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Jotabê Medeiros comenta a classificação para 18 anos do filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, não por acaso, cineasta que se manifestou contra o golpe no Brasil Há 30 anos, acontecia a última estrepitosa censura do Estado brasileiro a uma obra de arte. Tratava-se, naquela ocasião, do filme Je Vous Salue, Marie, do francês Jean Luc Godard, e a censura tinha substrato religioso: o carola governo José Sarney, pressionado por grupos religiosos, interditara a exibição do filme alegando “respeito à fé”. Três exatas décadas depois, outro filme reencontra em terras brasileiras uma barreira censória proveniente do Estado, dessa vez uma ação velada, oculta, subliminar, escondida sob uma rede de cinismo e escamoteação. Trata-se de Aquarius (curiosamente, o primeiro filme a representar o Brasil em Cannes em oito anos), de Kleber Mendonça Filho. Desde que seus atores subiram ao tapete vermelho de Cannes com faixas de protesto contra a situação política no Brasil, o governo interino do país declarou guerra à produção pernambucana que tem Sonia Braga como estrela principal. Começou com um desabafo do atual ministro da Cultura em exercício, Marcelo Calero, contra o protesto dos atores em Cannes: — Acho ruim, em nome de um posicionamento político pessoal, causar prejuízos à reputação e à imagem do Brasil. Calero também classificou como “uma irresponsabilidade quase infantil” comparar o atual momento político do país com o do golpe de 1964. O ministro que ama selfies com gatinhos afirmando que Sonia Braga, a própria representação da personalidade e da afirmação do Brasil no Exterior, conspiraria contra sua própria imagem? Equívoco abissal: não por acaso, a atriz é a principal homenageada, nesta semana, pelo Festival de Gramado, o maior do país. Mas Sonia não se avexou e enquadrou o ministro com a classe costumeira. “Como pode um ministro dizer que um ato democrático como o nosso é a representação de um país inteiro? Isso é desconhecimento do que significa plena democracia. Se estivéssemos falando em nome de todos não precisaríamos, evidentemente, fazer o ato”, ela explicou, didaticamente, para finalizar: “O ministro da Cultura ofendendo artistas é inadmissível. O senhor está nesse cargo para dialogar, para nos ajudar, para fazer a ponte com quem nos explora”. Calero parece não ter digerido bem a descompostura. Como não pode simplesmente banir o filme, o governo interino resolveu torpedeá-lo de maneiras indiretas. Até agora, como é hábito em regimes antidemocráticos, foram dois golpes baixos. O primeiro foi manobrar para dificultar que Aquarius alcance outra grande tribuna internacional e prossiga com sua denúncia. Como fazer isso? Simples: por exemplo, evitando que a produção figure entre a seleção dos filmes brasileiros candidatos à 89ª cerimônia do Oscar, prêmio da indústria de cinema norte-americana. Acontece que tudo que tem essa disposição meio cavalar não é exatamente revestido de sutileza. O jornal Folha de São Paulo notou que, entre os nove jurados escolhidos pelo atual Ministério da Cultura, figurava um notório detrator da produção, alguém que em oito ocasiões gabara-se de detestar o filme sem tê-lo assistido (o clássico “não vi e não gostei”). Mais grave: segundo o cineasta Mendonça Filho, o jurado em questão também espalhara a acusação, nas redes