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Cultura

Crônica do Villas

Vigilantes

por Alberto Villas publicado 17/05/2013 09h44
Minha turma dessa vez são 42 pessoas. Quarenta e uma mulheres e eu. Homem foge do Vigilantes do Peso como o diabo da cruz. Por Alberto Villas
©AFP/Arquivo / John Moore
Obesidade

A menina participa de uma aula de nutrição em programa especial para adolescentes e crianças acima do peso em novembro de 2010, em Aurora, Colorado.

De tempos em tempos volto ao Vigilantes do Peso. É só me sentir um pouco gordinho que faço a inscrição e lá vou eu. Agora, por exemplo, estou nessa. Toda quarta-feira, sete da noite, marco ponto no décimo quarto andar de um edifício da Rua Roma, na Lapa, aqui em São Paulo. Sou fã dos Vigilantes desde que era magrinho.

Confesso que custei a me decidir, a ir pela primeira vez. Imaginava ser um massacre em público. Para mim, participar dos Vigilantes era subir num palco onde as pessoas se apresentavam e se pesavam para espanto da plateia. Nada disso. A pesagem é tranquila, tudo muito discreto. De longe, sinto quem na semana emagreceu, ficou na mesma ou quem engordou só pelo sorriso no rosto ou pela cara de muxoxo. Antes de pesar, as pessoas fazem questão de tirar quase tudo do corpo, tudo que é peso. Além dos sapatos, o celular que está na mão, as chaves, moedas, cinto, brincos, anéis, qualquer coisa que possa acusar umas graminhas a mais.

Depois de pesar, voltam para os seus lugares e sempre comentam coisas do tipo:

- Perdi 120!

- Perdi 80!

- Engordei 200, não sei porque. Segui tudo tão direitinho...

- Ganhei 100 mas sei que exagerei.

Ou então:

- Nem emagreci, nem engordei. Tá bom demais.

Minha turma dessa vez são quarenta e duas pessoas. Quarenta e uma mulheres e eu. Sim, homem foge do Vigilantes como o diabo da cruz. Fico lá no meu cantinho quieto ouvindo as histórias. Depois que todos pesam vem uma palestra.

Quantas vezes comer ao dia?

Como controlar os pontos?

O que é alimento pleno?

Light ou diet?

Como resistir aquele pão de queijo?

Vigilantes do Peso não é dieta! Isso é regra número 1 ali naquela sala. Quando uma deixa escapar uma frase como... “essa dieta que estou fazendo”, a palestrante logo interrompe:

Dieta não!

Tem perguntas que sempre aparecem em todas as reuniões:

- Maçã é zero ponto, não é mesmo? Mas e se eu comer cinco maçãs?

- Pão integral é menos pontos que o pãozinho francês?

Tem relatos estarrecedores:

- Sou viciada em chocolate! Já cheguei a comer dez Kit Kat de uma vez!

- Na Páscoa, fiz questão de pesar um por um. Na minha casa tinha mais de oito quilos de ovos!

- O meu problema é pizza. Sou viciada, como até no café da manhã!

- Pra mim é o tal do brigadeiro. Toda noite como umas dez colheres!

Tem relatos contundentes:

- Pra cada cachorro quente que eu como, corro quatro quilômetros.

- Briguei com o meu namorado, fui direto pro Amor aos Pedaços e cai de boca.

Engraçado é quando uma pessoa diz que adora leite condensado e alguém vem logo com uma solução.

- Eu substitui o leite condensado pelo Molico. Você pega duas xícaras de Molico, pinga umas gotinhas de baunilha... e por ai vai. Garantem que é a mesma coisa.

É nada, né?

Mas o mais engraçado mesmo é quando a palestra termina e a turma vai embora. O elevador chega, entra um,  dois, três, quatro e o quinto fica sempre temeroso de entrar, mesmo vendo que está escrito na porta que a capacidade é para oito pessoas.

E naquele silêncio do elevador descendo, tem sempre um que comenta...

- Não é fácil, né?