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Últimos artigos de Cultura

O que fazer quando o garçom diz que a sugestão do dia é cair fora?

Delírios gastronômicos

O instrumento brasileiro toca na Orquestra de Piazza Vittorio, desde 2002 sucesso mundial

Um cavaquinho seduz Carmen

Tentei durante anos imitar a caligrafia, a organização e a habilidade do meu pai em descascar a laranja. Desisti. Do resto herdei quase tudo

Tal pai, tal filho

A partir do dia 10 de fevereiro, não teremos mais jornal em casa

Quarta-Feira de Cinzas

Entre os próximos dias 6 a 9 de fevereiro, isto é, durante o carnaval, o Cais da Alfândega, no Recife (PE), sedia a 21ª. edição do Rec-Beat, um dos mais longevos festivais de música do Brasil. Antonio “Gutie” Gutierrez sentiu a ameaça de, pela primeira vez em duas décadas, o festival não acontecer, e foi à luta: lançou uma campanha de financiamento coletivo, visando manter o nível das atrações – embora o festival seja um pouco menor em 2016 – e a gratuidade do evento. “Vamos fazer juntos o festival” é o slogan da campanha, que pretende arrecadar R$ 200 mil até o dia do início do Rec-Beat, que ao longo de duas décadas sempre primou por inovação e qualidade em sua programação. As recompensas pelas doações (clique aqui para colaborar) variam de brindes personalizados até ingressos para outros festivais brasileiros, além da coautoria da realização desta edição. Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo, com alguns Rec-Beat no currículo, entre bandas como Comadre Fulozinha e Eddie, além de em carreira solo, Karina Buhr assina a arte do pôster deste ano. De acordo com Gutie, a crise financeira em que mergulhou o país gerou cortes de até 50% do patrocínio, de “um valor que já não era tão expressivo”, segundo o produtor. Para termos uma ideia, prefeituras de três municípios maranhenses já anunciaram a não realização de um circuito oficial (leia-se: estatal) do carnaval este ano – Coelho Neto, Pedreiras e Santa Inês –, de acordo com informações do jornal O Imparcial. Gutie conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos. Zema Ribeiro: O que houve ao longo dos anos com o financiamento do Rec-Beat? Antonio Gutierrez: No inicio, por três edições, o Rec-Beat foi realizado em Olinda, na área interna de um casarão, o Centro Luiz Freire. Aí havia cobrança de ingressos, um preço simbólico, suficiente para cobrir os custos, que não eram altos porque ainda era o início do projeto e tudo era feito mais como uma diversão, com uma estrutura bem simples. Em 1999 fomos convidados pela Secretaria de Cultura do Recife para levar o Rec-Beat para o bairro do Recife, sítio histórico da cidade. O objetivo era o festival ser uma âncora para o público jovem de um projeto de fomento do carnaval no bairro, ainda muito incipiente. A partir daí o festival passou a receber patrocínio da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR) e também se tornou gratuito, como é até hoje. A gratuidade é um ponto-chave do festival e tem o lado bom e o lado ruim. O bom é que dá uma grande liberdade para se fazer uma programação mais ousada, pautada em novidades, em coisas mais experimentais que ainda não estão inseridas no grande mercado, ou seja, não precisamos escalar nomes do mainstream para atrair público pagante, uma vez que a gente não vende ingresso. A gratuidade permite que o público tome contato com bandas desconhecidas, ou pouco conhecidas, que certamente ele não pagaria pra ver se não estivessem ali, na rua, sem custo para ele. O lado ruim é que o festival perde uma fonte de receita, ou seja, não pode contar com recursos de venda de ingressos para cobrir seus custos e passa a depender, dessa forma, exclusivamente de patrocinadores e apoiadores. O Rec-Beat cresceu muito, ao longo dos anos, mas o patrocínio oficial não acompanhou a evolução dos custos de realização do evento. Além disso, o Rec-Beat sofre uma limitação para captar recursos junto à iniciativa privada, tendo em vista que a prefeitura já tem acordos com grandes patrocinadores que impedem o festival de captar recursos desses mesmos patrocinadores ou de concorrentes do patrocinador oficial, como cervejarias, por exemplo. Com o agravamento da crise financeira do país este ano e um corte do patrocínio da ordem de 50%, de um valor que já não era tão expressivo, fomos em busca de saídas para manter o festival no nível conquistado, principalmente no que se refere ao conteúdo artístico, conceitual, e a gratuidade. Foi aí que abrimos várias frentes, e uma delas foi a tentativa do financiamento coletivo. ZR: Muitos artistas têm recorrido ao financiamento coletivo para a realização de trabalhos artísticos (filmes, livros, CDs, DVDs, exposições etc.). O Rec-Beat parece ser pioneiro para a realização de um festival. O crowdfunding é “o” caminho, hoje? AG: Creio que somos pioneiros nisso, até agora não vi nenhum festival independente recorrer a esse mecanismo para levantar recursos. Pra gente é uma incógnita, não sabemos onde vai dar. A gente vê vários projetos de CDs, livros, filmes alcançando êxito. Mas não temos uma referencia de projeto para festival. Certamente com esta experiência vamos poder aprimorar a estratégia, avaliar os acertos e erros, caso a gente venha a fazer no próximo ano. Neste momento que estou respondendo a essa sua pergunta o que posso dizer é que o fluxo de adesão à campanha ainda não decolou, mas ainda faltam alguns dias para o encerramento. Mesmo assim eu acho que o crowdfunding pode vir a ser uma boa opção para o financiamento de festivais como o Rec-Beat. ZR: O momento por que passa o já tradicional festival é reflexo da crise que atravessa o país? AG: Acho que reflete a crise econômica e também a falta de discernimento em enfrentá-la. Quando você sofre restrição econômica, você tem que adotar um critério para reduzir seus custos de modo a manter o que é importante e vai te dar retorno e eliminar o que é supérfluo e só vai lhe trazer mais despesas. Eu não tenho dúvida de que o Rec-Beat traz um imenso retorno para o patrocinador, para o público, para a música independente, para a nova música brasileira, para a nova música latino-americana, para a tradição do carnaval pernambucano. O festival traz público. O festival contribui como destino turístico, para o fluxo de renda. Ano passado, e este ano também, o Rec-Beat entrou na agenda de três revistas de bordo de empresas aéreas colocando o evento como destino no carnaval, sem contar o destaque que recebe em vários veículos da imprensa nacional. A mídia espontânea gerada[+]  Também já escrevemos sobre:    Festival Casarão, 15 anos de muita luta   26 de maio de 2014     Festival Casarão, a adaptação e a celebração   4 de junho de 2014     A polêmica sobre o show do Ratos de Porão na Venezuela   30 de setembro de 2015     Um festival para a música brasileira jovem   16 de março de 2014

Rec-Beat apesar da crise

A celebração dos 462 anos de São Paulo evidenciou um confronto de mentalidades nas ruas da cidade

O choque está nas ruas

Num sábado meu amigo Wladyr Nader me disse: 'Vou te apresentar o Marcos Rey'

Cara de tacho

Gostei do termo “aquilo”, pois é algo próximo disso que encontrei após uma década de alegrias, muitas delas descritas aqui nesta revista

Escola do quê, mesmo?

