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Política

Prefeito de Santo André assassinado em 2002

Três são condenados pela morte de Celso Daniel

por José Antonio Lima publicado 09/05/2012 19h08, última modificação 06/06/2015 18h23
Ministério Público estadual convenceu o júri de que a morte teve motivação política
celso daniel

O prefeito assassinado de Santo André, Celso Daniel

*atualizado às 00h20

Três acusados pela assassinato de Celso Daniel, prefeito de Santo André, em janeiro de 2002, foram julgados e condenados nesta quinta-feira 10, no tribunal de Itapecerica da Serra (SP). Ivan Rodrigues da Silva, conhecido como Monstro, pegou 24 anos de prisão; José Edison da Silva foi condenado a 20; Rodolfo Rodrigo dos Santos, o Bozinho, com o atenuante de ser menor de 21 anos à época do crime, recebeu pena de 18 anos. As penas foram proferidas pelo juiz Antonio Augusto Galvão de França Hristov.

Embora em momentos diferentes do processo tenham confessado a autoria do crime, os três alegaram inocência neste julgamento e disseram ter confessado sob tortura policial. Os outros réus do caso, Itamar Messias da Silva e Elcyd Oliveira Brito, serão julgados em 16 de agosto. Nesta quinta, a defesa de ambos abandonou o plenário alegado que teriam muito pouco tempo para se pronunciar. Os advogados podem, pelo abandono do plenário, sofrer sanções da OAB. Conta a favor deles o fato de terem anunciado o abandono antes do início dos debates públicos. Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, segurança de Celso Daniel acusado de ser o mandante do crime, ainda não tem julgamento marcado.

Em 2010, um outro integrante da quadrilha que assassinou Celso Daniel foi condenado: Marcos Bispo dos Santos cumpre 18 anos de prisão.

A família de Celso Daniel sempre acreditou que as mortes tiveram motivação política. O irmão dele, Bruno Daniel, comemorou com cautela a decisão. "Este foi mais um passo. O importante é que o caso vá até o fim e que consigamos mudar essa prática do mundo da política do Brasil", afirmou. "As pessoas que se aproveitaram do esquema continuam livres, ricas".

A teoria do MP paulista, representado no julgamento desta quinta pelo promotor Márcio Augusto Friggi de Carvalho, foi a seguinte: Celso Daniel conhecia um esquema de caixa 2 na prefeitura de Santo André que bancava a campanha do PT nas eleições presidenciais de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Daniel teria morrido após descobrir que o dinheiro do esquema também estava sendo desviado para uso pessoal de determinadas pessoas. Sergio Gomes, o Sombra, um dos beneficiados pelo esquema segundo o MP, teria ordenado e participado do crime. Ele estava com Celso Daniel na hora em que o prefeito foi sequestrado.

A argumentação do MP se baseia em depoimentos de testemunhas. A família de Daniel afirma ter ouvido de Gilberto Carvalho, então secretário na prefeitura de Santo André e atual secretário-geral da presidência, que o PT mantinha o caixa 2 para a campanha eleitoral. Miriam Belchior, ex-mulher de Celso Daniel (e atual ministra do Planejamento), também confirmou a versão, segundo o MP.

Outro depoimento importante foi de Rosângela Gabrilli, filha de um dono de empresa de transporte urbano em Santo André. Rosângela apresentou notas que seriam de depósitos feitos em contas de Sombra, e declarou que este fazia ameaças para o caso de não haver os depósitos, como a possível perda de alvará da empresa.

A defesa dos réus pedia absolvição. A alegação principal: eles eram simples "favelados" em um esquema muito mais complexo.

Irmão de Celso Daniel dispara contra José Dirceu e Greenhalgh

A família de Celso Daniel sempre se mostrou convencida de que foi um crime encomendado, político e com ligações no modo como se faz política no Brasil. Bruno Daniel, irmão de Celso, se mostrou insatisfeito com a postura do então deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh, do PT, enviado do Congresso Nacional para acompanhar o caso na época. Segundo Bruno Daniel, o petista teria dito à família que Celso não havia sido torturado antes de morrer. De acordo com bruno, Jamil Murad, então deputado estadual pelo PCdoB, também negou a existência de tortura. O MP banca que houve tortura com o objetivo de tirar informações do prefeito, e que depois ele acabou sendo executado.

Antes do julgamento, Bruno Daniel também condenou a postura do Partido dos Trabalhadores no caso. "É lamentável o papel de algumas pessoas do PT, que agiram para acobertar a motivação do crime. O (José) Dirceu, por exemplo, compara o Ministério Público à Gestapo. O MP não é perfeito, mas funciona bem", disse. Para a família de Celso Daniel, tão importante quanto a ação criminal contra a quadrilha que matou o prefeito, é uma ação de improbidade administrativa envolvendo integrantes do PT que tramita no Fórum de Santo André. "São duas frentes", diz Bruno Daniel.

Crime chocou o País

O prefeito acabava de sair de um jantar ao lado do empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sombra. O empresário não foi levado pelos sequestradores. Celso Daniel ficou em cativeiro na cidade de Juquitiba (SP) antes de ser executado.

A Delegacia da Divisão de Homicídios do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) concluiu o inquérito em abril do mesmo ano. De acordo com a investigação, Celso Daniel foi sequestrado por engano. O alvo seria outra pessoa.

Na versão da polícia, o chefe da quadrilha ordenou a libertação de Celso Daniel ao perceber o erro. No entanto, um integrante do grupo teria entendido a ordem de forma equivocada e mandou um adolescente matar o prefeito.

Para o Ministério Público Estadual, representado pelo promotor Márcio Augusto Friggi de Carvalho, a morte teve outra motivação. Os seis acusados teriam sido contratados por Sombra para matar Celso Daniel. O empresário integraria um esquema de corrupção na prefeitura de Santo André que teria sido descoberto pelo prefeito.

O juiz aguarda o retorno do processo de Sombra ao tribunal para marcar a data de seu julgamento ainda neste ano.

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Colaboraram Fernando Vives e Piero Locatelli; com informações da Agência Brasil

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