellini

O lugar do sonho

Lançamentos relatam a luta para preservar tradições como o batuque de umbigada, o bumba meu boi e a música caipira

Uma crônica do Brasil

A arte de David Bowie caminhou por máscaras e enigmas

O que dizem seus olhos

As investigações do escândalo sexual que abalou a Igreja

Bons bostonianos

Sobre o ressentimento

O Estado que deixou de ser apenas motivo de chacota

Piauí

Profunda experiência musical envolve as palavras de fogo do pregador lisboeta

Céus e infernos de Vieira

Diálogo entre música eletrônica e violino em tempo real

Presente duplo para Boulez

Como uma figura de ficção pôde explicitar  tão bem o desassosego na senzala

Eu sou Jéssica

Quem é ela? O que faz? Como vive? Quais são seus sonhos? Não sei

Minha amiga vietnamita

texto e fotos: Cilmara Bedaque e divulgação FESTA CIGANA PAULISTA No mundo cervejeiro produtores que fazem suas receitas alugando fábricas são chamados de ciganos. Os ciganos paulistas se juntaram num grupo auto-denominado Cartel Cigano na brincadeira e vontade de fazer pressão. E pressão e cerveja é boa coisa ;) Dia 16 de janeiro, onze cervejarias […]

E começou 2016…

Vocês já ouviram falar em lixo rico? Somos os campeões. Nosso lixo faria a fartura de um Haiti

Campeonato do desperdício

Ruivo em Sangue, terceiro álbum de Gui Amabis, sublima nova aproximação com Portugal em música

Arquiteto de atmosferas

O vocalista Paulão anuncia a última turnê da Velhas Virgens, 
a maior banda independente do Brasil

Roqueiro de pijama

Não me lembro de ter ido a um restaurante e ter saído feliz, compensado

O porquê do Papinho

No ano do centenário de nascimento de Orson Welles, a Versátil lança versão de O Processo, entre outras obras capitais

Senhor Cinema

Vocês já perceberam como é engraçado o sistema bancário brasileiro? Não sei se isso é universal, mas acho que não

Socorro!

