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Internacional

Cynara Menezes

O dia em que quase entrevistei Hugo Chávez

Daquela época para cá, as coisas que eu sentia vontade de lhe perguntar foram mudando. Por fim, queria ter dito: "convoque eleições"
por Cynara Menezes publicado 05/03/2013 21:20, última modificação 05/03/2013 21:32
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Já passava da uma da manhã de 29 de novembro de 2007 quando o celular tocou no quarto do hotel Las Americas, em Caracas. Atendi. Era o ministro das Comunicações, William Lara, com uma ótima notícia: o presidente Hugo Chávez havia aceito minha solicitação de entrevista e iria falar comigo no avião às 15h daquele dia, enquanto se deslocava para o sul do país. Oba, pensei. Após uma semana na capital venezuelana, tinha muito o que perguntar ao comandante.

Eu e Lara combinamos que um carro do ministério passaria para me apanhar no hotel à uma da tarde. Mandei a matéria que preparei sobre o país para a CartaCapital e fiquei à espera. Enquanto isso, lá fora, os manifestantes contra o referendo proposto por Chávez ocupavam as ruas de Caracas. O trânsito na cidade, que já é péssimo, estava infernal.

Às duas, Lara me ligou perguntando se eu me importava que uma moto fosse me apanhar, porque era impossível chegar a tempo de carro. “Por mim, tudo bem”, eu disse. Em cinco minutos o motoqueiro chegou. Subi na garupa e rapidamente me arrependi: o sujeito pilotava como louco pelas ruas tomadas de carros e manifestantes, costurando entre os veículos, como os motoboys de São Paulo. Pensei: “Putz, vou morrer na Venezuela”. Descabelada, sem capacete, os olhos lacrimejando, o nariz escorrendo. E o motoqueiro a toda pastilla.

 

Enfim, chegando na estrada que dá para o aeroporto, um carro faz sinal para que paremos. Era Lara com uma péssima notícia: em virtude de um terremoto na Bolívia, o comandante cancelou o evento que faria no sul e, por conseguinte, a entrevista. O ministro me pediu desculpas várias vezes, e eu tranquilamente respondi:

– Otra vez será.

Nunca houve essa outra vez. Lara, o ministro das Comunicações, morreria em 2010 em um acidente de carro. Jamais nos falamos novamente. Em outras duas ocasiões estive a ponto de entrevistar Hugo Chávez, mas ambas foram desmarcadas de última hora. Hoje, o presidente reeleito da Venezuela faleceu, após longo sofrimento. Não estava escrito que iríamos bater este papo.

Daquela época para cá, as coisas que eu sentia vontade de lhe perguntar foram mudando. Em 2007, gostaria de ter questionado Chávez sobre se ele não estava pesando a mão demais em seu “socialismo do século 21”. Encontrei parte da população, e falo dos chavistas, assustada com as propostas que o presidente estava fazendo para mudar a Constituição, principalmente em relação à propriedade privada – e de fato perderia o referendo por isso. Depois, queria ter lhe indagado: “quando o senhor vai fazer seu sucessor? Não vai seguir o exemplo de Lula?”

Por último, quando apareceu em sua derradeira foto, ainda em Cuba, ao lado das filhas, na cama, com um sorriso artificial no rosto que me lembrou Tancredo Neves, gostaria de ter perguntado, ou melhor, lhe dito: “Presidente Chávez, convoque eleições”. A Venezuela teria ficado em situação mais confortável se seu líder tivesse feito isso antes de adoecer tão gravemente, deixando o país em um estado de suspensão que durará até a nova eleição, a ser convocada em 30 dias, de acordo com a Constituição. Será que não faltou um bom amigo, um conselheiro, para dizer isso a ele?

Eu admirava o presidente Hugo Chávez. Em Caracas, conheci a história da Venezuela e me informei sobre os projetos importantes que desenvolveu em 12 anos de governo. Estive com jovens entusiasmados em construir uma nação diferente a seu lado. Jovens com boa formação política, em um país plenamente consciente de seus direitos, onde todo cidadão conhece a Constituição. As leis são vendidas nas ruas e as pessoas compram os livretos para lerem e se informarem sobre tudo. Imaginem, camelôs de leis. Isso me impressionou muito.

Há políticos e há os Hugo Chávez, que aparecem uma vez na vida de um país, para o bem e para o mal – e Chávez, com todos os defeitos que pudesse ter, foi para o bem. O mundo fica pior quando um político assim se vai. É o tipo de homem público que tem ideias próprias, que não teme desafios, que tem sonhos, objetivos de transformação. Um líder latino-americano tão importante para o equilíbrio do poder no mundo que só se vai reconhecer seu papel histórico, estou segura, alguns anos mais para a frente. Um homem de Esquerda, com letra maiúscula. Sobre isso não resta nenhuma dúvida.

Adeus, comandante.

Venezuela

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