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Nada será como antes

por Matheus Pichonelli publicado 28/04/2012 09h53, última modificação 06/02/2014 10h35
O mundo de hoje, com suas grades curriculares e remédios contra hiperatividade, impede o surgimento de novos gênios. A música atual é prova disso...
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Capa do álbum Clube da Esquina, disco de cabeceira da música brasileira

Inspirado pela entrevista da Beatriz Mendes com os irmãos Márcio e Lô Borges (leia AQUI), passei o último fim de semana lendo, num fôlego só, o livro “Os Sonhos Não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina”. Cheguei quase 16 anos atrasado, já que a primeira edição do livro escrito pelo irmão mais velho, Márcio Borges, é de 1996.

Mas os 40 anos do lançamento de Clube da Esquina, um dos discos de cabeceira de qualquer coleção da música popular, me levaram de braços abertos ao relato sobre um grupo, uma localidade e um período únicos da história brasileira. Foi no “quarto dos meninos” do 17º andar do edifício Levy, centro de Belo Horizonte, em plena ditadura militar, que os irmãos Borges (eram 11 no total) viram arvorecer o gênio de Bituca, mais tarde conhecido como Milton Nascimento.

Saí do livro um tanto bêbado, de tanto ler o quanto aquele povo bebia enquanto pulava de boteco em boteco na capital mineira, entre garrafas de cerveja, batidas de limão, toadas despretensiosas no violão e conversas sobre cinema, música, presente e futuro – um futuro que tinham nas mãos e há muito virou passado. Passei a entender um pouco mais os motivos que me levam a ter Clube da Esquina (versões 1 e 2) entre minhas dez canções favoritas em todos os tempos, línguas e gêneros.

Aquele quarto era a prova material, em notas e acordes, da teoria dos seis graus de separação – segundo a qual são necessários no máximo seis laços de amizade para duas pessoas quaisquer do mundo estarem ligadas. Ali não era preciso ir muito longe: Marílton conhecia Wagner Tiso, que conhecia Milton, que conheceu Fernando Brant, que conheceu Márcio, que era irmão de Lô, que conhecia Beto Guedes, que conhecia Flávio Venturini, que conheceu Milton, que um dia conheceu Jeanne Moreau, que um dia fez um filme com François Truffaut, que um dia inspirou uns meninos que se reuniam no mesmo quarto sem saber que produziriam música para o resto do mundo.

Das veredas daquele apartamento, mais tarde migradas para a esquina das ruas Divinópolis com Paraisópolis, em Santa Tereza, BH, nasceram encontros e amizades com o que tinha de melhor daquele tempo: Elis Regina, Caetano Veloso, Chico Buarque, Raimundo Fagner, Belchior, Raul Seixas, Rogério Sganzerla. A impressão é que o mundo tinha no máximo 500 habitantes, metade de Minas.

Ao fim, fiquei com muitas perguntas na cabeça: como a música conseguiu reunir tanta gente boa num único período e espaço? É possível que um grupo como aquele surja novamente algum dia e provoque os mesmos frutos?

Me leve a mal se quiser, mas as respostas não são nada animadoras – e faço um parêntesis para explicar o porquê.  Em certa cena de As Invasões Bárbaras, obra-prima de Denis Arcand, os personagens se queixam da mudança dos tempos e da vigência de um período sombrio, marcado pela ignorância, pelo preconceito e pelo mau gosto. É quando um dos personagens responde: os gênios são frutos de períodos únicos, que convergem influências, coragem e disposição para colocar tudo de cabeça pra baixo e fazer revoluções. Citam a Florença do Renascimento como exemplo. E lamentam terem nascido numa era de vacas magras, longe de grandes poetas e artistas.

Guardadas as devidas proporções, tivemos momentos férteis em solo nacional. A terceira leva do modernismo, por exemplo, gestou na mesma barriga Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector. Hoje temos Augusto Cury, e um ou outro autor consagrado reclamando em velhos espaços de jornais da emergência das classes populares (décadas atrás, os gênios eram porta-vozes das classes populares, mas isso é papo pra outra conversa).

Para ficar no exemplo da música brasileira, basta lembrar da reunião de bandas muito acima da média surgidas, entre o fim dos anos 70 e começo dos 80, nas garagens de Brasília ou no Circo Voador, no Rio. Ou na Ipanema da bossa nova, a Bahia da Tropicália, a Recife do mangue beat...

São exemplos de que a obra de arte é um ofício coletivo.

E hoje?