Quem diria, elas foram parar na primeira página do jornal

Galinhas d’Angola

Versão restaurada de Oito e Meio traz as sombras da criação de Fellini

O lugar do sonho

Lançamentos relatam a luta para preservar tradições como o batuque de umbigada, o bumba meu boi e a música caipira

Uma crônica do Brasil

A arte de David Bowie caminhou por máscaras e enigmas

O que dizem seus olhos

As investigações do escândalo sexual que abalou a Igreja

Bons bostonianos

Sobre o ressentimento

O Estado que deixou de ser apenas motivo de chacota

Piauí

Profunda experiência musical envolve as palavras de fogo do pregador lisboeta

Céus e infernos de Vieira

Diálogo entre música eletrônica e violino em tempo real

Presente duplo para Boulez

Como uma figura de ficção pôde explicitar  tão bem o desassosego na senzala

Eu sou Jéssica

Quem é ela? O que faz? Como vive? Quais são seus sonhos? Não sei

Minha amiga vietnamita

texto e fotos: Cilmara Bedaque e divulgação FESTA CIGANA PAULISTA No mundo cervejeiro produtores que fazem suas receitas alugando fábricas são chamados de ciganos. Os ciganos paulistas se juntaram num grupo auto-denominado Cartel Cigano na brincadeira e vontade de fazer pressão. E pressão e cerveja é boa coisa ;) Dia 16 de janeiro, onze cervejarias […]

E começou 2016…

Vocês já ouviram falar em lixo rico? Somos os campeões. Nosso lixo faria a fartura de um Haiti

Campeonato do desperdício

Ruivo em Sangue, terceiro álbum de Gui Amabis, sublima nova aproximação com Portugal em música

Arquiteto de atmosferas

O vocalista Paulão anuncia a última turnê da Velhas Virgens, 
a maior banda independente do Brasil

Roqueiro de pijama

Não me lembro de ter ido a um restaurante e ter saído feliz, compensado

O porquê do Papinho

No ano do centenário de nascimento de Orson Welles, a Versátil lança versão de O Processo, entre outras obras capitais

Senhor Cinema

Vocês já perceberam como é engraçado o sistema bancário brasileiro? Não sei se isso é universal, mas acho que não

Socorro!

“Quem Tem Medo de Música Caipira?”, pergunta o título de uma canção de 1972 do músico fluminense Ruy Maurity. Integrante do LP Em Busca do Ouro, creditado a Ruy Maurity & Trio, a moda de viola pós-moderna participava da movimentação que ficaria conhecida como rock rural e atacava um tabu que o Brasil não estava preparado para enfrentar – talvez não esteja ainda hoje, 43 anos mais tarde. Ouço “Quem Tem Medo de Música Caipira?” e outras MPBs de Ruy dentro do ônibus, na estrada que liga Asunción, no Paraguay, a Foz do Iguaçu, no Paraná, durante a expedição íntima que faço às minha próprias origens de brasileiro paranaense alourado filho de mãe mestiça gaúcha e pai índio catarinense nascido no leito da Guerra do Contestado (o que diabos foi isso?, que nunca estudei na escola?). Estou no meu fone de ouvidos, mas, um banco atrás, um casal de paraguayos ouve seu radinho a todo volume, incomodando o resto do ônibus (cultura incomoda?). Brigo com os sons deles ouvindo intimamente Almir Sater, Tonico & Tinoco, Tetê Espíndola, Tião Carreiro, Renato Teixeira, Cascatinha & Inhana, Sérgio Reis, Pedro Bento & Zé da Estrada, Perla (a única artista legitimamente paraguaya que conheço). De repente, me dou conta de que a riqueza do momento se encontra no radinho do casal paraguayo ao lado, muito mais que nos sons que eu já conheço de cor e salteado. Desligo “Quem Tem Medo de Música Caipira?” etc. e tento ouvir – e entender – o que os companheiros de viagem estão ouvindo. Rola muito daquilo que eu chamaria de sertanejo universitário em castelhano – eu gosto (e sou suspeito para falar, porque gosto à beça dos sons de sanfona do meu conterrâneo Michel Teló e aparentados). Rola uma espécie de tecnobrega paraense também em castelhano (gosto!) – me volta à mente o termo “retrocumbia”, que li num cartaz de baile durante o trajeto Foz-Asunción, de passagem por alguma cidade do interior florestoso do Paraguay (como é florestal o interior paraguayo!), antes de o ônibus passar perto do lago azul de Ypacaray. Será que isso é retrocumbia? Eu gosto. Rola – surpresa! – um funk brasileiro em português que fala de “perereca” e de “novinhas”. Rola – surpresa máxima! – uma versão de “É o Amor” (1991), de Zezé di Camargo & Luciano, cantada em português, mas com forte sotaque castelhano, paraguayo, portunhol, brasiguayo, espanhol ou seja lá o que for. O casal canta junto, apaixonadamente. Rolam lágrimas dos meus olhos mortos de medo de música caipira. “Quem tem medo de música caipira?”, a esta altura, soa como uma pergunta antiga. Tenho vontade de sair correndo pelado pelas florestas do Alto Paraná, gritando-perguntando por que, por que (por quê???) temos (tenho) tanto medo da música caipira. A resposta me assombra há anos, e é tão evidente nesse trajeto que passa pelos guaranis paraguayos e passará pelos kaingang e xokleng e botocudos e xapecós das terras banhadas pelo rio Uruguai (divisa SC-RS) onde nasceu seu Zé meu pai (1929-2013). Temos medo, pânico, terror da música caipira (sertaneja, sertaneja universitária, tecnobrega, axé, forrozeira, lambadeira, vanerona etc. etc. etc.) porque precisamos conservar oculto no fundo de nós o sangue indígena que corre dentro de nossos corpos. Temos medo da música caipirossertaneja (bom dia, Luiz Gonzaga!, boa tarde, Teixeirinha!, boa noite, Inezita Barroso!) porque ela é a voz lamentosa dos índios brasileiros que se encontrou com as violas portuguesas que violaram as índias e os índios brasileiras no processo de estupro culturalmente conhecido como (………coloque seu próprio apelido no estupro………..). Ninguém gostamos de lembrar que somos todos filhos de um (de muitos) estupro(s). Mas o recalcado, menina, ele sempre volta, ele sempre volta e nos pega pelo pé. Tudo é música caipira e sertaneja e cabocla e indígena entre a rodoviária do Tietê e as cataratas do rio Iguaçu (uma das sete maravilhas do mundo de propriedade de nosotros índios da Tríplice Fronteira Argentina-Brasil-Paraguay embora finjamos que tais maravilhas nem nos pertencem). Percebo isso agudamente no Parque das Aves, anexo ao lado brasileiro do Parque Nacional das Cataratas (instituído em 1939 pelo gaúcho Getúlio Vargas, o único ditador de pendores direitistas que a elite bandeirante paulista e seus acólitos odeiam). Ali, a primeira canção que ouço ao longe é a trans-paraguaya “Índia”, numa versão em português que não é nem dos paulistas Cascatinha & Inhana nem do capixaba Paulo Sérgio nem da baiana Gal Costa nem da paraguaya Perla. A propósito, existe alguma canção mais linda que “Índia” no planeta Terra? Em Caçador (SC), cidadela do Contestado onde meus pais se casaram em 1954, ouço funk brasileiro bombando dos soundsystems dos automóveis. Na rodovia que passa por Pato Branco, Mariópolis e Palmas (PR) antes de chegar nas terras evangelizadas de Santa Catarina, ouço em meu fone interno Roberto Carlos, Roberto Carlos, Roberto Carlos: “Minha Tia” (1976), “Lady Laura” (1978), “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo” (1979), “A Guerra dos Meninos” (1980), o suprassumo da música caipira sertaneja indígena capixaba do Robertão. Já imaginou Roberto secundado por harpas paraguayas?, eu já. Existe a versão de “Índia” por Roberto, uma interpretação tão resistente como uma mula empacada – mas existe. Roberto Carlos nasceu em Cachoeiro do Itapemirim (ES), em meio às índias capixabas naraleão. Nasceu, Roberto Índio do Brasil, em 19 de abril: dia do índio, dia do nascimento do ditador Getúlio Vargas.   Ruy Maurity segue zumbizando em meus ouvidos. Quem tem medo da música caipira? Quem tem medo dos índios brasileiros? Quem temos medo de nós mesmos? Quem temos medo do Brasil? Por que sempre tivemos tanto medo de nós mesmos?    Também já escrevemos sobre:    Rap tupi-guarani   11 de setembro de 2013     Existe sertanejofobia em SP   26 de junho de 2015     Tchu-tchu, pra subir de vida…   16 de agosto de 2013     Rádio Farofa: negros como as noites que não têm luar   6 de dezembro de 2013