sociais, de que a equipe do filme, cerca de 30 profissionais, teria ido a Cannes num trem da alegria financiado pelo dinheiro público, gastando 500 euros cada um por dia. Kleber Mendonça desmontou a acusação. ”Para que fique claro, com a exceção da minha pessoa e Sonia Braga (despesas pagas pelos coprodutores franceses) e três apoios publicados em Diário Oficial da Agência Nacional de Cinema (previsto, reconhecido, oficializado para profissionais brasileiros a trabalho em grandes festivais internacionais de cinema) para integrantes da nossa equipe de produção, as mais de 30 pessoas da equipe (demais atores, técnicos, produtores) usaram seu próprio dinheiro, parcelando passagens aéreas e dividindo hospedagem”, esclareceu. O diretor aponta uma estratégia teleguiada que se destina a sabotar o filme (a presença de um detrator militante no júri do Oscar, além da suspeição natural, seria uma escolha deliberada). Apartado do mundo artístico de excelência, o governo interino estaria aprofundando seu perfil alexandrefrotista, recrutando entre arrivistas e oportunistas de ocasião os aríetes de seu macarthismo temporão – com zero preocupação na qualidade da argumentação e capacidade intelectual. O segundo golpe baixo contra Aquarius veio agora de outra instância governamental, o Ministério da Justiça. O filme, que estreia no dia 1º de setembro e pleiteava uma classificação indicativa de 16 anos, foi considerado proibitivo para menores de 18 anos por causa de cenas com “drogas” e “sexo complexo”, conforme a justificativa. A produtora Silvia Cruz, da Vitrine Filmes, recebeu com surpresa a decisão: “Eles alegam cenas de sexo e drogas, mas são cenas curtas e que não deveriam ganhar uma classificação de 18 anos. Chegamos a comparar com outros filmes, como Tatuagem (2013) e Boi Neon (2015), que possuem cenas semelhantes e foram classificados como 16 anos. No nosso caso, eles foram irredutíveis”. Aquarius tem três cenas de sexo de menos de 30 segundos, duas delas com nus frontais (masculino e feminino). Personagens fumam cigarros artesanais, mas não é possível determinar se são de maconha ou não. No caso do filme de Jean-Luc Goddard, há 30 anos, a chamada opinião pública do País não engoliu a arbitrariedade calada. Houve protestos, manifestações, pressões (o próprio ministro da Justiça da época, Fernando Lyra, mostrou-se publicamente contrariado com a censura). O barulho ajudou a sepultar um espectro: a sociedade não parecia disposta a presenciar o retorno a uma época sombria de proibições, cortes e perseguições. No carnaval do ano seguinte, 1986, o combativo bloco de rua Pacotão, de Brasília, foi às ruas municiado da marchinha “Je Vous Salue, Marly”, fazendo alusão à mulher do presidente, dona Marly Sarney. O caso de Aquarius prenuncia uma nova escalada autoritária contra o mundo cultural. Poucos artistas têm se dado conta dessa ameaça crescente, e o filme teve dois ou três defensores solitários, incluindo o próprio cineasta, a reivindicar os clássicos direitos da livre expressão e da isonomia no cenário artístico nacional. Como é uma perseguição não declarada, talvez a sociedade brasileira[+]  Também já escrevemos sobre:    Mendoncinha e Mendonção   13 de maio de 2016     Está rindo de quê?   4 de agosto de 2016     “Novo” MinC: um pouco de malandragem   28 de maio de 2016     O MinC não é mais o MinC   26 de maio de 2016

