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Grupo aciona MPF contra UFABC por ajuda a aluna que perdeu a visão

por Redação — publicado 19/10/2016 16h11, última modificação 19/10/2016 17h29
UFABC Livre entrou com representação contra iniciativa da universidade em auxiliar Deborah Fabri, cujo olho foi perfurado na repressão ao protesto
Reprodução/Facebook
Protesto Deborah Fabri

Faixa em apoio à aluna da UFABC Deborah Fabri, cujo olho foi perfurado durante repressão da Polícia Militar à protesto

Um grupo intitulado UFABC Livre entrou com uma representação no Ministério Público Federal contra auxílios prestados pela universidade à estudante Deborah Gonçalves Fabri, 20 anos, ferida durante manifestação contrária ao impeachment em 31 de agosto.

A aluna da Universidade Federal do ABC (UFABC) perdeu a visão do olho esquerdo após ser atingida no rosto durante repressão da Polícia Militar ao ato, que reunia 20 mil manifestantes contra a deposição de Dilma Rousseff pelo Senado.

Diante da gravidade da situação, no dia seguinte, a pedido da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Políticas Afirmativas da universidade, uma psicóloga e uma enfermeira prestaram apoio psicológico e médico à aluna, que vive sozinha e longe da família, residente em Minas Gerais. 

A ajuda que motivou a ação ocorreu em 2 de setembro. Naquela data, um carro da UFABC transportou o pai da aluna do Terminal Rodoviário do Tietê, zona norte de São Paulo, até o campus localizado em Santo André, região metropolitana da cidade. Duas psicólogas da universidade acompanharam o deslocamento, com o intuito de oferecer um primeiro acolhimento familiar e mediação. A despesa calculada com combustível foi de 14 reais e 26 centavos.

“As ações descritas foram realizadas a pedido do pró-reitor de Assuntos Comunitários e Políticas Afirmativas, Prof. Dr. Fernando Costa Mattos, tendo em vista a gravidade da situação do ferimento da discente Deborah Fabri, que morando sozinha, longe da família, perdeu o globo ocular de forma trágica, aos 19 anos de idade, revelando-se uma situação excepcional, humanitária e que justificam as ações realizadas",  informou a universidade em resposta oficial divulgada pelo movimento UFABC Livre. "Vale notar que o mesmo princípio seria adotado em qualquer caso análogo envolvendo discentes ou servidores da UFABC”, afirmou.

Após ser ferida, Fabri foi levada para o Hospital das Clínicas e, depois, recebeu atendimento no Hospital de Olhos, no bairro do Paraíso. A segunda instituição informou por nota que a paciente "foi internada em nosso serviço às 2h37 do dia 1º de setembro de 2016, com trauma na região da face, escoriações nas pálpebras e região malar esquerda, e lesão perfuro contusa no olho esquerdo". Segundo relatos de testemunhas e pessoas que ajudaram a estudante, ela foi atingida por estilhaços de uma bomba lançada pela PM.  

UFABC Livre

A representação, protocolada por João Antonio Machado Cardoso Filho, também aluno da universidade, solicita que se investigue “o uso de recursos públicos federais da Fundação Universidade Federal do ABC para atendimento pontual e particular de uma aluna que se encontrava fora das dependências da universidade e fora de período/horário letivo”.

A representação, feita na Procuradoria em São Bernardo do Campo e distribuída à procuradora Fabiana Bortz, está em fase de procedimento preparatório. Isto significa que não se trata de um inquérito e nem de uma ação. Nesta fase, a procuradora solicita informações às partes para, posteriormente, decidir se um inquérito será aberto e, futuramente, uma ação civil pública. A universidade afirma que ainda não foi notificada. 

O pedido direciona-se especificamente ao pró-reitor de Assuntos Comunitários e Políticas Afirmativas da UFABC, Fernando Costa Mattos, por ter “mobilizado psicólogas, enfermeiras, motoristas, veículos e combustível pagos com dinheiro público para atendimento de demanda particular”.

Na página oficial do movimento, a UFABC Livre descreve-se como “um movimento de alunos da UFABC que defende a liberdade de expressão e de ideias dentro da universidade e na sociedade em geral”. Postagens e um blog identificado como ligado ao movimento revelam, porém, posicionamentos contrários ao movimento feminista e a temas identificados com a esquerda.

Uma postagem de 5 de setembro afirma: “Quando você se sentir um imbecil saibam que tem doutores e doutoras saindo de casa domingo à tarde para apoiar indiretamente os black blocs, tomar borrachada da polícia e depois vim (sic) chorar no Facebook. Os alunos são imbecis mesmo, os doutores estão putos que vão perder os seus cargos comissionados dentro da UFABC muito em breve”, referindo-se a uma foto no vão do MASP, na avenida Paulista, em que figuram manifestantes segurando cartazes de “Fora Temer”, “Diretas Já” e “UFABC contra o golpe”.

Outras postagens do grupo, citando o caso de Deborah Fabri, identificam a aluna como adepta da tática black bloc, como forma de justificar a truculência na atuação da PM de São Paulo na manifestação. A aluna de 19 anos é militante do Levante Popular da Juventude e já fez declarações em novembro do ano passado no Twitter em que se diz favorável “a qualquer ato de qualquer destruição em protesto de cunho político que tenha objetivos sólidos”.

Uma vez que “black bloc” é uma tática de manifestação e não um movimento organizado, é difícil afirmar que ela seja adepta dessa forma de manifestação. Também não há registros de que a estudante estivesse realizando qualquer tipo de depredação no momento em que foi ferida ou em protestos anteriores.

O caso e a manifestação de Deborah Fabri nas redes sociais chegou a ser ironizado pelo tenente-coronel da PM, Henrique Motta, responsável pelo comando de operações da Polícia Militar em diversas manifestações em São Paulo. Motta foi afastado dias depois pela Secretaria de Segurança Pública, que admitiu abusos da PM em protestos contrários ao presidente Michel Temer. 

Petição a favor da UFABC

Em defesa da iniciativa de auxílio à aluna feita pela universidade, foi criada uma petição na plataforma Change.org “Em defesa da democracia, da tolerância e da solidariedade na UFABC”, que conta com 456 apoiadores.

O texto da petição afirma que a universidade se caracteriza como “espaço inclusivo, democrático e tolerante, fundamentado no respeito à dignidade humana e à diversidade”. A petição considera que o apoio prestado pela universidade à aluna “deve ser uma diretriz de ação da UFABC frente a sua comunidade em situações de fragilidade de seus membros, respeitando suas possibilidades institucionais e a racionalidade de seus recursos”.

“Contudo, verificamos a disseminação de mensagens com conteúdos de ódio e preconceito, responsabilizando a vítima pelo ocorrido e fazendo várias acusações contra a UFABC. Esse clima culminou com a entrada de uma representação junto ao Ministério Público contra a Universidade, alegando desvio de funções e mau uso de seus recursos. Nesse sentido, nós, abaixo-assinados, repudiamos quaisquer atitudes de intolerância e apelamos para o bom senso da comunidade acadêmica”. O documento é assinado, entre outros, por docentes da instituição de ensino.

Inaugurada em 2005, a Universidade Federal do ABC conta com 8.007 alunos matriculados nos campi em São Bernardo do Campo e em Santo André, cidades do ABC paulista.