Quem tem medo do Brasil?

”Sinatra: O chefão”, segundo tomo da biografia, expõe as idiossincrasias do cantor que completaria 100 anos

Uma voz sem caráter

A história acompanha a geometria pelo acervo do Foto Cine Clube Bandeirante

Um elogio à linha

Foi um detalhista das paisagens e do silêncio, abrasador ao encenar a aventura, a história e as paixões.

A aventura incandescente

Fascinada por cemitérios, Clarissa Grassi investe em roteiros culturais pelas lápides

Ao pó voltarás

A melhor parte da cidade? Sem dúvidas, a cachaça

Paraty para o mundo

A paixão, segundo um juiz de futebol

Bola Nossa

Quando o detentor de um direito se torna arrogante e a lei não atinge seu objetivo

Somos civilizados

Centro Cultural Correios traz 120 obras sobre o Rio de Janeiro de Debret

A alma terrível das ruas

Daniela Moreau pesquisa a fotografia pioneira de Fortier

Sonhar a África

Charles Cosac fecha a editora, desinteressado de seu atual perfil

CosacNaify: meu mundo caiu

Aos 79 anos, Patativa, pérola da velha-guarda maranhense, grava primeiro CD

Samba na veia

Recentemente, voltei a um tempo que muitos nem sabem que existiu

Caminhando e cantando

As anotações numa velha caderneta "Clairefontaine" ainda pulsam

Memórias do exílio

Bond, de novo em ação, acrescentou testosterona ao coquetel

O drinque nº 1

Rogério de Campos contesta a origem das HQs e reúne raras histórias pioneiras publicadas até o século XIX

A arte esquecida

A sociedade é que nos prepara para a vida. O homem é um ser social e não adianta espernear

Somos todos inúteis

Como começou a paixão por um time que agora volta à elite do futebol brasileiro

Vai, Coelho!

Interromper um debate para se autopromover não é só falta de respeito com o autor convidado, mas também uma forma de mostrar deficiência cultural

Café filosófico

No Brasil, há quem não a julgue suficientemente “brasileira”. 
Mas foi ela quem levou à passarela aquele nosso jeito sexy de ser

20 x Gisele

O dia em que uma bomba explodiu em Paris, ao meu lado

Um Cheiro de Goiaba

Seis filmes de Mario Monicelli ensinam a arte da comédia

Sem dó nem piedade

Trilha no Parque Grande Sertão Veredas recria o universo onírico de Guimarães Rosa

Siga Riobaldo

Aos 71 anos, a atriz Geraldine Chaplin atribui à sorte sua carreira bem-sucedida em mais de uma centena de filmes

Tudo pode dar certo

Dois ícones de gerações diferentes. E novas revelações sobre o estofo humano de que são feitos os ídolos

Brando x Bogart

Novas palavras e expressões surgem a cada dia, numa velocidade estonteante

O que pode esta língua?

Como a arte retratou as aventuras e agruras das cortesãs francesas do Segundo Império e da belle époque

A vida na horizontal

O Masp exibe 78 peças demonstrativas da Rhodia

Para vestir a arte

O trio da morte: bacon, amianto e plutônio

O porco assassino

Acho que todos nós tentamos algum tipo de imitação na frente do espelho para não fazer isso na frente de testemunhas

Taquara rachada

Esta coluna é de Lia Bock, jornalista, autora do livro 'Manual do Mimimi' e do blog 'Eu Lia, Tu Lias', como parte do movimento #AgoraÉqueSãoElas

Tipo homem

Uma coletânea de versos e dois lançamentos cinematográficos reverenciam Pasolini nos 40 anos de sua morte

Furor angelical

Nelsinho não é Lula, não

Xerox, pinturas e heliografias narram o combate de León Ferrari

Vigiar e punir

Depois de nos termos tornado partidários do individualismo, não existe mais solução

Cada um por si

O dia em que fui pra ilha com Chico Buarque e Maria Bethânia

Mamãe, eu fui a Cuba

Eles estão apanhando mais da realidade do que dos vilões

Super-heróis no divã

Destaque da Mostra SP, filme vencedor em Cannes investiga a construção das relações familiares para além de estatutos e definições

Parece uma família. E é

Um jeito diferente de ser masculino brota da música desse e de outros rapazes que fazem música no Brasil de 2015

Orgulho masculino

O Mentor Muniz é celebridade nas redes sociais

Bombou no Face

Em viagem pela Bahia, Monteiro Lobato viu bois sedentos que bufavam para uma lagoa sem beber sua água. A lagoa era Petróleo e ali nascia a Petrobras

Terra em chamas

O ano em que a música era tudo para todos nós

1989

A Mostra Internacional de São Paulo dribla a crise para apresentar as desilusões contemporâneas

O seu lugar no mundo

Retrospectiva com 125 obras debate o legado de Godard

Um elogio à linguagem

Em suas fotos assemelhadas à pintura, Alice Brill devolveu dignidade aos excluídos e à arquitetura da metrópole

No silêncio da cidade

Sobre a valorização do quiabo e do chuchu, enquanto produtos de ponta

Chuchu chic

Um tributo ao mais belo veleiro do litoral brasileiro

Sempre Atrevida

Tragédia anunciada

Quem tem saudade de agendas, daquelas agendas de papel?

