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Cultura

Crônica do Villas

Os quatro cavaleiros do apocalipse

por Alberto Villas publicado 03/09/2015 11h12, última modificação 03/09/2015 11h21
“Nossa caminhadura, dura caminhada pela noite escura”. (Gilberto Gil)
Divulgação
Arnaldo Jabor

Arnaldo Jabor está no mesmo barco de outros colegas, cujo único objetivo é afundar o barco inimigo

O primeiro, é mineiro de Juiz de Fora. Desde pequenininho, sempre teve um texto impecável. Começou no Jornal do Brasil e, um dia, saiu da redação para entrar para a história. Passou anos e anos fora do Brasil amargando um duro exílio. Voltou com uma sunga de crochê na mão e muitas ideias na cabeça. Trouxe pro centro da conversa – pra começar - o casamento gay, a profissionalização da prostituição e a descriminalização da maconha. Foi ele quem me apresentou Nina Hagen, aquela linda garota de Berlim. Já trabalhei com ele duas vezes. A primeira foi no Jornal de Vanguarda, da TV Bandeirantes. Foi lá que colocamos no ar uma das matérias mais originais da minha história de jornalista. O traficante Escadinha fugira do presídio - de helicóptero, uma fuga espetacular - e as imagens da nossa reportagem eram as de um videogame, onde um traficante fugia da cadeia num helicóptero.

A segunda vez que trabalhei com ele, foi no caderno de ecologia da Folha de S.Paulo, o Viva. Lá, juntos, denunciamos a morte de baleias, a poluição das metrópoles, o mar que não estava pra peixe, falamos de Tai Chi Chuan e até mesmo do exagerado Cazuza e do Jethro Trull, isso no final dos anos 80. Li quase todos os seus livros. O que é isso Companheiro? O crepúsculo do Macho, Sinais de vida no Planeta Minas, Entradas e Bandeiras e Hóspede da Utopia. Ele é pai de Tami e Maya, aquela que vive na crista da onda. Lembro-me que costumava andar de bicicleta pelas ruas de Ipanema, não sei se anda ainda. A última vez que o vi, foi saindo do restaurante Couve-Flor, no Jardim Botânico, em cima de uma motocicleta cor de vinho.

O segundo, é um imortal que veio de São Luís do Maranhão. Nunca o vi sem estar cabeludo. Crítico de arte, nos anos sessenta era um poeta concreto. É apaixonado por  gatos e talvez por isso, um dia, ganhou da turma do Pasquim, o apelido de O Gato. Foi do Partidão e também amargou o exílio. Passou pela União Soviética, Argentina e Chile. Foi, fora do país, em meados dos anos 70, que escreveu longos e lindos versos que foram transformados num Poema Sujo. O livro chegou um dia em Paris pelo correio, presente de um primo. Li uma, duas, três vezes e chorei umas dez. Nunca o vi pessoalmente, mas já dividimos uma página de críticas na IstoÉ. Ele, falando de artes plásticas e eu, de música. Dele, não li todos os livros, mas alguns. A Luta Corporal, Quem matou Aparecida?, Dentro da Noite Veloz, Na Vertigem do Dia, Em alguma parte alguma, Rabo de Foguete e até mesmo aqueles deliciosos Zoologia Bizarra e Um gato chamado Gatinho. Mora no Rio desde que me entendo por gente e quando dá entrevistas no seu escritório, entupido de livros, morro de inveja.

O terceiro é o paulista mais mineiro que conheço. É jornalista, compositor, escritor, roteirista, letrista e animador cultural. A primeira vez que o vi na televisão foi entrevistando Cartola, não sei se  no Jornal Hoje ou no Jornal da Globo. Foi nessa entrevista que o compositor de O mundo é um moinho,  disse que seu sonho era ter uma música sua gravada pelo rei Roberto Carlos, o que nunca aconteceu. Era também cabeludo e um gato, como o poeta. É dele a música que a gente costuma cantarolar todo fim de ano: Hoje a festa é sua/Hoje a festa é nossa/É de quem quiser/E vier. Foi ele quem lançou as Frenéticas, aquelas bonitas e gostosas, no tempo em que comandava o Frenetic Dancig Days. Foi ele quem descobriu e nos apresentou Marisa Monte, cantando Chocolate numa boate no Rio. Foi casado muitos anos com a Marília Pera e um curto tempo com a chiquérrima da Constança Pascolato. Dele, li a biografia do Tim Maia, A primavera do Dragão, o Canto da Sereia, Bandidos e Mocinhas e Noites Tropicais. Cheio de bossa, sempre que dá entrevistas, tem como pano de fundo, um pôster do Hélio Oiticica: Seja marginal Seja herói.

O quarto é também tudo ao mesmo tempo: Cineasta, roteirista, diretor de TV, produtor, dramaturgo, jornalista e escritor. Dele, vi três filmes e li três livros. No cinema, Eu sei que vou te Amar, Toda nudez será castigada e Eu te amo. Na literatura, Sanduíches de Realidade, A invasão das Salsichas Gigantes e Amor é prosa, sexo é poesia. Com Rita Lee, fez uma canção que adoro. Toda vez que ouço no rádio, ela não me sai da cabeça. Começa assim: Amor é um livro/Sexo é esporte/Sexo é escolha/Amor é sorte/Amor é pensamento/Teorema/Amor é novela/Sexo é cinema. A última vez que o vi foi entrando na Livraria da Travessa, em Ipanema. Me deu apenas um rápido alô e entrou.

Hoje, os quatro – Fernando, com 74 anos, Ferreira com 84, Nelson com 70 e Arnaldo com 74  – estão todos no mesmo barco. Pelo  que sinto, com o único objetivo de afundar o barco inimigo.

Acho que não levaram a sério aquela velha canção de Jards Anet da Silva, o Macalé, que fala do movimento dos barcos.  Uma canção que não toca mais no rádio mas que também não sai da minha cabeça. Aquela que diz que é impossível levar um barco sem temporais.