Bom-dia, cnesura

Um peixe chamado Lochte

A charge da última página de CartaCapital

#26

Fui abordado por uma ex-aluna de língua portuguesa que me contou uma história de que já não me lembrava

Na sala de aula

Em A Conexão Francesa, o combate real às drogas alimenta obsessões pessoais

Jogo de vale-tudo

Sobre crianças e cachorros

De marca

#25

#25

Alguma coisa acontece no bairro da Lapa

Varre, varre, vassourinha

O espetáculo expõe situações-limite

Consciências em curto

Elza Soares quis gritar um “fora Temer” pela fresta da festa de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro? “Garota de Ipanema”, “Aquarela do Brasil” e “País Tropical” são cartões postais sonoros inescapáveis para uma festa imodesta como esta? Anitta tem o direito de representar a música popular brasileira? O funk carioca e o tecnobrega paraense mereciam estar ali no epicentro do Maracanã como filhotes emblemáticos da histórica e gloriosa MPB? Sob indagações coletivas como essas, a música brasileira voltou ao pódio na primeira sexta-feira olímpica, recobrando por alguns minutos um canecão de uma competição tão sujeita a altos e baixos como tem sido a do “nosso” futebol. Uma série de apresentações de tirar o fôlego (protagonizadas por ícones MPB e por novos valores locais) acendeu o farol, para animar e nortear a festa. Em momento-síntese, Paulinho da Viola cantou o Hino Nacional com introspecção ímpar, como nunca antes na história deste país. Ao lado do carioca Antonio Pinto, o paulistano de 49 anos Beto Villares foi o diretor musical da cerimônia de abertura da Olimpíada brasileira, e do alto desse título fez prevalecer o título de uma festa musical 100% brasileira. Trouxe para tanto a larga experiência como compositor de trilhas sonoras para cinema (Cidade Baixa, O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias) e TV (Cidade dos Homens, Filhos do Carnaval) e produtor musical de artistas como Céu, Pato Fu, Zélia Duncan, Siba e Rodrigo Campos. Numa conversa por WhatsApp, Beto respondeu a questões como as expostas no primeiro parágrafo, entre outras tantas. E foi bonita a festa, pá. Pedro Alexandre Sanches: Qual foi exatamente sua participação na cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio? Beto Villares: Fui, junto com Antonio Pinto, o diretor musical, compositor das trilhas originais e produtor das músicas da cerimônia de abertura. PAS: Me chamou atenção imediatamente que, ao contrário do que aconteceu na abertura da Copa do Mundo do Brasil, só houve espaço para música e músicos brasileiros na abertura da Olimpíada. Como foi tomada essa decisão? BV: Foi sempre pensado assim. Embora isso não garanta nenhuma unanimidade, é uma festa de exaltação e exposição do nosso país. Não fariam sentido artistas e músicas de fora. Essa escolha veio já dos diretores, Daniela Thomas, Fernando Meirelles e Andrucha Waddington, e restou com o que eu e Antonio já achávamos melhor. PAS: Não houve pressão para inserir estrelas internacionais na festa? Eu jamais imaginei que seria possível o que aconteceu, a partir da experiência da cerimônia da Copa do Brasil com Jennifer Lopez e Pitbull. BV: Nenhuma pressão nesse sentido. A gente teve bastante liberdade, mais até do que em certas trilhas de cinema, onde os produtores interferem mais. Aqui eles deixaram a gente fazer o conteúdo. PAS: Vocês jamais pensaram em colocar uma Lady Gaga, um Ricky Martin, uma Beyoncé? BV: Não, nunca. PAS: Até faria algum sentido, em se tratando de uma festa planetária, não? BV: Acho que não. É o Brasil falando pro planeta, sobre o Brasil. PAS: Na fórmula