Agenda 2016

Se tivesse sido escrito décadas atrás, o artigo de Vladimir Safatle sobre rebaixamento cultural poderia ser usado contra o samba urbano

Resposta a Vlad, o Moderno

Ultimamente, os brasileiros só não reclamam de uma coisa

Reclamações Aqui

Todos agora querem ser engraçados, coisa que antigamente era exclusividade de certas profissões

Das palhaçadas

Nome mais cintilante da nova geração de cantores de jazz, José James revela que Michael Jackson e Prince foram decisivamente influentes em sua música; ele chega a Mangaratiba e São Paulo no fim do mês e falou com exclusividade para Jotabê Medeiros Cantores masculinos novos de jazz você pode contar nos dedos de uma única mão. Mas, no indicador, certamente deverá colocar o nome de José James, 37 anos, o mais moderno e refinado vocalista da atualidade. O nome José diz respeito à sua origem (a família é meio panamenha, meio irlandesa), mas a latinidade termina aí. Ele nunca gravou bossa nova (só conhece João Gilberto) e é natural de Minnesota, Estados Unidos. Também compositor e bandleader, James tornou-se ainda mais distinto dos colegas de geração ao decidir regravar este ano o repertório de uma das mais notáveis cantoras de jazz do passado: Billie Holiday, para a qual fez o tributo “Yesterday I Had the Blues”. Cassandra Wilson também fez isso, com “Coming Forth by Day”, mas não foi surpreendente. Nove antenas do repertório de Billie foram revisitadas por James (com produção do presidente da gravadora Blue Note, o notável Don Was) e uma banda que não poderia ser mais estelar: o pianista Jason Moran, o baixista John Patitucci e o baterista Eric Harland. A voz enfumaçada de barítono, a atitude hip-hop, a elegância blasé: é esse show de José James que desembarca no dia 28 de outubro no Bourbon Street (e no novíssimo festival de Mangaratiba, entre 23 a 25). O vocalista debulha as canções de Lady Day, como “God Bless the Child”, “Fine and Mellow”, “Good Morning Heartache” (com enxertos de diamantes de Al Green e Bill Withers). James falou com exclusividade a El Pajaro que Come Piedra nesta segunda-feira, por telefone. Jotabê Medeiros – Entre cantores novos de jazz, só consigo lembrar de Gregory Porter e você. Por que há tão poucas vozes de homens no gênero hoje em dia? José James – Acho que sempre foi assim, as mulheres sempre dominaram a cena do jazz. Os homens nunca foram maioria. Houve sempre alguns de tempos em tempos, como Nat King Cole, Louis Armstrong, mas nunca eram mais que um punhado. JM – E você regravou Billie Holiday, um símbolo da condição feminina. Por que decidiu gravar a canção “Strange Fruit” a capella, sem acompanhamento, como um spiritual? JJ – Bom, primeiro era importante incluir “Strange Fruit” porque era um manifesto político de Billie, é uma mensagem muito forte. Mas inclui-la significava buscar um jeito de fazer diferente, porque não podia ser trivial. Ela cantou também sozinha, acompanhada apenas de um pianista. Cantá-la sem acompanhamento, com outro tipo de recurso, foi um jeito que encontrei de capturar a emoção e apresentar de um jeito novo ao mesmo tempo. É difícil fazer algo novo com uma canção que é tão antiga, tão influente e que faz parte das convicções e da vida de tantas pessoas. JM – Falam muito da influência de Gil Scott-Heron em sua música. Mas Gil tinha uma abordagem mais de spoken words, da poesia falada, não era um cultor do canto virtuoso. Você, como vocalista, é um estilista. No que Scott-Heron foi mais influente para você? JJ – Ele nunca foi influente musicalmente em minha formação. Sempre tive respeito pela postura e pelas ideias dele, e isso está mais latente no meu primeiro disco (“The Dreamer”, 2008), que soava como um tributo. Mas eu credito minhas influências mais fortes e iniciais a Michael Jackson, em primeiro lugar. E a Prince. E eu amo de verdade os rappers. Sempre adorei Ice Cube, De La Soul, A Tribe Called Quest e a soul music dos anos 1970, especialmente Marvin Gaye. Esse blend está presente no que eu faço. JM – Você também tem encontros com artistas da música eletrônica. Por exemplo: há uma gravação sua com Flying Lotus (codinome do produtor Steven Ellison) em um reggae chamado ‘Visions of Violet’. JJ – Flying Lotus é maravilhoso. O que ele faz é definitivamente avant garde. Não o vejo como um artista de um mundo diferente, ele apenas toca outro tipo de instrumento. O importante é que ele injeta paixão e emoção na música que faz, e essa é a ambição de todo músico. * Publicado originalmente em El Pájaro que Come Piedra  Também já escrevemos sobre:    O que é a música sertaneja, segundo a academia   2 de outubro de 2015     Por que o sertanejo é tão repelido pela sociedade   6 de outubro de 2015     A nova cara do gospel   6 de outubro de 2015     O Vira na Virada Cultural   3 de junho de 2015

E agora, José?

Muito já foi falado do preconceito que o funk sofre por ser uma música criada e reproduzida nas favelas e periferias do Brasil. Jogue a primeira pedra quem não… Mas esse texto não é sobre o funk. Existe um gênero musical que sofre tanto preconceito e também é amplamente difundido nas periferias brasileiras. É a música gospel. Há muito anos, a canção gospel já faz parte do imaginário brasileiro e hoje em dia é escutada tanto por evangélicos como por não evangélicos. O gospel ainda tem extrema dificuldade de ser reconhecido como cultura, já que são pouquíssimos equipamentos e eventos públicos que programam grupos de música ou teatro gospel. Esse olhar atravessado, marginalizado e preconceituoso tem feito com que artistas talentosos fiquem confinados em igrejas ou eventos religiosos. Como se eles não existissem. Mas eles existem, e para ganhar alguma visibilidade abandonam a música religiosa para navegar por outros ritmos. Keila Gentil, vocalista do grupo paraense Gang do Eletro, é uma delas. E tem ainda DJ Perera, o maior hitmaker de funk atual, e MC Livinho, um dos mais requisitados na atualidade para bailes de São Paulo. Cito aqui três iniciativas dentro da cultura gospel que têm mostrado força e inovação, mostrando que cada vez mais os artistas do gênero irão ganhar, silenciosa e persistentemente, espaço na cultura brasileira. Porta Estreita: Canal de vídeos de humor do YouTube que faz rir com situações cotidianas e personagens do meio evangélico Louva na Lage: Projeto liderado por Thiago Lima em cima de uma laje no bairro de Cidade Tiradentes, conquistou a internet com o vídeo que mostra o virtuosismo dos músicos do projeto Ton Carfi: Efeitos especiais, zumbis carros incendiados, todos esses elementos fazem parte do clipe que o artista acaba de lançar. Dirigido pelo estrelado diretor Toddy Ivon (Racionais Mc, MV Bill, Pulse 011, entre outros), o clipe vai deixar muito artista pop secular com inveja pela qualidade. A produção musical não fica atrás e os vocais de Carfi já são reconhecidos há tempos no meio musical.  Também já escrevemos sobre:    Por que o sertanejo é tão repelido pela sociedade   2 de outubro de 2015     O que o brasileiro quer ouvir nas rádios   7 de fevereiro de 2013     A lua é dos amantes   13 de setembro de 2013     Do camarote ao baile de favela   25 de setembro de 2015

