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Outras palavras

por Alberto Villas publicado 26/08/2016 04h58
Nas crônicas de Rubem Braga, surgem novas palavras que ficaram velhas

Um dia eu comecei a anotar num bloquinho palavras que ninguém mais estava usando, palavras que estavam desaparecendo do mapa. Quando vi, tinha um livro na mão.

O meu Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Morta, que saiu pela Editora Globo, tem palavras como embatucado, pinguço, salafrário, alinhado, marmota e mais umas outras mil.

Quatro anos depois, retomo o bloquinho para, futuramente, lançar uma edição revista e ampliada.

A ideia surgiu ao ler três livros do saudoso Rubem Braga, que escreveu crônicas e mais crônicas pra revista Manchete, pro Correio da Manhã, pro Diário de Notícias e que agora estão reunidas dentro de uma caixa.

Essas crônicas foram escritas quando eu ainda era um menino que usava uniforme de gala, que viajava nas asas da Panair, que passava trote, que usava brilhantina no cabelo.

Além de palavras como espíquer e atopetado, ele usa frases que eram uma coqueluche na época. Hoje, ninguém diz que o Galvão Bueno é um espíquer ou que o aeroporto do Galeão estava atopetado de gente no dia seguinte que terminaram os Jogos Olímpicos, não é mesmo?

Quando Rubem Braga sentou na sua máquina de escrever para colocar no papel suas ideias de crônicas, ninguém usava, por exemplo, a palavra chapinha. Foi por isso que ele disse que um famoso compositor da música popular brasileira tinha o cabelo espichado.

No dia da inauguração do Canecão, no Rio de Janeiro, ele registrou que, ao fundo, havia um conjunto musical cantando iê-iê-iê. Ninguém falava banda de rock. Renato e seus Blue Caps era um conjunto musical que cantava iê-iê-iê.

No mesmo dia em que o Canecão abriu suas portas, o cronista ficou encantado com as moças bailando ao fundo. Certamente eram umas pequenas notáveis.

Rubem Braga não digitava, ele batia em suas pretinhas coisas supimpas. Como aquele jornalista que foi pro Rio de Janeiro cavar um emprego. Procurar emprego, sair em busca de um trampo era cavar um emprego. Da mesma maneira, cavava-se uma oportunidade para cantar num programa radiofônico da Mayrink Veiga.

Depois que o emprego estava garantido, segundo Braga, a pessoa dava um murro danado. Sim, aquele que trabalhava muito, que acordava às cinco da matina pra ir à luta, era uma pessoa que dava um murro danado.

Havia racismo naquela época como ainda existe hoje. A diferença é que todos faziam piadas e riam, ninguém ia preso, como se aquilo fosse uma coisa normal e engraçada.

Rubem Braga registrou em uma de duas crônicas que naquele ano, tão longínquo pra gente hoje, seria difícil aparecer um samba tão genial quando O teu cabelo não nega. Lembra da música que dizia: O teu cabelo não nega, mulata/Porque és mulata na cor/Mas como a cor não pega, mulata/Mulata eu quero o teu amor?

Pois é, o genial cantor e compositor Blackout fazia sucesso na época e Braga registrou que ele foi cantar num cassino porque estavam precisando de um artista colored.

O mundo era outro. Um mundo em que o cronista contava que sua vitrola estava desligada, que as pessoas usavam a cuca para se valorizar e que a frequência naquela boate era má. Era um mundo tão diferente do nosso hoje que o cronista, ao traçar perfis de amigos, muitas vezes terminava dizendo: Ele vem de uma família de cor e fuma Hollywood.

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