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A diáspora haitiana chega ao centro de SP

por Redação Carta Capital — publicado 27/09/2012 12h07, última modificação 06/06/2015 18h20
Acolhidos por voluntários no bairro do Glicério, imigrantes tentam driblar a burocracia e se adaptar aos trabalhos oferecidos na cidade
haiti

Encontro de haitianos na igreja Nossa Senhora da Paz

*Matéria atualizada às 15h57 do dia 28 de setembro

 

Por Ricardo Rossetto

 

A diáspora haitiana chegou a São Paulo. Desde o terremoto de janeiro de 2010, que arrasou a capital, Porto Príncipe, milhares de imigrantes chegaram ao País em busca de empregos e oportunidades. Como um caminho natural, a maior metrópole brasileira se transformou no ponto final dessa trajetória. Embora não haja números oficiais, a estimativa é que cerca de seis mil haitianos vivam hoje na cidade.

 

O destino quase certo de boa parte deles tem sido o bairro da Baixada do Glicério, no Centro da cidade de São Paulo. A região, marcada por pequenas indústrias e muitos cortiços, tornou-se uma área de referência como lugar de acolhimento.

Ali se localiza a Missão Scalabriniana Nossa Senhora da Paz, conhecida como Missão Paz, composta pela Casa do Migrante, onde há 110 vagas – destas, 46 atualmente são ocupadas por haitianos- o Centro Pastoral do Migrante, responsável pela obtenção de documentos (RG, CPF e visto humanitário), e o Centro de Estudos Migratórios.

 

Mas, apesar da oferta de mão-de-obra na cidade, sobretudo na construção civil, a entrada no mercado de trabalho dos haitianos não é imediata. “São vários os problemas imediatos dessas pessoas. No mesmo dia em que chegam, elas precisam de um lugar para se alimentar e de um teto para dormir. Além disso, o problema maior tem sido com relação ao idioma, já que boa parte desses haitianos só fala a língua nativa, que é o crioulo”, explica o padre Paolo Parisi, diretor do Centro de Estudos Migratórios (CEM).  “O objetivo principal deles é encontrar um trabalho o quanto antes, para enviar dinheiro para as famílias que ficaram. Essa condição de imigrante pesa como um chumbo em seus ombros e, sem o trabalho, sua presença não se justificaria.”

Com a chegada diária de pequenos grupos de haitianos, a equipe do Programa de Mediação da Missão Paz, que já realizava atendimentos baseados em três eixos (família e comunidade, educação e saúde), percebeu a necessidade da criação de um novo eixo, o do trabalho. “No começo do ano tínhamos vários haitianos nos pátios da Missão, e aí resolvemos criar uma metodologia de trabalho, que consistiu na preparação dos currículos. Começamos então a avisar as empresas em busca de trabalhadores. Muitos delas vieram até nós”, explica Ana Paula Cafeu, assistente social na Missão Paz e mediadora do Eixo do Trabalho.

“Eu ligo para os empresários e falo quem são as pessoas que temos aqui, de onde vêm, como são. Conto que são pessoas qualificadas, que atuam em diversas áreas. Mas cabe frisar que o nosso serviço não é o de uma agência de empregos. Nossa tarefa é facilitar a colocação do imigrante no mercado de trabalho e a de evitar que caiam nas mãos do trabalho escravo” esclarece a assistente.

Apesar disso, o grupo de mediadores notou um descompasso entre primeiras ofertas de emprego e o perfil dos que procuram trabalho. “Cerca de 17% desses imigrantes têm curso superior ou formação acadêmica, e mais de 30% cursaram o nível médio. Então eles não aceitam qualquer oportunidade, mesmo porque eles destinam parte dos seus rendimentos para as famílias que ficaram no Haiti”, explica Ana Paula, que também adverte as empresas que oferecem empregos com salários baixos. “Para essas pessoas, não adianta trabalhar pelo salário mínimo.”

É o caso Patrick Dieudonne, que chegou ao Brasil no dia 14 de setembro. Natural de Pétionville, região nobre de Porto Príncipe, Patrick é filho de professores, tem diploma universitário em relações públicas e aprendeu a falar português em pouco tempo. Anos 30 anos, já trabalhou na Agência Católica Internacional de Imprensa (APIC na sigla em francês), com sede em Genebra, na Suíça, e em empresas do ramo de comércio exterior, na China. Desde 2009 havia se estabelecido na República Dominicana, onde atuou como assessor de imprensa de um hotel cinco estrelas. Agora busca vida nova em São Paulo. “Vim para cá por razões econômicas, e sei que a cidade vai me oferecer muitas oportunidades. Espero que as portas estejam abertas” diz.

Patrick Dieudonne fala sete idiomas e quer atuar como diplomata no Brasil, mas até agora não obteve junto a Polícia Federal o seu visto de permanência, o que tem dificultado o encontro de uma oportunidade de emprego ideal para o seu perfil. Até a sua regularização, ele terá que adiar por um tempo a realização de alguns sonhos em terras brasileiras. “Quero trazer a minha mulher e minhas duas filhas para morar comigo. Mas, principalmente, quero ter dinheiro para ir ver o Corinthians jogar no Pacaembu.”

Em muitos casos, com a demora em aparecer uma oportunidade ideal de trabalho, esses imigrantes se oferecem para encarar atividades profissionais fora de suas áreas de atuação. “Fiquei surpreendido com a disposição que eles têm para trabalhar”, comenta o diretor da empresa RKS Construções, empresa que estava oferecendo 15 vagas de emprego na construção civil no dia que a reportagem visitou a Missão.

“Mesmo assim, alguns não têm perfil para obras. Tivemos aqui um senhor com 34 anos de experiência em jardinagem, e outro que sempre trabalhou com o comércio. Além disso, outros tinham acabado de chegar e ainda não tinham nenhum documento.” Segundo Ronaldo, em um primeiro momento, poucos haitianos seriam contratados pela empresa.

Insegurança jurídica e social. Além da dificuldade de se enquadrar nas oportunidades de emprego oferecidas - estatísticas da Missão Paz de São Paulo mostram que, dos 590 currículos cadastrados dos haitianos, 147 (28%) conseguiram emprego graças à mediação - os moradores do país mais pobre das Américas ainda sofrem com a insegurança jurídica e social quando chegam no Brasil. A Lei do Refúgio de 1997 ainda não reconhece o haitiano como um refugiado pelo fato de que a sua imigração não é motivada por temores de perseguição por motivos de raça, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, segundo o conceito da própria regra.

“O Brasil se diz uma das nações mais avançadas em relação a essa lei, mas isso é uma contradição”, opina Ester Fátima Vargem Rodrigues, assistente social da Secretaria Especial de Direitos Humanos. “Quando a lei foi criada, não se tinha preocupações com as questões humanitárias dos haitianos. Eles começaram a chegar a partir do terremoto de 2010, aí o Brasil passou a recebê-los, em função do reconhecimento da catástrofe natural. Não acolhemos porque somos bonzinhos, mas porque teve muita pressão nas fronteiras ali no Acre e os jornais todos publicaram a situação”, diz Rodrigues.

 

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