A nova cara do gospel

Um cronista frívolo, deslumbrado com as cintilações mundanas da belle époque

O outro Proust

Embora todos nós nos entregamos à mórbida preferência por ver os defeitos humanos, ainda há pessoas que resgatam o sentido da palavra humanidade

Belo gesto

O dia em que me livrei de 15 mil discos de vinil de uma só vez

O Messias

Participei da festa de inauguração do mais novo teatro de João Pessoa (PB), o Pedra do Reino, um belíssimo teatro que já é um dos maiores do país, com capacidade para cerca de 3.000 pessoas. Sabe-se lá por qual erro da equipe de gestão cultural, a festa de inauguração começou com a apresentação de um espetáculo de dança de um grupo de Goiás, cuja trilha sonora era composta integralmente por cantoras da chamada nova MPB, com destaque para Mallu Magalhães e Tulipa Ruiz. Saí de lá bastante incomodado, me perguntando em que momento o que era considerado programa infantil de baixa qualidade (Smurfs, Ursinhos Carinhosos) se tornou não necessariamente o padrão de consumo cultural, porque isso já faz um bom tempo, mas um ideal deliberadamente almejado por quem, entre outras coisas, defende o direito dos animais, o amor livre e o empoderamento feminino. Ou seja, o famoso (e perigosíssimo) cidadão bem pensante. O espetáculo foi para mim bastante angustiante e me fez aguardar ansiosamente pelo início do show da Zélia Duncan, de quem não sou propriamente fã, mas que em comparação ao que se sucedia no palco parecia dotada de inequívoca e autêntica genialidade. A sensação foi bastante próxima da que senti na época das eleições para presidente, quando me peguei torcendo pela Dilma só pra garantir que o Aécio não tivesse chances. Diante da farsa armada pela “festa” democrática, todas as escolhas soam falsas e caricatas, como escolher o tipo de chicote e o tamanho do braço do torturador que vai te açoitar. Enfim, considerei o espetáculo bem ruim e algo deprimente – nem falo da dança em si, mas do som que eles decidiram interpretar – o que me inspirou a escrever um texto em clima adorniano de fim de mundo.   *** Em uma série de palestras sobre a canção e seu suposto “fim”, José Miguel Wisnik definiu a estrutura de certa música atual como sendo um tipo de “canção expandida”, que tem como exemplos paradigmáticos os trabalhos dos grupos Radiohead e Los Hermanos. Segundo o crítico, a característica principal desse modelo de canção é não possuir um “centro” identificável, um núcleo que estruture as diversas camadas de significação, configurando-se quase como canções desestruturadas que se organizam ao redor de impulsos que se multiplicam e sobrepõem, numa espécie de transposição cancional da lógica da música eletrônica. Creio que no caso do Radiohead é mais simples reconhecer essa “expansão”, ou “inorganicidade” constitutiva – a sobreposição de elementos soltos indeterminados -, cujo sentido é levar o ouvinte a acompanhar os diversos impulsos, muito mais do que organizar uma forma consistente e organicamente articulada. Os elementos da canção ficam meio que à deriva, gerando certa sensação de gratuidade, que pode ou não assumir um sentido mais amplo – no caso do Radiohead, creio que em muitos casos eles usam essa forma expandida e inorgânica para representar uma visão sombria da vacuidade da vida contemporânea, de grande força estética. À primeira vista, segue Wisnik, a opção por temas suaves, vozes em tessitura média ou baixa, um tipo clean de arranjo musical etc. aproximaria essa produção mais indie do modelo de canção proposto pela bossa nova, o grande marco paradigmático da MPB “clássica”. Entretanto, pode-se dizer que estamos aqui diante do exato oposto da proposta estética de João Gilberto, na medida em que nessa canção expandida os elementos ficam “soltos”, flanando sem encontrar um centro unificador de sentido. Na dicção de João Gilberto, todos os elementos diminuem de intensidade porque é o próprio sistema de organização do todo que deve brilhar, um forte núcleo organizador que diminui a intensidade das partes para fazer brilhar o conjunto em toda sua intensidade. Já nesse modelo de “canção expandida”, as partes são hipostasiadas e sua suavidade decorre de um processo mais geral de indiferenciação, como se o sujeito não tivesse forças para organizar um núcleo que sustente as diversas informações dispostas ao longo da canção. Diga-se de passagem, esse é um conflito bastante caro a uma geração que tem acesso a todo tipo de material sonoro via internet sem, contudo, ter acesso a nenhuma das experiências que tornaram possível aquela matéria. Uma relação virtualizada com a experiência corresponde a um sujeito que “sabe” de tudo, mas não domina nada. É preciso salientar, entretanto, que esse dado (esse sujeito “frágil” que se apresenta na canção expandida) por si só não é bom nem ruim, mas algo como um “espírito de época”, ligado às novas condições dos sujeitos posicionarem-se no mundo, e com as quais a arte tem que se haver, com o risco de recair no puramente ideológico. Em linhas gerais, e sem aprofundar muito, podemos dizer que na canção a emergência desse “sujeito frágil” está diretamente relacionada ao fim da indústria fonográfica, pelo menos tal como constituída até os anos 1990. É nesse momento que desaparece de cena aquele ultra-sujeito quase monstruoso que tudo pode (Michael Jackson é um bom exemplo da capacidade de articulação dos diversos campos dessa indústria) para dar lugar a esse outro que mal sustenta seu próprio peso, o ser chafurdado no vazio de sua existência. *** Diante desse diagnóstico de fragilização perfeitamente expresso pelo modelo de “canções expandidas”, são diversas as atitudes e posicionamentos que a arte pode assumir. Em seus bons momentos, a autoconsciência dessa inconsistência fundamental pode fornecer as bases para construção de obras de grande relevância estética. Um grupo como o Radiohead, como vimos, usa essa “ausência” de substância musical como meio a partir do qual constrói uma imagem sombria da vacuidade da existência contemporânea. No caso brasileiro, a Filarmônica de Passárgada trata essa ausência de centro gravitacional das canções com distanciamento irônico, assumindo e expondo a fragilidade como condição inescapável da arte contemporânea, enquanto Romulo Fróes reflete sobre as dificuldades de sustentação de um anti-objeto musical, que é a própria condição do ser na capital paulistana. Juçara Marçal radicaliza as experiências do Metá Metá em seu trabalho solo (Encarnado), criando um dos discos mais interessantes dos últimos tempos, em que todos os elementos da canção lutam entre si para criar uma consistente e perturbadora desarmonia que sustenta um conjunto complexo de reflexões sobre a morte. Note-se[+]  Também já escrevemos sobre:    Música decadente brasileira?   2 de setembro de 2013     Passe Livre, FdoE, Black Blocs: mídia   11 de setembro de 2013     O embaixador do samba paulistano   14 de maio de 2013     Esqueletos no armário   1 de novembro de 2013

Neo-indie-MPB à deriva

O filósofo Vladimir Safatle discute o papel central de sentimentos como o medo na construção política

A natureza dos vínculos

O dia em que eu e Sandra Annenberg resolvemos revisitar uma canção

O hospício

Entre o linguajar e a cachaça, o artesanato.

