Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Futebol e petróleo

Sociedade

Esporte

Futebol e petróleo

por Redação Carta Capital — publicado 26/09/2012 10h30, última modificação 26/09/2012 10h30
Li com espanto que o governo russo trabalha com a ideia de os 16 clubes da elite de lá serem administrados por estatais

Por Afonsinho

Alguns acontecimentos interessantes movimentam sempre o esporte. Quando se pensa no que estão chamando “chatice” do futebol destes tempos muita coisa vem associada. De bom, um plano ambicioso do Ministério do Esporte que faz pensar nas manifestações esportivas em conjunto, um Sistema Brasileiro de Esportes.

Já vi dirigentes defenderem essa ideia, mas nunca vi essa abordagem ser divulgada. Caso haja uma articulação a esse ponto, tanto melhor, mas é estranho não ser de amplo conhecimento dos interessados.

Li com espanto que o governo russo trabalha com a ideia de os 16 clubes da elite de lá serem administrados por empresas estatais. Bom para se pensar no momento em que o Zenit, de São Petersburgo, administrado pela estatal de gás Gasprom, pretende se transformar num dos maiores clubes do mundo. Acaba de contratar o brasileiro Hulk e outros mais. Rivaliza com o Paris Saint-Germain, que pegou os patrícios Lucas e Thiago Silva e o sueco Ibrahimovic, todos contratados a peso de petróleo ou riquezas desse tipo.

Tem a vantagem da crise. A Europa contrata menos, mas o capital não tem pátria: ora aqui, ora lá. Vem embutida na notícia a ideia de as estatais serem obrigadas a dividir os investimentos entre as bases e as contratações de estrelas. Contradições? Vamos ver no que vai dar.

Os jogadores, alguns mais atinados, fazem sua parte na responsabilidade social tanto aqui quanto em outros lugares, notadamente os de origem africana. Bacana. É bom aproveitar. Hora dessas as coisas mudam e esses desequilíbrios são alterados.

Outra novidade recente é o lançamento de entidade, empresa ou similar do Corinthians em áreas carentes do Rio de Janeiro. Demonstra o avanço do alvinegro para além de seus domínios. A explicação de não ser em São Paulo deve ser a mesma dos russos.

No jogo da responsabilidade, Corinthians 1 x 0 Flamengo. O dirigente avisa logo que não é beneficência e os objetivos são “profissionais”. Na lógica vigente, tudo tem seu preço. Assim o Kaká saiu do Milan, onde estava tão bem.

No outro lado da moeda, o Santos corajosamente ficou com seus craques e se desfaz ou desfez de Ganso por desgaste lamentável. Fico com a ideia santista. O trio Ganso-Neymar-André de volta, ainda mais maduro, é (seria ?) caldo para muito tempo.

A saída de Felipe Scolari e do amigo Cristóvão Borges, crise de José Mourinho, Brasil vs. Argentina, censura no Flamengo, Palmeiras em ebulição, o Brasileirão nervoso nos dois extremos da tabela. Instigante. Scolari saiu ou foi despedido? Caso interessante. O treinador havia anunciado que ficava mesmo com rebaixamento.

Em princípio, haveria a Libertadores e a volta à divisão principal. Boas motivações, embora se perguntasse: o que garante tanta estabilidade a esse técnico num futebol como o nosso? Fazendo campanha ruim comprometia a chance de voltar à Seleção em caso de mudança. Deu no que deu.

Já Cristóvão aproveitou bastante a experiência de treinador efetivo. As mudanças numerosas na equipe mais estável do  campeonato até então foram a pior coisa para o Vasco e para ele. Integridade.

O português é o exemplo europeu de centralização e egocentrismo absoluto. Dificuldade para lidar com tantos superastros. Embora mais “cascudo”, encara o mesmo problema do seu correspondente caboclo, Vanderlei Luxemburgo.

No rubro-negro carioca, o gol espetacular de Adryan acabou criando um problema. Não se sabe o que fazer para “blindar” a boa revelação. Na ânsia de dar segurança ao jovem, exibem a própria insegurança. Encarar a responsabilidade de cobrar a falta mostra sua firmeza. Como diz Luiz Melodia, craque vascaíno, “deixa o menino brincar”.

Volta e meia aparece esse tipo de ideia. Quando jogava e fui julgado no tribunal da federação, um dos juízes saiu-se com essa.

Noutra ocasião, manifestaram o mesmo pensamento, ou falta dele, propondo censura ao Paulo César Caju. Perguntado na época sobre o fato, Garrincha sintetizou, com toda a sua poesia: “É como se tirasse o canto de um passarinho”. Bom para não esquecer que essa gente anda por aí.
Agora se censuram as comemorações.

No Brasileirão, pouco passando da metade, já esquentam as duas pontas da classificação.
Enquanto o Santos parece afastar-se, o Palmeiras mergulha mais fundo numa areia movediça e joga com o Flamengo uma disputa feroz.

Há muito tempo nem se cogitava ameaçar dirigente. Mais uma razão para tudo continuar na mesma. Os profissionais estavam expostos, o que já é um absurdo. Os resultados de Brasil e Argentina devem ter acontecido. São as consequências seguindo seu rumo.