da Copa com Jennifer Lopez, Pitbull e a brasileira Claudia Leitte entendi, usando a boa vontade, uma intenção de mostrar e integrar as Américas… BV: Entendi a vontade de fazer hits chicletes chatos. PAS: Hahahaha. BV: E outra coisa, em nenhuma Olimpíada fez-se isso, de ter artistas de fora do país-sede. Os britânicos, então, nem sabem que isso existe, rs. PAS: Teve esta diferença também, a Copa quis compor o próximo sucesso, a Olimpíada preferiu mostrar a história da música brasileira, estou certo? BV: Sim, mas nós fomos convocados em certo momento a participar de reuniões para compor algo assim, não para a abertura, mas para o evento. Mas não nos sentimos à vontade nem com vontade. Nossa proposta não levada a cabo era acharmos algum Tim Maia ou Jorge Ben Jor clássico e fazermos uma versão. Não gostamos dessa ideia de encomendar músic-hit-tema, mas aceito que tem gente que gosta e sabe até fazer. Não é a nossa praia. PAS: Ah, então é uma característica da Olimpíada se deter na cultura do país-sede? Desculpe a ignorância, não sou muito ligado no assunto. BV: Sim, é. Principalmente na abertura, que é menos show, mais dramatúrgica, mas também nas outras. PAS: Fazer um “País Tropical” em inglês, por exemplo? Seria uma pedreira, né? BV: Nem pensei nisso. O Jorge, então, nem vinha pra conversa, com um papo desses, rs. PAS: Agora tem festa de encerramento? Pode ser diferente a linha, com artistas internacionais etc.? BV: Acho que vai ser bem nacional, mas estou totalmente fora dessa. O produtor é o incrível Alê Siqueira, a diretora é do carnaval, Rosa Magalhães. Acho que vai ser bem bonito, aí é com eles. PAS: Na prática, a direção desses grandes espetáculos de abertura e encerramento ficou a cargo da Rede Globo? BV: Não! Foi do Fernando, Andrucha e Dani, contratados por Marco Balich e Abel Gomes (Balich Worldwide events e SRCOM). Eles foram os produtores executivos e criativos. Durante todo o processo tivemos toda a liberdade pra desenvolver as nossas músicas, mas eles sempre estavam acompanhando, às vezes questionando, mas sempre apoiando muito. Não houve outras interferências, a não ser nas questões mais tradicionais, do COI (Comitê Olímpico Internacional), como nos casos do hino olímpico e dos juramentos, que são momentos menos artísticos e mais protocolares, e não tivemos a mesma liberdade, de, por exemplo, fazermos algo como fizemos com o Hino Nacional. Mas, mesmo assim, a música da entrada da bandeira olímpica é nossa, e na dos aros olímpicos e da pira a gente fez o que quis. Eu não imaginava que ia ser assim, antes. Esses são os momentos mais simbólicos, e foi com a cara que a gente quis, sem fanfarras sinfônicas. Gosto também delas, mas a gente prefere fazer com a nossa cara. PAS: Como foram imaginados a dramaturgia da cerimônia e o encaixe da música nela? BV: Foram feitos em mais de um ano de trabalho, conversas, reuniões entre eu, Antonio e o trio de diretores. Muitos estudos, tentativas, ideias que vingaram e outras que não. Como qualquer processo criativo e coletivo. Porém com mais incertezas, pois tudo se define mais pro final, e isso é bem desgastante. Mas faz parte, pelo que pude aprender.   PAS: Qual era a ideia sua e do Antonio, quanto à linha musical a ser seguida? BV: Não ser pomposo nem grandiloquente demais. Ser brasileiro, o máximo possível. Por exemplo, no acendimento[+]  Também já escrevemos sobre:    O idioma da fresta   8 de agosto de 2016     Elza Soares contra os homens   6 de agosto de 2016     Recuso + aceito = receito (*)   17 de abril de 2014     Walter Franco (ou não)   19 de agosto de 2013