Tapa na branca

La discothèque s’appelle Peace & Love, nous sommes le samedi 12 septembre, et nous nous préparons à célébrer le Nouvel An éthiopien dans la New Jungle, à Calais, en France. Nous sommes conduits au Club – bâti avec des bâtons en bois, du plastique du Secours Catholique et du ruban adhésif – à travers les mains d’un Afghan qui porte des noms variés – il est Ibrahim, qui peut se transformer en Rashid, selon l’interlocuteur. Nous sommes trois journalistes brésiliens qui marchons ensemble, rencontrés par hasard et par le désir de découvrir cette citadelle de réfugiés de population oscillante (environ 3,2 millions d’habitants), dont la comptabilité suit la progression arithmétique efficace du manuel de survie de la jungle : le plus de barbelés et de violence policière à la frontière, le plus de migrants de toutes ethnies, races et nationalités dans le refuge. Notre hôte est François Guennoc, un des coordinateurs de l’ONG Auberge des Migrants, que j’ai contacté lorsque j’ai commencé à préparer ma rencontre avec cet énorme inconnu qui est l’Autre, qui sont tous les Autres, ces continents que je n’ai jamais visité, cette prosodie, belle et effrayante. Mais pas l’Autre de l’Europe occidentale, l’Autre rempli de Voltaire & d’Illuminismes – je cherche l’Autre des grottes de Kaboul, des ruines d’Aleppo, cet(te) Autre qui flotte, mort(e), dans le bleu de la Méditerranée. De cet enfer qui c’est l’Autre (Sartre, mon vieux!) nous aussi en faisons partie, électrons libres en route asymétrique: Marília est une journaliste de Bangu, Rio de Janeiro, en pleine recherche pour son doctorat sur l’Immigration à Bruxelles; Sandro est un journaliste de Campo Grande, Rio de Janeiro, actuellement basé à Moscou, qui voyage, les pieds ailés comme (le dieux grecque) Mercure, en train de couvrir des conflits partout dans la planète; je suis Marcia, journaliste de Belo Horizonte, Minas Gerais, dix années de plus que mes collègues, la cheville gauche qui hésite après deux chirurgies et une longue rééducation, et je fais semblant de n’est pas trop me déranger avec ce rendez-vous émouvant avec la jungle. Dans le bidonville de la New Jungle, 25 % des réfugiés qui rêvent d’entrer au Royaume Uni proviennent de la corne de l’Afrique, tournée vers l’océan Indien : l’Érythrée, l’Éthiopie, la Somalie ; 35 % provient du Soudan et d’autres anciennes colonies de la Grande-Bretagne, comme le Ghana et le Nigéria ; 30 % sont asiatiques Afghans, Pakistanais, Iraniens, Irakiens et Kurdes. Le Syriens, dont l’immigration était relativement faible, sont de plus en plus nombreux dans la Jungle. La nouvelle jungle est une sorte de version miniature de la planète Terre : les réfugiés ont tendance à s’organiser en communautés-états, structurées par des origines-religions. Les seuls chrétiens sont les orthodoxes de la péninsule du nord-est de l’Afrique, comme ponctue François Guennoc sur son blog chez Mediapart. Une majorité anglophone définit dans une large mesure le Royaume Uni comme destination. Mais, en fait, ils font tous la bouche fine envers la France, parce qu’ici, ils sont déjà au courant : il n’y a pas d’emplois et l’ambiance est loin d’être celle du “pays des droits de l’homme”. La discothèque s’appelle Peace & Love, nous sommes le samedi 12 septembre, et notre Mata Hari afghane, l’Ibrahim, le Rashid (le Mohammed, peut-être?) – m’explique, pendant qu’il me passe le narguilé (dont le vapeur j’aspire, convaincue que ça soit du haschisch), la différence entre les Taliban et les fondamentalistes radicaux de Daech, qu’il déteste : “Les talibans sont des locaux, comme nous. Ils ne s’attaquent pas aux femmes”. Ibrahim-Rashid-Mohammed défend Poutine avec la même euphorie presque adolescente: “il dit la vérité. Il parle comme un bonhomme”. Ibrahim-Rashid-Mohammed s’exprime dans un bon Français et même dans un Anglais compréhensible. Ibrahim-Rashid-Mohammed vit dans la région il y a déjà sept ans, et a vécu trois arrestations par la police européenne. Il fait partie de la population « flottante-stable » de la nouvelle Jungle, ces gens qui se sont tellement mélangés à la condition de la frontière, à l’état de la marge, le hors-la-Loi, jusqu’à ce que ce lieu géo-métaphysique soit son nouvel habitat, dont ils craignent quitter. Le narguilé n’a aucun haschisch à l’intérieur, mais un assaisonnement d’herbes douces. Ibrahim-Rashid-Mohammed, le réfugié qui est devenu un citoyen de la nouvelle Jungle, est un séducteur gentil, voilà. Avant de nous amener au étonnant Club Peace & Love, il nous invite à manger un plat typique Afghan dans le “café” Chicken & Soup (sous-titres en arabe). C’est lui qui invite, nous sommes interdits de payer. Nous mangeons ensemble, la sauce fortement épicée est divine. Le plat, une sorte de beignets de poulet frits, nous est servi dans un service en plastique par le cuisinier Afghan, un garçon mince, brune, avec des incroyables yeux bleus, et qui refuse catégoriquement de dire un mot qui soit en Français. Et il nous tourne le dos si on oublie le code et répondons avec un « merci ». « Il déteste la France et les Français, », explique Ibrahim. « Parlons-y, mais en anglais ». Thank you, guy. Pas de drogues. Pas de provoc. Rien n’est ce qu’il semble être, et la New Jungle s’impose avec ses paradoxes pour exploser tous les codes, quels qu’ils soient. Tout est « devenir », disait l’incroyable Deleuze. Tout est en train de devenir. Rien “n’est”. La discothèque s’appelle Peace & Love, nous sommes le samedi 12 septembre, et les enceintes jouent en puissance Bob Marley ou Bobby McFerrin (“dont worry, be happy”). Au deuxième tour de bière (Ibrahim a payé le premier, nous avons voulu continuer dans le partage) je me souviens d’Ilyas, alias Elias, jeune éthiopienne 21 ans, étudiant en droit, réfugié politique de son pays, dont la famille s’avait réunit pour payer son long et pénible périple. “J’ai choisi l’Angleterre pour une raison simple, l’Anglais est la langue (étrangère) que je connais. Je souhaite reprendre mes études de droit là bas, c’est mon but, c’est pour ça que je travaille, » explique Elias (version chrétienne), a.k.a. Ilyas (version musulmane, selon il nous[+]  Também já escrevemos sobre:    Nova fuloresta   15 de setembro de 2015     Rádio Farofa: aquarela brasileira   4 de março de 2014     O roqueiro do eixo   1 de outubro de 2013     Os 30 discos de 2012 e algo +   18 de dezembro de 2012

