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Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

"O Futebol" e a solidão das pessoas dessas capitais

por Matheus Pichonelli publicado 29/04/2016 16h35, última modificação 29/04/2016 19h50
No filme de Sergio Oksman, a distância entre pai e filho é a distância de expectativas de um país inteiro. O futebol é o ponto simbólico da dissolução
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Cena do filme O Futebol

Em junho de 2013, um estrangeiro que visitasse São Paulo, maior cidade do Brasil, às vésperas da Copa das Confederações, fatalmente encontraria dificuldade para identificar onde estava a terra boa e gostosa da morena sestrosa descrita por Ary Barroso.

Naquele mês, jovens mobilizados paravam o trânsito contra o aumento da passagem de ônibus e a polícia responsável por reestabelecer a ordem, seja lá o que isso significa, mostrava os dentes do processo de quase 20 anos de amadurecimento democrático com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo.

Os protestos daquele mês derrubaram a popularidade de governantes, indicaram a urgência de uma renovação política e exigiram mudanças de fato na relação entre representantes e representados.

Alguns governantes chegaram a demonstrar desconforto, mas entre a rebelião e as eleições, que consagrariam pouco depois as mesmíssimas fórmulas já identificadas como uma bomba-relógio, havia uma festa popular chamada Copa do Mundo.

Alguma coisa explodia em 2013, mas a expectativa construída em torno do Mundial tinha na argamassa os sonhos de um país finalmente prestes a cumprir seu ideal.

O país que exigia na ONU um assento permanente no Conselho de Segurança hoje se bate por uma cadeira rotatória da Presidência – e os símbolos de um projeto de grandiosidade caíram um a um, a começar pelo bilionário candidato a homem mais rico do mundo, passando pelos mares de lama em Minas Gerais, o surto de moléstias e microcefalia país afora e as ciclovias que não suportam a primeira onda às vésperas de outro grande evento, as Olimpíadas, no Rio.

“Não tem clima de Copa, né?”, diz o diretor Sérgio Oksman ao pai, Simão, no filme O Futebol, vencedor da competição brasileira de longas e médias do Festival de documentários "É Tudo Verdade".

Dentro do carro, pai e filho mal pareciam estar a alguns quilômetros de Itaquera, para onde os olhos do mundo se direcionavam para o jogo de abertura da Copa.

Fazia frio, o céu estava nublado e a cidade, calada. Oksman tentava aos trancos retomar uma conversa interrompida com o pai havia 20 anos. O silêncio fora quebrado parcialmente com uma visita ao Brasil em 2013. O silêncio dos constrangidos fora driblado com uma visita dos dois ao Pacaembu. O futebol, a exemplo de um país inteiro, era a linguagem que ainda os ligava.

Daquela visita surgiu a ideia do diretor de retornar ao Brasil no ano seguinte e assistir à Copa do Mundo com o pai, que não sabia, ou não queria saber, se o filho distante morava em Madri ou Barcelona.

Dali em diante a distância entre expectativa e realidade segue em paralelo com a expectativa de um país prestes a explodir. O futebol, novamente, é o ponto de uma dissolução simbólica: a pujança dos 3 a 0 na final da Copa das Confederações contra a Espanha se esborracharia em cada gol da Alemanha na semifinal da Copa do Mundo no ano seguinte.

Da plateia, o espectador que esperava um reencontro, com um possível entendimento entre pai e filho e alguma trilha sonora de densidade dramática ao fundo, se espatifou. Estranhos um para o outro, eles acompanhavam a Copa das Copas como se ela acontecesse em outro planeta; o mais perto que chegaram de festa foi uma viela de Itaquera, onde a certa altura do filme eles estacionam o carro para ouvir os gritos que vinham do estádio sem ter ideia do que acontecia ali dentro.

Não havia rádio no carro porque o carro saiu da fábrica sem o equipamento. Era a explicação do pai para justificar a sua disposição a mudanças a certa altura da vida.

Na narrativa contemporânea do filho pródigo, não é o filho quem sai de casa em direção ao mundo. É o pai, indisposto a deixar de ser filho, que deixa a família e vai buscar abrigo na casa da mãe. No esforço do filho em identificar qualquer laço entre eles além da desistência e do trauma não articulado como trauma, o futebol serve como catalisador de uma expectativa frustrada.

O pai não conversa. Não quer conversar. Não muda. Não quer mudar. É turrão, teimoso, insolente, ríspido. Ainda assim nutrimos simpatia por ele. As ruas por onde eles passam, sem se fixar exatamente em nada, são as ruas que nós, brasileiros comuns, caminhamos todos os dias.



Os lugares nos são familiares, embora, de dentro do carro, onde estamos todos, tenhamos certa dificuldade em identificar qualquer endereço.

No documentário, o retrato do Brasil da Copa das Copas é uma realidade gelada, onde todas as ruas parecem iguais, todos os bares parecem iguais e onde os abrigos se revelam no subsolo – o amparo, mostra sem querer o diretor, é uma garagem de prédio escura.

Aquele pai, aparentemente seguro na própria rotina, bate no peito para dizer que ninguém entende mais de futebol do que ele, mas se perde na própria memória. Do passado, diz, não tem muito o que falar. Não tem muito a aprender. Não tem nada a emendar.

O pai do filme é um país inteiro que se silenciou em duas décadas. Que, por não reconhecer o sofrimento, disfarça o sintoma que a câmera cansou de flagrar: aquele homem, com seus tiques, seu TOC, seus vícios, é uma bomba-relógio incapaz de reconhecer a si mesmo.

Aquele homem, quando na direção, transita aos solavancos. Ele se transforma em sua própria cidade a zunir que, sem cores ou grandes emoções, suporta os dias de agonia entre rangidos de dentes como num velho tique-taque da música de Chico Buarque. Os dias ali parecem menos insuportáveis com uma piada no bar, o futebol pra aplaudir, um crime pra comentar, um samba pra distrair - a cachaça, a fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir, e os andaimes (capturados pela câmera) pingentes que a gente tem que cair.

Num lapso de lucidez alcoólica, aquele homem prevê: a Alemanha vai ser campeã. Ou a Argentina. (Foram os dois finalistas). E o Brasil, admite sem disfarçar a amargura, não tem condições de vencer.

Aquele homem e o clichê do próprio país se encontram numa esquina ao fim de uma vitória enganosa na primeira fase para cantar a Aquarela do Brasil. Bêbados, exaltam o samba e pandeiro, discorrem sobre fontes murmurantes que matam a sede e onde a lua vem brincar. Ao redor, aquele país lindo e trigueiro escurece no frio e na miséria da solidão das pessoas, todas elas, dessas capitais.