Para nortear a festa

Voluntários aprontam circo social em regiões de conflito

Palhaçaria neles

Em poucos dias de Olimpíadas no Rio de Janeiro, a mídia internacional já exibe perplexidade e incômodo frente ao comportamento das torcedoras brasileiras nas arenas de competição. É o que expõe na manhã da primeira segunda-feira olímpica, por exemplo, uma reportagem da filial local da BBC (British Broadcast Corporation, a TV pública/estatal inglesa, não uma Rede Globo, mas uma TV Brasil à maneira Brexit). De fato, o Brasil não é de fácil decifração para quem não nasceu aqui, nem mesmo para quem nascemos. É pouco provável que o planeta já tenha ouvido falar de modo maciço sobre a “linguagem da fresta“, essa nossa criação indígena de guerrilha contra a institucionalização da violência pelo chamado “Estado”. Trata-se de um hábito ancestral reinventado e consagrado pela música popular brasileira, a (im)popular MPB, nos tempos do golpe de estado anterior, da ditadura civil-militar de 1964. A linguagem da fresta, ou da brecha, fez a glória de nomes como Chico Buarque nos anos 1970, quando a repressão militar comia a sociedade à solta (sob graus relativos de aprovação pela própria sociedade que era comida primeiramente). Chico é bem menos popular em termos planetários que seus parças MPB Caetano Veloso e Gilberto Gil, mas todos foram, em maior ou menor grau, useiros e vezeiros da linguagem da fresta contra a violência institucionalizada. Os livros de história contam, com ou sem partido. Caetano colocou as anteninhas zeitgeist de fora no bastidor da festa de abertura dos Olympics (nada diante dos bilhões de espectadores e da sestrosa Anitta). Mas quem transbordou na linguagem da fresta, cara a cara com o planeta, foi Elza Soares, dona até aqui do maior – e menos explícito – “fora Temer“ da história da humanidade. Viúva de Mané Garrincha, Elza deu o pontapé inicial, em tempos de novo golpe de estado e de neo-ditadura civil-militarizada, para a ressurreição do drible da brecha. A população vem quicando a bola, com maior ou menor elegância, para espanto e perplexidade da mídia planetária – e silêncio ensurdecedor da cada dia mais constrangida mídia golpista local. Exemplos divertidos abundam na reportagem da BBC, a começar pelo escracho anti-racista na goleira azulvermelha dos Estados Unidos da América, zicada de fio a pavio pelas primas pobres verdamarelas. Mesmo sob repressão pesada (e ilegal) em mergulho sincronizado operado pelo governo Michel Temer, pelo comitê organizador internacional (o COI, Comitê Olímpico Internacional) e pela Rede Globo, os protestos antigolpe se espalham e causam ruído na festa de suposta harmonia mundial. Brecha por tocha, o momento histórico atual se comunica com o nascedouro-e-auge da dita MPB que acendeu a chama e abriu a fresta: o ambiente dos festivais da canção dos anos 1960 e 1970. O idioma da vaia precedeu o da brecha. Uma população que havia sido cassada em seu direito de votar via a repressão intumescer dia após dia. Desprovida de voto, vaiava, vaiava, vaiava, como se não houvesse amanhã. Eleições já canceladas, o Ato Institucional número 5 de 13 de dezembro de 1968 arrematou o golpe da vez e extirpou o direito à vaia. A era dos festivais rastejou feito cobra pelo chão, agora na tela ditatorial da patrocinadora oficial de golpes, a proto-estadunidense Rede Globo. O FIC (Festival Internacional da Canção) seguiu como arena, palco e alcova para espetáculos cruzados de luta de resistência e de repressão, como bem sabem os livros de história, o finado Wilson Simonal e o ainda vivo Toni Tornado. As mulheres permaneceram na cozinha (Maria Alcina à parte), e o racismo foi troféu e pedra de toque para a elite loura de então: (quase) nada de novo no front. Nas frestas e brechas abertas pelos livros de história às boas entendedoras, as arenas olímpicas de 2016 evocam os festivais internacional da canção da então emergente Globo. Se é certo que a história não se repete a não ser como farsa, temos de aguardar todas e quaisquer surpresas do futuro próximo. Mas já sabemos que, hoje como ontem, a primeira reação popular brasileira diante do voto cassado vem em forma de vaia, de escracho, de picardia macunaímica. Metralhadoras e fuzis à parte, as torcedoras estão todas soltas.  Também já escrevemos sobre:    Elza Soares contra os homens   6 de agosto de 2016     2016 versus 1964   13 de abril de 2016     O esquecimento do presente   30 de junho de 2016     Procure saber. Saber o quê?   16 de outubro de 2013

