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Irã usa “terceiro mundo” para romper cerco dos EUA

por José Antonio Lima publicado 27/08/2012 11h01, última modificação 06/06/2015 18h18
Teerã busca apoio diplomático do Movimento dos Países Não Alinhados, mas impasse sobre programa nuclear deve continuar
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Membros das delegações do MNA se reúnem em Teerã, no domingo 26, primeiro dia da conferência. Foto: AFP

Acuado pelas sanções e pressão pública dos Estados Unidos e da União Europeia por conta de seu programa nuclear, o Irã encontrou um caminho inusitado para tentar furar o cerco das potências ocidentais. Teerã quer ressuscitar o prestígio do Movimento dos Países Não Alinhados (MNA), criado no auge da Guerra Fria, mas hoje insignificante, para legitimar suas pesquisas atômicas e contrapor o que chama de “política de intimidação” de Washington.

Na estratégia iraniana, esta semana é decisiva. O país sedia a conferência de chefes de Estado do MNA como presidente rotativo da instituição (posto assumido no domingo 26) e receberá em seu território representantes dos 120 membros do MNA, muitos deles chefes de Estado, e de outros 17 observadores, incluindo o Brasil. Diversos locais de Teerã receberam novas pinturas, moradores de rua foram removidos e a cidade terá cinco feriados entre 28 de agosto e 1º de setembro para facilitar o deslocamento das autoridades. A intenção do Irã é impressionar, para buscar seus dois objetivos na conferência: abrir caminhos para romper o isolamento econômico imposto pelas duras sanções ocidentais e moldar o discurso e as causas dos não alinhados a seus interesses particulares.

No campo econômico, a estratégia do Irã será criar parcerias com o “Terceiro Mundo”. O país pretende abrir setores de sua economia para investidores estrangeiros e oferecer ajuda a nações menos desenvolvidas. Segundo afirmou o ministro da Indústria do Irã, Mehdi Ghazanfari, à agência Mehr, os participantes da conferência serão apresentados ao potencial mineral, econômico e industrial do Irã e receberão ofertas para a realização de parcerias técnicas e no campo da engenharia. Não devem faltar interessados. Durante a semana, o secretário do Ministério do Exterior do Paquistão, Munawar Saeed Bhatti, afirmou que as sanções internacionais não podem impedir a cooperação econômica entre os países do MNA.

No campo político, o Irã fará um lobby também intenso. A intenção do país, como afirmou o ministro da Defesa, Ahmad Vahidi, é “pavimentar o caminho para a expansão das causas da República Islâmica”. Para isso, o país pretende transformar a conferência no “ponto de virada” na história do MNA, fazendo da hoje inócua organização um fórum respeitado internacionalmente.

Há dúvidas se o Irã terá capacidade de fazer isso. O país dá grande importância para a conferência. Prova disso é que o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo do Irã, fará um discurso para todos os presentes. Khamenei costuma se dirigir apenas a líderes de países muçulmanos, mas abrirá uma exceção na conferência para mostrar a disposição do Irã de fazer novas amizades. O Irã terá também as ferramentas para moldar o discurso dos não alinhados. Como presidente do MNA, o Irã poderá dar as diretrizes iniciais do documento final da conferência e, provavelmente, vai tentar incluir no texto uma defesa ao direito de buscar energia nuclear e críticas a Israel.

A forma como o Irã fará isso, entretanto, será decisiva. Na questão nuclear, o país não pode sugerir uma defesa da obtenção de armas nucleares. Ao menos oficialmente, o programa iraniano tem fins pacíficos e não bélicos. Quanto a Israel, as chances de polêmica são grandes. A linguagem da liderança iraniana flerta com o antissemitismo, e para muitos é antissemita comprovadamente. Nas últimas semanas, os principais líderes iranianos classificaram Israel como “câncer” do Oriente Médio, termo inaceitável para a grande maioria das nações. Mais problemática ainda para o Irã será a questão síria. Como os Estados Unidos, a Turquia, a Arábia Saudita e o Catar, o Irã vem interferindo na Síria, mas em apoio ao ditador Bashar al-Assad, seu principal aliado regional. Encontrar uma forma de defender isso em meio a países que se uniram em 1961 justamente para contrapor a intervenção estrangeira será praticamente impossível.

A tentativa do Irã de romper seu isolamento por meio do MNA é legítima, porém não deve ter o peso que o regime iraniano espera, pois muitos dos países não alinhados são irrelevantes no cenário internacional. Além do mais, o isolamento do Irã é fruto hoje de um único fator, seu programa nuclear, e não há indicações de que o Irã ou os Estados Unidos estejam dispostos a transigir. O Irã estaria, segundo relatório divulgado na semana passada pelo Instituto da Ciência e Segurança Internacional (Isis, na sigla em inglês), limpando as instalações de Parchin, onde testes nucleares teriam sido realizados há alguns anos, para assim esconder da comunidade internacional suposto fim bélico de seu programa atômico. Os EUA, por sua vez, continuam dispostos a manter a pressão sobre o Irã. Isso ficou claro na última semana, com a confirmação de que o porta-aviões USS Stennis será reenviado para o Oriente Médio, levando a dois o número de embarcações do tipo na região, algo que o Irã considera intolerável. Como se vê, apesar das tentativas do Irã, a tendência é que o impasse, e o isolamento, continuem.