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Feminismo

Onde as lutas se cruzam

por Joanna Burigo publicado 05/04/2016 15h24
A opressão de mulheres – cis ou trans – tem a mesma origem e o mesmo alvo
Julia Leite
Caminhada trans

Manifestação contra a transfobia na 'Primeira caminhada pela paz: sou trans e quero dignidade e respeito', realizada em janeiro de 2016 em São Paulo

O feminismo, nos termos mais sucintos possíveis, é um movimento em prol de equidade social, econômica e política, organizado segundo as formas como estas desigualdades são observadas pelo viés das mulheres.

Apesar disso, e visto que nem todas as mulheres experienciam a vida de uma mesma perspectiva tampouco sofrem injustiças da mesma forma, há diferenças ideológicas, divergências teóricas e cisões nas práticas.

Existem diversas vertentes e correntes feministas, e muitos conhecimentos e informações são produzidos e reproduzidos pelas proponentes de todas. Estas aprendizagens, no entanto, nem sempre conversam umas com as outras, e quando apenas um discurso – feminista ou qualquer outro – serve como única lente de compreensão do mundo, não é de se surpreender que se produzam alguns sujeitos bitolados.

Por outro lado, o acesso aos múltiplos conhecimentos e informações produzido por feministas não está restrito às suas simpatizantes – muito pode ser facilmente encontrado online, e em diversos formatos e linguagens.

Não quero e muito menos poderia falar por todas as feministas, mas conheço poucas que se identificam apenas com uma corrente; a maioria da minha rede busca saber sobre, e aplicar o mais que pode da pluralidade do projeto feminista.

Cada um dos muitos discursos feministas oferecem temas característicos, e todos levantam questões que são urgentes, outras que têm inclinação filosófica, outras metodológicas e tantos tipos mais.

O feminismo interseccional – termo cunhado pela professora norte-americana Kimberlé Crenshaw em 1989 – parece ter o poder de apaziguar estas diferenças ao postular que as opressões que afligem as mulheres se manifestam em configurações variadas, e em diferentes graus de intensidade.

Padrões culturais de dominação, como classe, raça, gênero, entre outros, são sistemas sociais que interseccionam, e diferentes mulheres se encontram em diferentes intersecções – por isso não pode existir uma única forma de se relacionar com o feminismo.

O melhor uso da revelação feita pelo feminismo interseccional é como ferramenta de análise, para olharmos os diferentes discursos feministas através de uma lente que permita percebermos os pontos de encontro entre múltiplos fatores de opressão – por exemplo, gênero, sexualidade e raça.

Para dar apenas um exemplo, a experiência de opressão social de uma mulher negra e lésbica é bastante diferente daquela experimentada por uma mulher branca e heterossexual.

Muitas pessoas se aborrecem com categorizações do feminismo, insinuando que isso promove segregação dentro do movimento. A segregação não se dá a partir da categorização, no entanto – especialmente visto que, como nos ensina o feminismo interseccional, categorias têm valor analítico.

O que caracteriza a segregação é a impossibilidade de diálogo. Quem se dispõe a ouvir as outras, levando em consideração as intersecções de preconceito onde elas se encontram, e sabendo exigir mais ou menos do seu lugar de escuta, não promove segregação, mas sim conhecimento com mais categorias de análise e maior complexidade.

Uma discussão recorrente no feminismo envolve a participação, no movimento, de pessoas que não sejam mulheres. Esta discussão ocorre de formas diferentes dependendo de quem é considerado persona non grata, e por quem, dentro das múltiplas vertentes do movimento.

A discussão sobre a participação dos homens (ou não) eu deixo para outra coluna. Atenho-me, nesta, a certos elementos recorrentes em debates sobre feminismo e mulheres trans.

Uma mulher transexual é alguém que no nascimento, em função de sua genética, foi designada como pertencente ao sexo masculino, mas se identifica como mulher.

Gênero é, ao mesmo tempo, a palavra que usamos para descrever a qual categoria social pertencemos, o conceito que contém o que chamamos de masculinidades e feminilidades, e uma categoria de análise.

Ao contrário do que pensam nossos detratores, os estudos de gênero não refutam argumentos biológicos – mas nosso lugar de exame é sociolinguístico, e por isso nossa análise se se dá na seara dos efeitos da biologia na linguagem, e vice versa.

Por anos a ideia de que todos os corpos poderiam ser categorizados como apenas masculinos ou femininos foi naturalizada. Ela ainda é. É dessa desnaturalização que se ocupa a teoria de gênero, para que corpos entendidos como “dissidentes” – e as vidas humanas que eles carregam – possam ter mesma dignidade conferida aos corpos entendidos como “adequados”.

Mulheres cis – ou seja, quem é determinada como mulher no nascimento por causa de um corpo específico, e se identifica como mulher – carregam uma série de questões específicas dos corpos que habitam: menstruação, possibilidade de gravidez, variações hormonais típicas, etc.

Todas as pessoas têm uma experiência fisiológica específica que independe da cultura. Mas as experiências sociais que nossos corpos biológicos conhecem são inextricavelmente afetadas pela cultura. E a nossa cultura é incontestavelmente patriarcal.

Na nossa sociedade, quem nasce mulher é rotulada como tal e vive sob os efeitos das alcunhas do “segundo sexo” – como considerar-nos o “sexo frágil”, ou deusas loucas feiticeiras no comando global subliminar através da suposta influência de um poder místico que teríamos sobre os homens.

Na prática, não somos frágeis tampouco instrumentos mágicos de controle subconsciente. Na realidade da vida vivida, criamos filhos sozinhas, trabalhamos por menos dinheiro, tememos o estupro em cada esquina (e em casa), e não ocupamos nem perto dos 50% que deveríamos das posições de poder institucional.

Por tudo isso é importante a manutenção da categoria mulher como local da luta das mulheres cis. Mulheres cis sofrem consequências específicas de serem mulheres cis, e estas consequências são, mais frequentemente do que gostaríamos, violentas.

Quem nasce como macho da espécie e é rotulado como homem, mas passa a se identificar como mulher, não teve experiências anteriores à transição que sejam específicas de alguém que tenha nascido com corpo de fêmea e tratada, desde sempre, como menina ou mulher pela sociedade.

No entanto, uma vez que um homem transiciona para mulher, ela encontra uma série de outros preconceitos específicos. Assim, mulheres trans também sofrem consequências violentas específicas. Por isso é igualmente importante a problematização da categoria mulher como local da luta das mulheres trans.

Por mais que as experiências formativas de mulheres cis e mulheres trans sejam diferentes, é na categoria mulher que estas lutas se interseccionam. Cada corpo carrega possibilidades de inúmeras permutações entre fisiologia e cultura. Por isso não pode haver vantagem em engendrarmos violência entre aquelas cuja opressão tem a mesma origem e alvo.