O idioma da fresta

Os versos são de Vinicius de Moraes, o poetinha ex-diplomata que nunca chegou a ser o mais progressista dos brasileiros. A música é de Baden Powell, que no final da vida extirpou a palavra “saravá” de suas canções e substituiu os antigos cantos de candomblé pela religião evangélica. Transtornado por Elza Soares, o “Canto de Ossanha” (1966) de Baden e Vinicius constituiu-se, para boas entendedoras, no grande momento político da cerimônia planetária de abertura das tristes Olimpíadas do Rio de Janeiro. Foi um recado explícito, cortante e 100% feminino ao “macho” traidor Michel Temer, a grande estrela negativa da noite universal. “Coitado do homem que cai no canto de Ossanha traidor“, cantou Elza em meio ao espetáculo de despolitização transnacional, com ênfase aberta, indignada, às sílabas do (des)qualificativo traidor. Obra de gênio, de gênia. O homem que diz “sou” não é. Porque quem é mesmo é “não sou”. O homem que diz “tô” não tá. Porque ninguém tá quando quer. Para filtrar tais versos e trazê-los a 2016 é necessário apenas ser boa entendedora, bom entendedor. É necessário apenas não ser robô. Brasileiras devotas da democracia assistimos atarantadas à escalada de repressão testada nas Olimpíadas do Brasil. Tropas de choque avançam sobre o Rio de Janeiro e São Paulo para calar o “fora Temer“. A lei dos homens olímpicos faz de tudo para escorraçar a política das arenas esportivas. Policiais militares transgridem ínfimas leis para oprimir professoras que desejam se manifestar em arena contra o golpe de estado em curso. A cerimônia transcorre apática, dirigida à política do anódino, obediente à blitzkrieg endoidecida para preservar a “integridade” do golpe. Fracos diante da máquina de moer sonhos, esportistas e artistas se movem como o grande rebanho big brother aboiado pela Rede Globo aqui no país tropical abençoado pelo golpe. Até que Elza adentra a arena, já bastante machucada pelo tempo e pela violência cotidiana disparada preferencialmente contra as carnes mais baratas do mercado branco. Sentada impávida rodeada por três jovens mulheres de carne negra e cabelos black power, Elza não faz nada mais, nada menos que ressuscitar o “Canto de Ossanha” de 1966, ano 2 da ditadura civil-militar de 1964. Irmã preta da “Maria Moita” (1964) de Nara Leão (e Vinicius e Carlos Lyra), Elza devolve a voz à voz feminina que foi suprimida da “grande” “festa” dos “homens” “atléticos”: Dilma Rousseff. “Amigo sinhô, saravá, Xangô me mandou lhe dizer/ se é canto de Ossanha não vá, que muito vai se arrepender/ pergunte pro seu Orixá, o amor só é bom se doer”, avisa Elza, a mandinga feminina resplandescente contra as ditaduras masculinas onde tudo o mais ensaia se calar. O preço da traição será enorme para todos os pactuares do corte, adverte a mandingueira soberana. O semblante de Temer, sombrio por inúmeros motivos, é a prova viva de que a melhor de todas as cartas abertas chegou a seu destinatário. Nem precisávamos mais das vaias.   (p.s.: Todas nós, brasileiras que precisamos de democracia, temos um grito uníssono de celebração para acalentar o triste início dos Jogos da Exclusão e da Vergonha: viva Elza Soares!)    Também já escrevemos sobre:    Rádio farofa: a universidade popular   11 de junho de 2014     Meu primeiro discurso   18 de maio de 2016     E vai rolar a festa cristã   2 de dezembro de 2015     Um deus de sal   30 de abril de 2015

Elza contra os homens

É sabido que japonês é o povo que mais entende de café no planeta

Café é com japonês

#24

#24

Você acha que morreria se não pudesse mais escrever, sua vida perderia o sentido sem a escrita? Então escreva

Recado a um jovem escritor

Não tenho a menor saudade de um tempo onde não havia respeito

Adeus, mundo cruel!