Le cri de la jungle

Numa manhã gripada de julho, caminho pela primeira vez nos corredores internos da Assembleia Legislativa do estado de São Paulo. Estou em busca de música, será que existe música na casa dos deputados? Num dos gabinetes, encontro três colegas de Jornalistas Livres, o Rafael Vilela, a Ísis Vergílio, o Christian Braga, que já chegaram para acompanhar e gravar a entrevista com a deputada estadual pelo Partido Comunista do Brasil Leci Brandão, carioca de 12 de setembro de 1944 que por estes dias comemora, na São Paulo adotiva, 40 anos de presença gloriosa (e quase sempre invisível para a minoria branca) na cultura brasileira. Procuro por uma mulher, será que existem deputadas na casa dos deputados? É fácil reconhecer o gabinete dela, em meio a um sem-fim de gabinetes sisudos: as janelas de vidro estão repletas de cartazes de eventos e lutas diversas, invariavelmente ligados aos direitos humanos. Um dos cartazes é d@s Jornalistas Livres. Leci chegou à Assembleia bem cedo, e nos faz esperar alguns poucos minutos enquanto zanza pelos gabinetes de outros deputados ou sabemos lá por onde. Quando chega, chega cheia de amor para dar, já interessadíssima em mais um cartaz d@s Jornalistas Livres que está em poder da Ísis.   Leci Brandão: Vem cá, isso aí é um cartaz? Eu não tenho esse cartaz. Eu nunca vi esse cartaz. Eu gostaria de ter uns dois ou três aqui pra botar aqui, na boa, num lugar bem destacado, porque eu adoro vocês. Amor, foi você que fez uma matéria minha uma vez? Você sabe que o dia que eu li eu me emocionei, eu me emocionei, porque “lave a boca com sabão”, não sei o quê, eu falei: Meu Deus do céu, apareceu alguém pra me defender! Foi muito legal aquilo.   Sim, querida Leci, fui eu que falei de você em “Lave a boca com sabão para falar de Leci Brandão“, de 2012, num falecido blog no Yahoo! BraZil, e também em outros textos como “O silêncio de Leci Brandão“, numa Caros Amigos de 2011, e “A madrinha do rap“, numa CartaCapital de 2007. Madrinha do rap, do samba e da cidadania, Leci tem muito o que dizer, tanto que nem dá fôlego para que eu faça uma primeira pergunta e já sai elogiando @s Jornalistas Livres, empolgada pela festa a que compareceu na Praça das Artes, no mês de maio que se foi.   LB: Deixa eu falar pra vocês, cês sabem que ainda estou sob impacto emocional daquele evento? Foi muito bonito, muito significativo, muito legítimo. É sério. Eu consigo lembrar os rostos das pessoas, uma coisa que me comoveu muito, porque era um outro tipo de público, um público jovem, com a marca da diversidade, e as pessoas estavam felizes. Mas o que mais me tocou foi que várias meninas negras chegaram pra mim, naquela confusão, “ô, Leci, você me representa mesmo!, vou votar em você!, joguei o meu voto no lixo!”. Eu subi no palco e disseram “já fala”, eu não sabia o que eu ia falar, então fui falando do coração. Vocês gravaram aquilo tudo, né? Depois eu queria, quero guardar pra mim, foi muito legal, foi um momento muito legal na minha vida. Pedro Alexandre Sanches: Fiquei reparando que você desceu do palco e se formou uma roda de tietes ao seu redor. LB: Foi muito legal, né? Os depoimentos das pessoas foram maravilhosos, eu lavei a alma naquele dia. PAS: O que você falou das meninas negras ao seu redor deve ser algo habitual pra você. LB: É, mas é que ali era um público específico, que acompanha a comunicação alternativa. Tinha muito estudante, menina, trançadeira, rapper, tudo. PAS: Sem-teto… LB: E quando você escuta, principalmente de jovem, um depoimento desse, é comovente. Porque é assim, nunca sei se a gente tá na sintonia. O palavreado é outro, o comportamento é outro, eles frequentam outros lugares. A minha vida hoje é o quê? É esta Assembleia e show nos finais de semana, quando posso fazer. Então estou muito fechada nesse negócio, não saio mais, nem me divirto, porque não dá tempo. Mas foi muito bom, muito bom mesmo. Mas vamos lá, sou toda de vocês. PAS: Eu queria começar agradecendo você receber a gente aqui, ficamos muito felizes. A primeira pergunta era justamente nessa linha: o que um mandato público faz com a sua carreira musical? Como ela se modificou em função de você, ou a senhora, ter virado deputada? LB: Pode me chamar de você, cara, eu não tenho essa coisa, não, pelo amor de Deus. Com vocês é você mesmo. Veja bem, o que muda é que o meu tempo agora, pra arte, ficou bastante reduzido. Eu quase não tenho feito shows, até porque tem um detalhe: qualquer show que tenha dinheiro público eu não posso participar, pelo fato de estar deputada. Não posso participar de um monte de coisa, morro de tristeza, porque o palco é a minha vida há 40 anos. Mas, por outro lado, o que eu percebo é que tá tendo uma identificação infinitamente significativa neste momento, pelo fato de eu estar atuando na política de acordo com tudo aquilo que eu compus e interpretei e defendi. A minha vida artística sempre foi usada de forma instrumental pra ajudar as pessoas. Desde o primeiro compacto simples que fiz, tenho a preocupação da arte como ajuda, como ferramente pra colaborar com os outros. E coincidentemente, entre aspas, as “minorias”, principalmente as minorias. Eu sempre cantei pras minorias. E fui uma artista marcada por esse comportamento, pelo fato de ter tido músicas censuradas, ficar sem gravadora durante cinco anos, não participar de determinados programas de TV, não ser inserida em determinados projetos, por causa da minha cabeça. A minha cabeça sempre foi muito maluca. Então você se atira nisso, mas você tem de se preparar pras proibições, pros obstáculos. E eu sempre entrentei isso com muita ousadia. Eu fiz uma carta pra PolyGram em 1981, pedindo a minha saída da gravadora. Não quiseram aceitar meu repertório, então estou pedindo demissão. Na época todo mundo dizia: “Mas como é[+]  Também já escrevemos sobre:    O embaixador do samba paulistano   14 de maio de 2013     Ana Carolina não está lançando CD   12 de abril de 2013     Mulheres negras devem ser livres   12 de setembro de 2013     A@s jornalistas livres   27 de maio de 2015

40 anos com Leci Brandão

O Rio de Janeiro pelas lentes do pioneiro Alberto de Sampaio

Ecos da belle époque

O papa Francisco chega ao país supostamente ateu em que 
o catolicismo vem marcado com as mandingas dos orixás

Fé em Cuba

Nem sempre nos cumprimentamos como o fazemos hoje

Tudo bem

Você não imagina o sucesso que uma calça americana fazia

Garota do Barbalho

“Ninguém tem mais fé na vida que eu”, diz o caminhoneiro do filme de Carlos Nader quando já não pode ver nada. A vida, naquela estrada, não pede sentido. Pede renascimento

