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Crônica

Sete Vidas

por Alberto Villas publicado 14/10/2016 04h36
A história de Paulo
Novo Soberbo

Novo Soberbo está assim agora

A estrada era estreita, tinha muita poeira nos tempos de seca e muita lama nas temporadas de chuva. No meio do caminho, havia um povoado chamado Soberbo, que de soberbo não tinha nada, era pura simplicidade. Havia uma pracinha de terra batida, alguns postes de madeira com lâmpadas de 40 watts, pouco mais de uma dúzia de casas e um armazém que vendia Alpargatas 7 Vidas, disso me lembro bem. 

Nessa pracinha, havia um casarão com uma varanda enorme, bem típico do interior de Minas Gerais. Uma escada de pedras tortas, portas e janelas compridas, que eram fechadas com tramelas. Um porão sombrio, onde galinhas caipiras faziam os seus ninhos e morcegos passavam o dia dormindo. 

O meu pai sabia de olhos fechados quando estávamos chegando em Soberbo. Era ali naquele casarão de janelas e portas compridas, de telhas cobertas de musgo e heras subindo pelas paredes, que morava o Paulo. 

Ninguém sabia ao certo seu sobrenome, sua idade, mas era um menino, talvez de uns nove, dez anos. Quando o jipe do meu pai estacionava na porta, Paulo já estava na varanda acenando, feliz da vida. 

Paulo tinha os olhos ligeiramente arregalados, a boca grande, as orelhas levemente de abano e um sorriso largo, delicioso, que quando ele ria mostrava todos os seus dentes. Usava uma calça de listrado, uma camisa branca sempre abotoada até o último botão e, nos pés, Alpargatas 7 Vidas.

Sabíamos pouco dele, pensando bem, quase nada. Era um tempo em que ninguém falava em síndrome de Asperger, síndrome de Rett, síndrome de Down. Sabíamos apenas que o Paulo tinha dificuldade para falar e que, desde que nasceu, só tomava uma mamadeira de leite com banana. 

Isso quem nos contou foi nossa mãe, que vivia cheia de temores e que era meio parente da mãe do Paulo, que nunca vou lembrar o nome dela, nem mesmo revirando o meu baú de memórias e fotografias. 

A única foto que tínhamos dele acabou sumindo com o tempo na poeira da estrada. Era uma fotografia em preto e branco, ele na varanda do casarão, mamadeira na mão, sorrindo, como sempre. Talvez no verso da fotografia tivesse alguma informação, já que o meu pai legendava uma por uma. 

Antes de seguirmos pra Fazenda do Sertão, sempre fazíamos um pit stop ali naquele casarão, onde tomávamos um café quentinho e comíamos um bolo de fubá fumegando, feito especialmente para a nossa família.

Paulo falava pouco, quase nada e com dificuldade, mas revelava no sorriso sua alegria de nos ver ali uma vez por ano, no começo das nossas férias escolares. 

Naquele mundo cruel dos anos 60, Paulo era considerado apenas um menino retardado. O mundo era mesmo cruel, um mundo que chamava de caduco quem tinha Alzheimer, que chamava de abobado quem tinha problemas cerebrais, que chamava de aleijado quem tinha algum problema físico.

Nós gostávamos do Paulo mas aquela coisa dele apenas se alimentar de leite com banana impressionava – e muito – os cinco filhos apertados naquele jipe, quando falávamos disso, pegando a estrada rumo a Fazenda do Sertão.

Minha mãe tinha na cabeça que todo menino que nascia com um problema como o do Paulo era porque os pais eram primos. Não sei de onde ela tirou isso mas nos deixava alertas para nunca nos apaixonarmos por uma prima, por um primo.

O tempo passou. Veio a televisão em cores, o micro ondas, o fax, o CD, o cartão de crédito, a senha, a internet, o iPhone, o iPad, veio o freio ABS, o telemarketing, o Netflix, a Amazon, o Uber, o jornal online, o e-book, a urna eletrônica, o kiwi, a comida delivery, o sushi de manga e nós nunca mais tivemos noticia do Paulo. Isso até ontem.

Minha irmã mais velha, que deu pra garimpar histórias esquecidas da família, me ligou de Brasília para falar dele. Ela contou que Soberbo não há mais. O povoado foi inundado para a construção da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves.

Os moradores do vilarejo foram deslocados para uma área próxima dali que recebeu o nome de Novo Soberbo. É la que mora, ainda hoje, o Paulo e a irmã Neide. Recentemente ele andou doente e foi motivo de estudos. Os médicos queriam saber como uma pessoa que já passou dos 60 anos sobrevive apenas com leite e banana.

As primeiras notícias que chegaram dão conta de que Paulo está bem. Continua com o leite e a banana todos os dias e tão feliz como era aquela criança na varanda, acenando pra gente assim que ouvia o ronco do jipe do meu pai. 

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