#23

#23

Jotabê Medeiros analisa a gestão do sorridente ministro interino da Cultura, que só saiu uma vez do gabinete e foi para a Turquia em dia de golpe de Estado O ministro interino da Cultura, Marcelo Calero, escreveu artigo em O Globo no último dia 31. Eu li hoje. Faz inicialmente um balanço pestilento da pasta, até aí normal. Então ele escreve: “Ao chegarmos ao MinC, apresentamos esse cenário caótico ao presidente Temer que, imediatamente, se sensibilizou”. Vejo que, com frequência, os políticos apostam na memória curta dos cidadãos. Mas ainda não tinha visto apostarem em uma memória tão curta. Senão, vejamos: Calero não chegou ao MinC, o ministério tinha sido extinto. Ficou 12 dias desativado em maio (um desperdício de R$ 13 milhões), o que talvez demonstre o assombroso nível de “imediata” sensibilidade que o vice-presidente em exercício demonstre pelo setor. O ministério só foi recriado por conta da massiva manifestação de artistas de todo o País, um espectro que envolveu de Fernanda Montenegro a Caetano Veloso, passando por Erasmo Carlos (figura que, tradicionalmente, não se envolve em política). Manifestações pacíficas envolveram milhares de artistas e produtores. Calero chegou todo sorridente, indicado pelo olímpico prefeito Eduardo Paes, a alguma coisa que àquela altura substituiria o MinC, uma secretaria de segundo escalão. Mas ele tampouco foi uma escolha prioritária: 6 mulheres, antes dele, foram convidadas para o cargo e polidamente recusaram, considerando que houvera negligência do atual governo em relação à presença das mulheres no primeiro escalão e que não preencheriam uma cota por mero oportunismo publicitário. Primordialmente, o que distingue Calero das gestões que o precederam é, até agora, uma característica evidente: ele não saiu do gabinete a não ser para uma extemporânea visita à Turquia – curiosamente, em dia de cabalístico golpe de Estado. Não recebe, não se reúne e nem participa de fóruns públicos de artistas, parece não ter uma agenda externa e demonstra certa alergia ao debate público. Circula em ambientes controlados. “Queremos dialogar com todos os segmentos, dos que se dedicam ao fazimento cultural local até a indústria de ponta”, escreveu o mesmo sujeito que promoveu uma violenta reintegração de posse no Palácio Gustavo Capanema (foto acima), soltando a polícia em cima de uma intervenção artístico-ativista que ele mesmo tinha elogiado como criativa e vigorosa. Não é possível distinguir, nos textos e entrevistas de Calero até o momento, algum insight de formulação de política cultural. No MinC, tem se dedicado a alguma espécie de exorcismo político. Demitiu todo mundo na Cinemateca Brasileira, mas recuou dias depois após ser revelado que o nome que escolhera para dirigi-la tinha um histórico de estelionato. Demitiu 88 pessoas no ministério, acusando “aparelhamento” – e parece que boa parte estava lá havia mais de 15 anos. Nem precisava da justificativa política, já que algumas secretarias ele nem ativou em três meses de trabalho, caso da SPOA (Planejamento, Orçamento e Administração). Outras áreas ele dinamitou, como a do Livro e Leitura. Outra coisa que certamente o diferencia é que agora tem dinheiro. As verbas que não chegavam nunca finalmente chegaram até ele. Curioso, já que o Ministério da Cultura estava extinto justamente para economizar e tornar o Estado mais enxuto, menos dispendioso. Era supérfluo, subitamente tornou-se opulento (assim como o que era defeito subitamente virou qualidade na política econômica). A situação política é tensa, há uma evidente crise de autoridade no País, as instituições estão em frangalhos, parecem tuteladas por um sombrio pacto de varrição para debaixo do tapete. Mas as pessoas têm que seguir a vida. Os produtores culturais que têm um relacionamento mais estreito com o Estado precisam manter contato com o MinC de Calero. O que assusta é que o atual gestor, com seu farolete burocrático (no afã de “reconfigurar modelos de gestão”) e a vaidade revanchista, demonstra acreditar que não é somente um agente do Estado brasileiro (em última instância um instrumento a serviço do bem-estar da coletividade), mas seu tutor privilegiado e sua própria finalidade. * Publicado originalmente em El Pájaro que Come Piedras  Também já escrevemos sobre:    “Novo” MinC: um pouco de malandragem   28 de maio de 2016     O MinC não é mais o MinC   26 de maio de 2016     Ministério x Secretaria   20 de maio de 2016     A mulher que disse ‘não’ a Temer   16 de maio de 2016

Está rindo de quê?

Atualidade da peça no contexto brasileiro vem da mofa com que shakespeare trata governantes

A torpeza dos heróis