“Quem Tem Medo de Música Caipira?”, pergunta o título de uma canção de 1972 do músico fluminense Ruy Maurity. Integrante do LP Em Busca do Ouro, creditado a Ruy Maurity & Trio, a moda de viola pós-moderna participava da movimentação que ficaria conhecida como rock rural e atacava um tabu que o Brasil não estava preparado para enfrentar – talvez não esteja ainda hoje, 43 anos mais tarde. Ouço “Quem Tem Medo de Música Caipira?” e outras MPBs de Ruy dentro do ônibus, na estrada que liga Asunción, no Paraguay, a Foz do Iguaçu, no Paraná, durante a expedição íntima que faço às minha próprias origens de brasileiro paranaense alourado filho de mãe mestiça gaúcha e pai índio catarinense nascido no leito da Guerra do Contestado (o que diabos foi isso?, que nunca estudei na escola?). Estou no meu fone de ouvidos, mas, um banco atrás, um casal de paraguayos ouve seu radinho a todo volume, incomodando o resto do ônibus (cultura incomoda?). Brigo com os sons deles ouvindo intimamente Almir Sater, Tonico & Tinoco, Tetê Espíndola, Tião Carreiro, Renato Teixeira, Cascatinha & Inhana, Sérgio Reis, Pedro Bento & Zé da Estrada, Perla (a única artista legitimamente paraguaya que conheço). De repente, me dou conta de que a riqueza do momento se encontra no radinho do casal paraguayo ao lado, muito mais que nos sons que eu já conheço de cor e salteado. Desligo “Quem Tem Medo de Música Caipira?” etc. e tento ouvir – e entender – o que os companheiros de viagem estão ouvindo. Rola muito daquilo que eu chamaria de sertanejo universitário em castelhano – eu gosto (e sou suspeito para falar, porque gosto à beça dos sons de sanfona do meu conterrâneo Michel Teló e aparentados). Rola uma espécie de tecnobrega paraense também em castelhano (gosto!) – me volta à mente o termo “retrocumbia”, que li num cartaz de baile durante o trajeto Foz-Asunción, de passagem por alguma cidade do interior florestoso do Paraguay (como é florestal o interior paraguayo!), antes de o ônibus passar perto do lago azul de Ypacaray. Será que isso é retrocumbia? Eu gosto. Rola – surpresa! – um funk brasileiro em português que fala de “perereca” e de “novinhas”. Rola – surpresa máxima! – uma versão de “É o Amor” (1991), de Zezé di Camargo & Luciano, cantada em português, mas com forte sotaque castelhano, paraguayo, portunhol, brasiguayo, espanhol ou seja lá o que for. O casal canta junto, apaixonadamente. Rolam lágrimas dos meus olhos mortos de medo de música caipira. “Quem tem medo de música caipira?”, a esta altura, soa como uma pergunta antiga. Tenho vontade de sair correndo pelado pelas florestas do Alto Paraná, gritando-perguntando por que, por que (por quê???) temos (tenho) tanto medo da música caipira. A resposta me assombra há anos, e é tão evidente nesse trajeto que passa pelos guaranis paraguayos e passará pelos kaingang e xokleng e botocudos e xapecós das terras banhadas pelo rio Uruguai (divisa SC-RS) onde nasceu seu Zé meu pai (1929-2013). Temos medo, pânico, terror da música caipira (sertaneja, sertaneja universitária, tecnobrega, axé, forrozeira, lambadeira, vanerona etc. etc. etc.) porque precisamos conservar oculto no fundo de nós o sangue indígena que corre dentro de nossos corpos. Temos medo da música caipirossertaneja (bom dia, Luiz Gonzaga!, boa tarde, Teixeirinha!, boa noite, Inezita Barroso!) porque ela é a voz lamentosa dos índios brasileiros que se encontrou com as violas portuguesas que violaram as índias e os índios brasileiras no processo de estupro culturalmente conhecido como (………coloque seu próprio apelido no estupro………..). Ninguém gostamos de lembrar que somos todos filhos de um (de muitos) estupro(s). Mas o recalcado, menina, ele sempre volta, ele sempre volta e nos pega pelo pé. Tudo é música caipira e sertaneja e cabocla e indígena entre a rodoviária do Tietê e as cataratas do rio Iguaçu (uma das sete maravilhas do mundo de propriedade de nosotros índios da Tríplice Fronteira Argentina-Brasil-Paraguay embora finjamos que tais maravilhas nem nos pertencem). Percebo isso agudamente no Parque das Aves, anexo ao lado brasileiro do Parque Nacional das Cataratas (instituído em 1939 pelo gaúcho Getúlio Vargas, o único ditador de pendores direitistas que a elite bandeirante paulista e seus acólitos odeiam). Ali, a primeira canção que ouço ao longe é a trans-paraguaya “Índia”, numa versão em português que não é nem dos paulistas Cascatinha & Inhana nem do capixaba Paulo Sérgio nem da baiana Gal Costa nem da paraguaya Perla. A propósito, existe alguma canção mais linda que “Índia” no planeta Terra? Em Caçador (SC), cidadela do Contestado onde meus pais se casaram em 1954, ouço funk brasileiro bombando dos soundsystems dos automóveis. Na rodovia que passa por Pato Branco, Mariópolis e Palmas (PR) antes de chegar nas terras evangelizadas de Santa Catarina, ouço em meu fone interno Roberto Carlos, Roberto Carlos, Roberto Carlos: “Minha Tia” (1976), “Lady Laura” (1978), “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo” (1979), “A Guerra dos Meninos” (1980), o suprassumo da música caipira sertaneja indígena capixaba do Robertão. Já imaginou Roberto secundado por harpas paraguayas?, eu já. Existe a versão de “Índia” por Roberto, uma interpretação tão resistente como uma mula empacada – mas existe. Roberto Carlos nasceu em Cachoeiro do Itapemirim (ES), em meio às índias capixabas naraleão. Nasceu, Roberto Índio do Brasil, em 19 de abril: dia do índio, dia do nascimento do ditador Getúlio Vargas.   Ruy Maurity segue zumbizando em meus ouvidos. Quem tem medo da música caipira? Quem tem medo dos índios brasileiros? Quem temos medo de nós mesmos? Quem temos medo do Brasil? Por que sempre tivemos tanto medo de nós mesmos?    Também já escrevemos sobre:    Rap tupi-guarani   11 de setembro de 2013     Existe sertanejofobia em SP   26 de junho de 2015     Tchu-tchu, pra subir de vida…   16 de agosto de 2013     Rádio Farofa: negros como as noites que não têm luar   6 de dezembro de 2013

Quem tem medo do Brasil?

”Sinatra: O chefão”, segundo tomo da biografia, expõe as idiossincrasias do cantor que completaria 100 anos

Uma voz sem caráter

A história acompanha a geometria pelo acervo do Foto Cine Clube Bandeirante

Um elogio à linha

Foi um detalhista das paisagens e do silêncio, abrasador ao encenar a aventura, a história e as paixões.

A aventura incandescente

Fascinada por cemitérios, Clarissa Grassi investe em roteiros culturais pelas lápides

Ao pó voltarás

A melhor parte da cidade? Sem dúvidas, a cachaça

Paraty para o mundo

A paixão, segundo um juiz de futebol

Bola Nossa

Quando o detentor de um direito se torna arrogante e a lei não atinge seu objetivo

Somos civilizados

Centro Cultural Correios traz 120 obras sobre o Rio de Janeiro de Debret

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Daniela Moreau pesquisa a fotografia pioneira de Fortier

Sonhar a África

Charles Cosac fecha a editora, desinteressado de seu atual perfil

CosacNaify: meu mundo caiu

Aos 79 anos, Patativa, pérola da velha-guarda maranhense, grava primeiro CD

Samba na veia

Recentemente, voltei a um tempo que muitos nem sabem que existiu

Caminhando e cantando

As anotações numa velha caderneta "Clairefontaine" ainda pulsam

Memórias do exílio

Bond, de novo em ação, acrescentou testosterona ao coquetel

O drinque nº 1

Rogério de Campos contesta a origem das HQs e reúne raras histórias pioneiras publicadas até o século XIX

A arte esquecida