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Crônica do Villas

Com açúcar e com afeto

por Alberto Villas publicado 02/10/2014 11h10
Adorado até anos 1960, o açúcar hoje virou um vilão na mesa dos brasileiros
Reprodução
Coperçucar

Slogan da Coperçucar provocaria altas discussões nos programas matinais da televisão atuais

Ando com dó do açúcar, pobre coitado. Quando alguém no balcão pede um cafezinho e pega o açucareiro, todos os olhos se voltam pra vítima. Digo vítima porque, pelos olhares, o cliente está se envenenando e não tem muitas horas de vida pela frente. Estou falando sério.

Quando era criança, minha mãe ia ao Armazém Colombo, que ficava na Savassi, e voltava carregada de açúcar. Açúcar refinado, que chamávamos de Pérola, e açúcar Cristal, aquele menos refinado. Era com o Cristal que ela preparava o café todo dia de manhã. Mineiro gostava de colocar a água pra ferver e jogar umas boas colheradas de açúcar Cristal pra adoçar. Acho que ainda gosta.

Era uma época em que, nos restaurantes, não tinha essa história de perguntar:

- Açúcar ou adoçante?

O garçom trazia o cafezinho e junto com ele o açucareiro. Isso quando o café já não vinha adoçado.

Ainda não havia o adoçante e a vida era mais doce, eu acho. Quantas e quantas vezes eu e meus irmãos não enchemos um copo, metade aveia, metade açúcar, e fomos pra frente da televisão assistir a Rua do Ri Ri Ri, uma espécie de Zorra Total que passava na TV Itacolomi?

Quantas e quantas vezes não colocamos açúcar naquele copão de Ovomaltine, já tão doce? Era açúcar em cima do mamão, no buraco do abacate, na laranjada, tudo levava açúcar.

Nas festinhas infantis, que eram em casa, os doces corriam solto. Cajuzinhos, canudinhos, olhos de sogra, balas de coco, brigadeiros, era doce que não acabava mais. Sem contar o bolo de chocolate cheio de recheio. Antes da festa, quantas e quantas tampas de latas de Leite Moça eu não lambi?

Ninguém falava que açúcar fazia mal pro coração, que engordava, nada disso. Açúcar era açúcar pra adoçar e ponto final.

Nos anos 1970, quando apareceu o primeiro adoçante, Caetano Veloso chegou a fazer uma canção que dizia assim:

Traz meu café com Suita, eu tomo

Bota a sobremesa, eu como,

Eu como, eu como, eu como

Ninguém falava a palavra adoçante, era Suita. Quando o garçom começou com essa história de questionar o cliente, dizia:

- Com açúcar ou prefere Suita?

Quando entrou no mercado, o Suita colocou um anúncio de página inteira nas principais revistas do país que, hoje, causaria furor, uma revolução, acho até que o povo sairia nas ruas ou disparariam milhões de posts no Face. O anúncio dizia:

Ninguém ama um homem gordo!

Humilhado, o açúcar tentou reagir e, ao invés de uma página, ganhou um anúncio de página dupla nas revistas. A Coperçucar, percebendo a queda nas vendas, lançou um slogan que também hoje provocaria altas discussões nos programas matinais da televisão. O anúncio dizia:

Açúcar nele!

Tudo isso pode parecer brincadeira mas é verdade. Desde que foi declarada guerra ao açúcar, o pobre coitado anda escondido, acanhado, na pior. Já percebeu que o que mais se vê nas embalagens hoje em dia é o tal do “não contem açúcar”, “sem açúcar” ou “com redução de açúcar”?

Mas, sei lá, pensando bem, acho que tudo isso é meio balela. Quando ando pelas ruas, percebo que todo mundo está meio gordinho. Desconfio que tem gente comendo açúcar escondido, só pode ser.

Agora pense comigo. Quem resiste a uma paçoquinha Amor, aquela que fica em cima do balcão, bem pertinho do caixa no restaurante a quilo, onde costumamos almoçar umas alfaces, um punhado de brócolis, umas lascas de pepino e um grelhadinho de frango, antes de tomar um café com adoçante, claro?