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Política

Memória revista

Carlinhos Metralha, agente da ditadura, é "esculachado" no interior de SP

por Igor Ojeda — publicado 04/05/2013 14h03, última modificação 05/05/2013 22h05
Ato aconteceu na tarde desse sábado, 5 de maio; Carlos Alberto Augusto, acusado de ter torturado e assassinado militantes, hoje é delegado de Itatiba
Paula Sacchetta
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Banda que fez parte do esculacho de Carlinhos Metralha

Conteúdo
Carlinhos Metralha: “Não havia tortura na ditadura”
Leia aqui a entrevista completa com o ex-integrante da equipe de Sérgio Paranhos Fleury

De Itatiba (SP)

“Atenção, cidadão de Itatiba!” Olhos e ouvidos a postos. “O delegado de sua cidade é um assassino e torturador da ditadura!” Surpresa, assombro, interrogação. Não, a maior parte da população da cidade do interior paulista não sabe que Carlos Alberto Augusto, o Carlinhos Metralha, é acusado de ter torturado e assassinado militantes políticos durante o regime militar (1964-1985). Delegado de segunda classe do município desde fevereiro, ele foi alvo na tarde deste sábado de um “esculacho” organizado pela Frente de Esculacho Popular (FEP).

Os cerca de 40 integrantes e apoiadores da FEP chegaram em um ônibus que partiu de São Paulo, entre eles, ativistas de direitos humanos, familiares de vítimas da ditadura e ex-militantes que lutaram contra o regime militar. Por volta das 13 horas, começaram a distribuir panfletos contendo o currículo de Augusto para os moradores do centro da cidade. Na praça da Bandeira, na região central, além da distribuição de panfletos, outro grupo de militantes estendia diversos “varais” com cartazes pendurados que lembravam a atuação do delegado durante o regime autoritário e suas vítimas, enquanto um grupo de teatro e uma fanfarra realizavam performances artísticas relacionadas à ditadura. No chão, uma faixa com o lema “se não há justiça, haverá esculacho popular”.

“Estou horrorizada com essa história. É um absurdo. Aqui ninguém o conhece. Será que o prefeito vai tomar uma providência?”, diz Maria Goretti Rizzo. “É uma vergonha”. A senhora de 59 anos lembra a ocasião em que agentes do regime entraram em sua casa no distrito de Joaquim Egídio, em Campinas (SP), atrás do seu pai. Seu “crime” era possuir um disco do cantor e compositor Geraldo Vandré. “Eu tinha 15 anos, fiquei desesperada”, conta.

Augusto, conhecido na época também como “Carteira Preta”, integrava a equipe de investigação do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, temido torturador e principal artífice dos esquadrões da morte que atuavam nos anos de 1970. Desde outubro do ano passado, o delegado é réu em um processo criminal movido pelo Ministério Público Federal, que o acusa pelo sequestro qualificado do militante Edgar de Aquino Duarte, em junho de 1971. Na ação, impetrada pelo procurador Sérgio Suiama, também são réus Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), e Alcides Singillo, delegado aposentado. Recentemente, Suiama apresentou um pedido na Justiça para que Augusto seja afastado do cargo enquanto dure o processo.

Os moradores locais liam as informações com atenção. Aos poucos, atraídos pelo som da fanfarra e as esquetes da companhia de teatro, iam se aproximando. Nilton Godoy Barbosa reconheceu, entre as fotos de inúmeros assassinados e presos políticos da época, a do amigo Luiz Hirata, morto em 1971. “Morávamos na mesma república em Piracicaba, quando éramos estudantes”, conta, visivelmente emocionado, o senhor de 69 anos, natural de Itatiba e hoje aposentado como engenheiro agrônomo. “Sou um socialista romântico”, revela. Já Fabiana Carmem Ferreira, de 21 anos, explicava ao marido, que carregava no colo o filho de ambos, de 10 meses de idade, o que tinha ouvido de um dos manifestantes. “Estou sabendo hoje que o delegado daqui foi torturador. Estou meio abismada”, diz à reportagem. “A população deveria fazer algo. O delegado que deveria proteger a gente não pode ter nada sujo por trás.”

Carlos Alberto Augusto trabalhou na equipe de Fleury no Dops de 1970 a 1977. Foi nesse órgão de repressão que ganhou o apelido de “Metralha”, uma vez que costumava circular pelos corredores com uma metralhadora a tiracolo. Ele é acusado ainda de ter organizado o chamado Massacre da Chácara São Bento, em 1973, em Pernambuco. A ação, possibilitada pela atuação do agente infiltrado Cabo Anselmo – hoje, protegido de Augusto – teve como resultado o assassinato de seis militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), inclusive de Soledad Barret Viedma, que esperava um filho de Anselmo.

Segundo Cândida Guariba, integrante da FEP, a escolha de Carlos Alberto Augusto como alvo teve como objetivo “demonstrar    a impunidade desses agentes que cometeram crimes contra a humanidade”. Além disso, diz ela, a organização quer destacar que o Estado brasileiro continua cometendo tais crimes. “Vale lembrar que estamos em maio, mês das Mães de Maio”, explica, fazendo referência ao movimento de familiares de vítimas dos assassinatos de maio de 2006, quando, sob o pretexto de revidar os ataques do PCC, a Polícia Militar de São Paulo matou mais de 400 civis em menos de duas semanas.

* A reportagem está solicitando uma posição do delegado de Itatiba e do governo do Estado.