Homens comuns

O caos se estabelece já no primeiro minuto. A filha da empregada doméstica chega a São Paulo, vinda do Nordeste pernambucano, de início para ficar hospedada na casa dos patrões da mãe, no Morumbi. O plano de Jéssica é prestar vestibular para arquitetura na USP. A casa e a vida de todos os envolvidos viram de ponta-cabeça, antes que alguém consiga pronunciar “bolsa-família” ou “Enem”. Antes que as badaladas completem um ciclo, a mãe de Jéssica perde a hora na senzala no quartinho de empregada. Por educação, a patroa é obrigada a servir serve café da manhã à filha da doméstica: suco de lima-da-Pérsia. Jéssica delicadamente recusa o colchão barato no chão do quartinho da mãe e toma lugar no quarto de hóspedes da casa-grande. No segundo minuto todo mundo já sacou que o vento repentino vai trazer chuva brava. Jéssica é o Barravento, o sopro abafado de transformação que vem varrer a praia, a casa, o bairro, a cidade, o país. Não uso o nome do filme de 1962 do bardo baiano Glauber Rocha com intenção de despiste: barraventos à parte, Que Horas Ela Volta? é um filme feminino, 900% feminino (tanto é que deixou fora de si um cineasta pernambucano de humores misóginos e homofóbicos), dirigido pela paulistana de 1964 Anna Muylaert (de Durval Discos, 2002). O barravento de 2015 é uma mulher, uma jovem, uma menina pernambucana (interpretada por Camila Márdila) forçada a vir domar a hidra na capital mais dramaticamente conservadora, reacionária e preconceituosa do Brasil. A sala de cinema de shopping está em estado de choque. Viemos para rir de Regina Casé, mas cedo as gargalhadas se misturam às lágrimas e ao mais profundo desconforto. Não se trata de uma comédia ligeira da Globo (embora tenha o dedo da Globo Filmes, assim como da SPcine), talvez nem mesmo se trate de um filme. Que Horas Ela Volta? é uma metáfora, uma poderosa metáfora, a metáfora que faltava para compreendermos e quem sabe podermos encerrar 2015. A metáfora é simples como o jogo de xícaras que a empregada compra para presentear o aniversário da patroa (e que será rejeitado pela ditadura dita cuja). No joguinho comprado nas Casas Bahias, xícaras pretas devem combinar com pires pretos, e vice-versa. Um dos oito conjuntos de pires-e-xícara deve cair fora da bandeja para dar lugar a uma garrafa térmica preta, preta, pretona. Embora Regina Casé não seja negra (infelizmente), é disto que a metáfora trata, em pique-esconde de casa-grande & senzala: o preto e o branco estão “descasados” (como diz a doméstica) na combinação de cores do jogo café-com-leite e do país onde Não Somos Racistas (como defende pateticamente o capataz chefão do jornalismo global, Ali Kamel). Embora Jéssica seja o barravento e Regina Casé seja uma atriz espetacular, a metáfora está condensada no rosto e na atuação magistral de outra atriz, Karine Teles, a intérprete da patroa que parece ser uma jornalista, uma consultora de moda, uma publicitária ~fashion~ ou algo parecido. As expressões e a evolução do comportamento dessa personagem desnudas e sintetizam o comportamento das elites brancas reacionárias nas ruas brasileiras (especialmente sudestinas, particularmente paulistanas) de 2015. No trajeto da personagem da patroa está transcrito o percurso dos batedores de panela que tentam calar a boca da presidenta da república, dos . Sinhazinha não quer, simplesmente porque não quer (ou porque não pode?), aceitar a crônica anunciada e logo sacramentada: Jéssica vai prestar vestibular, vai passar com distinção, vai ~roubar~ a vaga que o direito divino reservava ao filho (criado pela empregada) da patroa. É a tal meritocracia, aquela mesma que enche as bocas de dez entre dez filhos de arautos supostamente meritocratas, especialmente aqueles que mais detestam a ideia de sentar para ler um livro, de estudar um pouco um assunto qualquer, de confeccionar uma ideia própria não copiada do vizinho mais próximo. A patroa, convenientemente batizada de Bárbara, vaza ódio, rancor e ressentimento em cada olhar fulminante, em cada mínimo gesto, em cada atitude caricatural. Contra fatos, não há argumentos: as bárbaras e os bárbaros que lotam as ruas e os sites de 2015 com xingamentos, acusações, ofensas, injúrias e cusparadas de rancor estãocontrariadíssimos com a realidade nova, com a nova divisão dos privilégios, com este Brasil que realmente vem mudando muito (como a certa altura diz, nada bobamente, a patroa). Bárbaras e bárbaros não se revoltam contra uma ameaça, mas sim contra uma realidade que já está posta à mesa da tradicional família, num jogo de xícaras e pires de mosaico xadrez. Anna Muylaert reescreve e redimensiona a narrativa brasileira de 2015 porque coloca à mesa as motivações por trás da Grande Revolta Branca de 2015. Atrás do tremor de terra que começa no panelaço antifeminino e termina no clamor impopular das elites machas por impeachment está a tragicomédia cotidiana, banalíssima, de nossas vidas. Atrás da histeria manicomial coletiva da classe ~A~ e das velhas classes médias se encontra um mundaréu de gente: a babá uniformizada cada dia mais ~abusada~, o porteiro do prédio que pleiteia inadiável aumento salarial, o manobrista que cansou de levar esculacho e vai ser Uber, os inventores das leis trabalhistas que amordaçam pressionam empregadores e dão liberdade vida nova a mulheres que passaram anos e décadas e séculos vivendo as vidas das patroas, patrões e patrõezinhos. Atrás da raiva descontrolada contra a reviravolta social os desmandos e rapinagens do Partido das Trabalhadoras, atiçada diariamente por mídia pálida e falida, desabrocha o empoderamento de quem jamais gozou de poder. O ganho de consciência das mães de jovens como Emicida e Gaby Amarantos é transmitido aos filhos e filhas, que se transformam em barravento, em barraventos, em barraventos como os da Antônia (2006) de Tata Amaral. Conforme a velha mucama empregada doméstica decida abandonar a senzala o puxadinho na casa-grande e viver em relativa liberdade, os sinhozinhos e sinhazinhas patrões terão de aprender a lavar as próprias privadas. A dor de pensar em lavar a própria cueca dói mais que qualquer corrupção, alta de impostos, ~golpe comunista~, lumbago, inflação, erisipela, lavagem seletiva de dinheiro, sífilis ou dinheiro investido no suborno do guarda do bafômetro. Por baixo de uma trama simples com final feliz e redentor (mas não para os patrões), é essa a história que o[+]  Também já escrevemos sobre:    Um dia de ninja (*)   14 de março de 2015     De dentes bem arreganhados   16 de março de 2015     Um deus de sal   30 de abril de 2015     Documentário sobre Sabotage traz cenas inéditas   22 de janeiro de 2015

Um filme para 2015