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Comissão da Verdade

"O comandante deu um tiro na cabeça de cada um"

por Piero Locatelli — publicado 16/05/2013 20h25, última modificação 16/05/2013 21h24
Em depoimento, ex-militar dá detalhes de como um casal de estudantes foi assassinado no Rio de Janeiro durante a ditadura
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Valdemar Martins de Oliveira

Valdemar Martins de Oliveira fala à Comissão da Verdade de SP

Os estudantes Catarina e João Antônio Santos Abi-Eçab morreram em 9 de novembro de 1968. Até 2001, a versão da ditadura prevalecia: o carro do casal teria colidido com um caminhão na BR-116, próximo a Vassouras (RJ), e explodido por conta dos explosivos que eles supostamente carregavam no porta-malas. A mentira do regime foi desvendada por reportagem de Caco Barcellos, da rede Globo. A família autorizou a exumação do corpo de Catarina, e um laudo mostrou que ela havia sido morta com um tiro. Na época, o militar Valdemar Martins de Oliveira confirmou a execução dos dois, mas não disse quem as teria cometido.

Nesta quinta-feira 16, em depoimento à Comissão Estadual da Verdade, Oliveira foi além. O ex-militar descreveu em detalhes a morte de Catarina e João Antônio e atribuiu o duplo assassinato a Freddie Perdigão Pereira. “O comandante da operação disse: 'esses aí não servem para mais nada'. E deu um tiro na cabeça de cada um,” descreveu o ex-militar.

O casal teria sido pego pelo Exército no bairro da Vila Isabel, na zona norte do Rio de Janeiro, e levado até uma chácara em São João de Meriti, onde ocorreu o assassinato. Eles teriam sido mortos após serem algemados e jogados no chão, com esparadrapos em suas bocas. Antes, ainda segundo Oliveira, teriam apanhado com tapas e socos. Um militar identificado como Miro teria apertado o pescoço do rapaz com um cinto. Pela versão de Oliveira, após dar um tapa em Catarina, Miro foi chamado por ela de covarde. Em seguida, a estudante apanhou até ficar desacordada. “Tiraram a roupa dessa moça, deram choques e bateram. Até que, em dado momento, ela já não respondia mais.”

Segundo Oliveira, o então soldado Guilherme Pereira do Rosário também estava presente. Rosário e Pereira participaram do ataque frustrado ao pavilhão Riocentro, mais de 10 anos depois. Na ocasião, uma bomba teria explodido e matado Rosário dentro de um carro antes de chegar ao local.

Trabalhos de espionagem

Oliveira conta que fazia trabalhos de espionagem para os militares antes da morte do casal. Ele afirma ter sido chamado para essas tarefas porque teve um bom desempenho em treinamentos anteriores, sendo o primeiro colocado da sua turma no Exército. No dia dos assassinatos, Oliveira diz ter protestado contra os outros militares. “Eu não concordava com aquilo. Então me pegaram pelo pescoço e me colocaram na parede. Diziam que eu era comunista, esquerdista, estava mudando de lado. E dali mandaram eu ir embora”.

Oliveira diz que queria voltar ao trabalho de militar normalmente, pois havia entrado no Exército para ser paraquedista. Segundo ele, no entanto, militares o buscaram na casa da sua mãe para que ele voltasse a fazer trabalhos de espionagem. Seu novo trabalho seria na zona oeste de São Paulo, onde havia vários bares. Oliveira conta ter se recusado. “Devido à minha insistência em não ir, começaram a me agredir dentro da casa da minha mãe, quebraram meus braços e agrediram a minha mãe”, conta. “No outro dia, fui embora dali porque prometeram que iam voltar e que a coisa ia complicar. E muita gente sabe o que significa a gente ir contra os ditames daquela época.”

Depois disso, Oliveira conta ter entrado na clandestinidade. Morou no Chile durante cerca de um ano e só reapareceu em 1978 no Brasil. Oliveira já havia prestado um depoimento fechado à Comissão da Verdade nacional, mas esta foi a primeira vez que contou sua história em público.