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Comissão da Verdade fracassou, reclamam escritores

por Marsílea Gombata publicado 15/07/2016 17h05, última modificação 15/07/2016 17h18
No evento “Ler para Não Esquecer”, Ivone Benedetti e Bernardo Kucinski falam sobre o escrever como forma de depuração
Divulgação
kucinski e ivone

Bernardo Kucinski e Ivone Benedetti falaram sobre impactos do golpe em suas vidas e obras

Mais importante do que a punição dos agentes torturadores do Estado durante a ditadura civil militar, faltou à Comissão Nacional da Verdade o empenho em contestar a narrativa dominante e trazer as vozes das vítimas ao palco. A avaliação é do escritor Bernardo Kucinski, professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes da USP e autor do recente Os Visitantes (Cia. das Letras) e K, relato de uma busca (2011). No debate “Ler para Não Esquecer – Ditadura e Literatura no Brasil”, realizado na quinta-feira 14 por CartaCapital e Boitempo na Fnac Pinheiros, com a escritora Ivone Benedetti, que acaba de lançar Cabo de guerra (Boitempo Editorial), Kucinski fez um balanço negativo da CNV, ao dizer que ela pode até ter sido nociva para a memória do Brasil.

“Na minha opinião, a Comissão da Verdade não foi uma coisa boa que nos aconteceu. Pode até ter sido uma coisa ruim, pois no futuro podem dizer: ‘Vocês já tiveram uma comissão da verdade, o que mais querem?’, observou, ao lembrar que o órgão que vigorou entre 2012 e 2014 foi “criado com excessivas limitações e acabou por se autoimpondo outras mais”. “A grande oportunidade da CNV era desenvolver uma luta pela narrativa diferente da que vinha sendo colocada. E nesse sentido ela fracassou completamente e sequer criou condições para poder disputar a narrativa dominante: não fez audiências públicas transmitidas pela TV e o seu relatório praticamente não foi publicado. Acabou sendo apenas mais um episódio.”

Para Ivone, cujo romance é protagonizado por um militante que passa a ser informante do regime, a maior decepção dos brasileiros com a CNV foi a não punição dos algozes do Estado, além de pontos como a não revisão da Lei de Anistia. “Era o que todos esperavam, mas não aconteceu”, ressaltou. Marcado pela perda da irmã, Ana Rosa Kucinski, militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e desaparecida desde 1974, Kucinski não vê a questão da punição como central e se preocupa com o que hoje é discutido com “jovens, filhos e netos para que o passado não aconteça de novo”. “Ficamos devendo para nós mesmos. Devemos à nossa própria dignidade e história não termos feito um trabalho mais profundo. A ditadura acabou, então, por se reciclar.”

Ao relembrar o seu envolvimento com a militância através do movimento estudantil, Ivone observou que o processo pessoal de revisionismo não é fácil e que, apesar de ter vivido intensamente a ditadura, não conseguiu falar nela por décadas. “Entrei no curso de letras pela minha afinidade com literatura e com a intenção de escrever. Mas o engajamento, todos os acontecimentos traumáticos, o clima de terror e a censura acabaram me calando”, contou. “Eu sentia que queria escrever coisas relativas à vida social e política do País, mas durante muito tempo fiquei calada, como uma forma de autocensura. Admirava quem escrevia, mas por uma questão pessoal eu me retraí. Sinto que ainda tenho muito a escrever.”

Autora do romance Immaculada (2009) e do livro de contos Tenho um cavalo alfaraz (2010), Ivone explica que todos que viveram a dor da repressão da ditadura a carregam consigo para o resto da vida. “Quando entrei na vida cidadã, eu já entrei sonegada. Eu e toda a minha geração”, ressentiu-se. “Os amigos que você perde, os seus mais caros sonhos. Essas lembranças estão diariamente na cabeça da gente. São fantasmas que nunca vamos alijar.”

Ela fez um paralelo ainda com o impacto da ditadura na construção da democracia brasileira, que segundo ela compartilha muitas falhas com outros países da América Latina. “Nossas instituições não resistem a certas pressões e, infelizmente, isso está se comprovando agora. A ditadura foi um episódio de uma realidade que continua”, explicou. “O que estamos vivendo hoje foi propiciado pela fragilidade das nossas instituições tanto como foi em 1964.” 

Se nas décadas anteriores, quando os militares suspendiam garantias constitucionais e direitos fundamentais em meio à polarização da Guerra Fria e o inimigo da esquerda era claramente encarnado na figura dos Estados Unidos, hoje as coisas são mais sutis e perigosas, ressaltou Kucinski. “O nosso inimigo hoje não tem cara, é um grande capital metafísico, que no mundo inteiro dá conta da destruição de todas as garantias conquistadas anteriormente”, avalia. "A força por trás da derrubada de Dilma Rousseff é essa força do grande capital, que não tolera regulações do Estado ou garantias trabalhistas, e que precisa explorar em nome do lucro a saúde, a educação, e o tudo o que for passível de ser privatizado e colocado a serviço desse grande capital.”