Bom, hoje as coisas de fato mudaram. Na Belo Horizonte dos irmãos Borges e Bituca, todos pareciam minimamente livres para tatear talentos e escolher rumos com calma. Como cantou Beto Guedes, um dos caçulas do grupo: era possível “dar um tempo de prestar atenção nas coisas, fazer um minuto de paz, num silêncio que ninguém esquece mais”. A própria ideia de tempo era outra, e ele parecia jogar a favor.

Entre os fatos que mais me impressionaram no relato de Márcio Borges está a narração de uma certa “falta de privacidade” nos espaços em que vivia: a casa sempre tomada por amigos (dele e dos irmãos), sempre dispostos a criar sons no tempo livre, compartilhar ideias, influências; todos pareciam interessados em cinema, em discutir Truffaut, em ler e citar Garcia Llorca e outras novidades vindas de toda parte do mundo.

Outro fato digno de nota: Borges tinha quase 20 anos quando despertou para a música, mas mal conseguia terminar o terceiro colegial. Em nenhum momento ele relata qualquer tipo de pressão, dos pais ou de quem quer que seja, para tomar um rumo, fazer algo de útil, deixar de lado uma possível vagabundagem.

Algo impensável para os padrões de hoje, em que o ócio criativo recebe bordoadas assim que se manifesta. Llorca? Só se estiver na lista de vestibular. Truffaut, preto e branco e em 2D? Conta outra. Reunião com amigos ao fim da tarde? Melhor correr pra academia. Hoje é mais útil gastar tempo e dinheiro com cursos de inglês, informática, caratê e domar a hiperatividade com remédios. O resultado é que, anos depois, nos tornamos velhos e manifestamos, tarde da vida, as inquietações mais infantis em nossas redes – porque jamais fomos capazes de sonhar uma linha além daquela já traçada antes de nascermos. O estado da música popular de hoje, de versos comerciais e descartáveis, é talvez o maior exemplo dessa incapacidade expressiva.

A substituição da poesia cantada por “eu quero tchu eu quero tchá” é parte das mudanças nas próprias formas de relacionamento – e não só das propostas antes e depois das gravações. No Brasil de 2012 não imagino uma casa como aquela que reunia Wagner Tiso, Milton Nascimento e Lô Borges no mesmo espaço. Os apartamentos hoje, como tudo na vida, têm seus espaços funcionais: pequenos e confortáveis, mas impróprios para visitas, reservadas para a área gourmet, onde a galera se reúne pra jogar Playstation e o síndico reclama se alguém resolve cantar. Ninguém conseguirá fazer poesia se só souber empinar pipa pelo ventilador.

Hoje os passeios pelas ruas, depois de pular de bar em bar parecem programas do século passado. (Tecnicamente são). Com medo das ruas, andamos de carro, mesmo que sejam só dois quarteirões. As conversas reservadas ficam para o MSN, meio pelo qual é possível medir o que se diz e guardar o que se ouve de maneira privativa. Tivessem 20 anos hoje, os amigos Milton e Márcio provavelmente deixariam de lado as parcerias surgidas no meio da noite, entre álcool e caminhadas, para expressar seus sonhos sóbrios em 140 caracteres no Twitter. Quarenta anos depois, ninguém se lembraria deles.

Porque, se algo mudou dos 40 anos desde Clube da Esquina pra cá, foi a guinada na ideia de privacidade para o topo das preocupações humanas. Isso mudou as formas de relacionamento (dos que ainda se relacionam, claro) e, por ironia, dinamitaram a cultura do compartilhamento – o que, em tempos de Facebook, parece uma contradição. Porque a gênesis do disco era o compartilhamento, não de links, mas de ideias, palavras, acordes e letras escritas a muitas mãos – sempre a partir da vivência, e não de refrões para tocar no rádio ou convencer empresários.

Reunidas, criavam uma unidade, uma linha própria a um mundo que pedia para ser cantado e alcançado. É a ideia dos jovens reunidos, “pela última vez, à espera do dia, naquela calçada, fugindo pra outro lugar”.

Da mesma forma que perdemos atletas magistrais por não criar condições e espaços adequados para treinamento e capacitação, perdemos também talentos artísticos em escalas industriais. Não só por causa da miséria, mas por incutir nas jovens cabeças a ideia de que a vida só vale a pena se for seguida em linha reta; se crescermos e aparecermos o quanto antes, em voos solo, e cultivar nossos próprios espaços com conquistas pessoais.

O que sobrou daquele tempo, fora as memórias? Em 40 anos, Lennon morreu, a guerra seguiu (só mudou de lugar) e a liberdade aguardada após o fim da ditadura não veio. Os sonhos cantados em Clube 2 envelheceram. E os novos são rasgados assim que desabrocham. Ganhou a aposta quem acreditou que, a partiu daqueles dias, nada mais seria como antes...

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