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Novo ministério, mas nada de novo aparece

por Rui Daher publicado 20/05/2016 16h34
Se ministros servirem para alguma coisa, ferrou. Se pacificação e consenso eram necessários, também.
Valter Campanato/ Agência Brasil
novos ministros de Temer

Novo ministério: políticos que ratificam a ingovernabilidade e o acordo de elites.

Pode um país pular gerações, décadas, sem criar gestores especializados, técnicos ou com saber notório, que possam comandar ministérios? Não me refiro apenas ao falso governo interino de hoje, mas a todos, desde a segunda metade do século passado.

Nomes e sobrenomes que se repetem sem que o novo apareça ou, quando sim, em pequenas dosagens, logo trocados por políticos que ratificam a ingovernabilidade e o acordo de elites. No Brasil, como sabemos, a meritocracia é fator hereditário.

A saída deles de cena se dá de forma fúnebre. Morrem. Gustavo Capanema Filho (1900-1985) foi o ministro que mais tempo permaneceu no cargo, 11 anos na Educação. Estivesse vivo e apoiasse o golpe, Michel Temer o convidaria para uma “Ponte para o Futuro”.

Essas as primeiras moscas anunciadas para a salvação da Federação de Corporações. Se ministros servirem para alguma coisa, ferrou. Se pacificação e consenso eram necessários, também. Basta ver a mudança de conduta da M&M, Mendes e Moro Desconstrução Petistas Ilimitada, com sede em Curitiba e único alvo o ex-presidente Lula.

Quem perguntou a Aécio Neves: “EnFURNAS um robalo”? Arquive-se. Ou se Marta “La Vieille” Smith de Vasconcellos (não merece o Suplicy) se recusa a participar de governo com ministras que não adotam o mau gosto do botox?

A Maria Sílvia Bastos, no BNDES, instrumento financeiro do crescimento da indústria nacional, vocês entenderam, pois não? O quê? Nem mesmo depois da reação alegre dos economistas-chefes, empregados de banqueiros tradicionais e nouveaux, assim tornados depois de passarem por equipes econômicas neoliberais que nos ensinam declinar o verbo arrochar em nossa cauda?

Ora, a Maria Sílvia estava só esperando o Ilan “Gold Fine” para o novo turno privatizante. Por acaso, nos últimos 13 anos, eles palestraram ou escreveram coisa diferente? Preferem um Estado mais leve. Tontos ou espertos, não sei, aliviarão o peso de recursos naturais e inovações tecnológicas exclusivas.

Até aí seria o óbvio esperado. Desenvolvimento social é proibido para aqueles que vão atrás do trio elétrico sem ter lido Pierre Bourdieu (1930-2002). Medroso, o dragão guardião do Acordo de Elites se juntou à desonestidade dos proprietários de folhas e telas cotidianas e àqueles que lhes vendem as escritas em menu executivo.

Vejo muitos aliviados com a diminuição dos ministérios sociais e culturais, transformados em secretarias, o que nada significa em redução de gastos públicos. Estultos, desconhecem as estruturas mantidas ou ainda menos efetivas sem reforma de gestão, conduzida por especialistas.

Moreira Franco, cuidará dos investimentos (?). Geddel Vieira Lima, secretário e estenógrafo. Jucá planeja? Marcos Pereira, Indústria e Comércio, confessou nenhuma afinidade com o setor. Leonardo Picciani (PMDB), do Esporte, jogou botão na infância. Coelho, de Petrolina? Temos sim senhor. Ricardo “PP” Barros, na Saúde sem SUS. Também. Ciência e Tecnologia? Kassab sem Nicolellis.

José Serra, este sim! Político com farta experiência em trair partidários o que o fez permanecer longo período fazendo visitas noturnas a cemitérios. Ganhou feições de quem ali repousa. Sua experiência em relações exteriores vem dos anos em que passou refugiado no Chile

De cara, chuta o futuro que está na África da Mama China. Por que um moribundo e não um diplomata de carreira no Itamaraty? Conluio para a entrega do pré-sal?

Coerência apenas nos ministérios militares. Soldados de terra, ar e mar, como devem ser. Falta coragem para indicar políticos fabricantes de soldadinhos de chumbo, campeões de permanência no ar com aviões de papel, e donos de confecção de roupinha de marinheiros.

E chegamos a Blairo Maggi, que assumiu o ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), prometendo lutar contra o excesso de burocracia. Significa: abrandamento nos registros de agrotóxicos, liberdade para vendas de terras a estrangeiros, demarcação de terras indígenas e quilombolas ditadas pelo Congresso Nacional, e mudança na legislação trabalhista rural. No mínimo.

Blairo é senador da República, agora pelo PP do Dr. Paulo “eu nunca tive dinheiro no exterior” Maluf. A família Maggi criou seu império agropecuário e ele foi a base para diversificações de sucesso.

São naturais de São Miguel do Iguaçú, no oeste do Paraná. Sua primeira empresa foi a Sementes Maggi, fundada em 1977. Poucos anos mais tarde, os conheci. Seu André e o filho agrônomo, Blairo. Vendia-lhe adubos. Como muitos, trabalharam para serem pioneiros no Mato Grosso, em expressivas extensões de terras como produtores de soja em tecnologia avançada.

Sucederam a Olacyr de Moraes, como “reis da soja”. Hoje em dia, a cultura está mais fragmentada e reis são muitos.

Blairo Maggi, Kátia Abreu, e alguns outros grandes agropecuaristas, são exemplos de quem, a certo ponto da vida, troca o campo pela política. Tédio, talvez. Olacyr preferiu algo mais divertido.

Melhores do que muitos que passaram pelo MAPA sem entender que micorriza não é coriza em macacos, o fato de entenderem do assunto e terem construído impérios não os habilita à visão abrangente que a atividade requer. Quando em ministérios, passam a agir por interesses políticos e não da comunidade agropecuária em todos seus segmentos e expressões valoráveis. Dificilmente usam a lupa.     

Conheci pessoalmente Blairo Maggi, viajando em seu próprio carro, ele na direção, e dois diretores do grupo, em 1996. Levava-me a conhecer o porto de Itacoatiara (AM), um ano depois inaugurado, pela Hermasa, hoje Amaggi Navegação, que hoje permite o escoamento de 4 milhões de toneladas de soja, produzidas na região de Sapezal (MT), levadas até Porto Velho (RO), e depois, pelos rios Madeira e Amazonas, até a saída pelo mar.

Blairo foi governador do Mato Grosso em dois mandatos seguidos (2003/2010. Em 2005, foi agraciado pelo Greenpeace com o prêmio “Motosserra de Ouro”. Se tocou, abrandou seu ímpeto ruralista e amenizou as críticas aos ambientalistas.

Foi, também, acusado por servidor de prática de nepotismo e corrupção. Inocentado teve o processo arquivado por obra de Rodrigo Janot e do ministro Dias Toffoli.

Partidariamente possui ideário firme e forte: PP, PPS, PMDB, PR e, há 20 dias, de volta ao PP para ser ministro. Nada, pois. Vamos acompanha-lo. Com lupa.